O Sertão que Canta, Lê e Resiste: João Gomes e o Novo Nordeste Cultural
A entrevista de João Gomes publicada na revista Continente de número 282, editada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), inicia com uma reflexão que ultrapassa o universo da música e alcança o campo da formação humana. Ao projetar os próximos 25 anos, o cantor não fala de fama ou riqueza, mas de educação, de filhos na universidade e da leitura como força transformadora. Ao afirmar que “ler precisa virar o novo hype”, João Gomes se posiciona contra uma longa história de exclusão cultural que marcou o sertão nordestino, onde o acesso ao conhecimento sempre foi limitado pelas estruturas de poder.

Esse sertão por séculos esteve submetido ao coronelismo, sistema em que grandes proprietários concentravam terra, política e vida social, mantendo a população pobre dependente, analfabeta e silenciada. A miséria material vinha acompanhada da negação da educação, justamente para impedir autonomia crítica. Nesse contexto, a cultura popular — o canto, a dança, o cordel, o forró — tornou-se uma das poucas formas de expressão e resistência do povo sertanejo. A música não era entretenimento vazio: era memória, denúncia, consolo e identidade.
É nesse fio histórico que João Gomes se insere. Quando ele reconhece que o forró dialoga com o toré indígena e com ritmos europeus, ele toca no próprio processo de formação do Nordeste: um território moldado por povos originários, africanos escravizados e colonizadores, atravessado por violência, exploração e, ao mesmo tempo, criação cultural potente. O arrastar dos pés no chão, herdado de celebrações indígenas, não é apenas gesto rítmico — é marca ancestral de pertencimento à terra, ao território e à coletividade.

Assim como Luiz Gonzaga modernizou o forró sem romper com o sertão, João Gomes atualiza essa tradição para uma juventude urbana e digital, mas sem apagar sua origem social. Ao contrário de uma indústria cultural que frequentemente esvazia símbolos populares, ele os reinsere como orgulho histórico.
Essa resistência se materializa também na estética do couro. Ao lembrar que Lampião foi uma figura da resistência sertaneja do seu tempo, João Gomes aponta para um período em que o sertão vivia abandonado pelo Estado, submetido aos coronéis e à violência estrutural. O cangaço é uma das possíveis respostas à opressão da época, marcada pela ausência de direitos, justiça e proteção social. O couro que protegia da caatinga virou armadura social dos que enfrentavam a brutalidade cotidiana.
Luiz Gonzaga transformou esse vestuário em símbolo cultural, elevando o sertanejo ao palco nacional — não como caricatura, mas como sujeito histórico. Dominguinhos e outros artistas deram continuidade a esse processo. Quando João Gomes veste o couro e o chapéu, ele não faz performance: ele reocupa um lugar historicamente marginalizado, agora com visibilidade, orgulho e voz. Hoje, João Gomes também utiliza o boné de couro, seguindo a mesma tradição histórica do chapéu de couro e da alpercata Xô Boi, símbolos clássicos do vaqueiro nordestino e da vida sertaneja.
Seu chapéu herdado simbolicamente de mestres da cultura popular é, portanto, mais que adereço: é passagem de bastão histórica entre gerações de resistência cultural.

Mas o gesto mais revolucionário talvez seja sua defesa aberta da leitura. Num território onde o coronelismo produziu analfabetismo como estratégia de dominação, incentivar livros é romper com séculos de exclusão. Ao sonhar em escrever poesia, João Gomes mostra que o sertão não é apenas espaço de sobrevivência — é espaço de criação intelectual.
Ele atualiza uma longa tradição nordestina de artistas-pensadores: cantadores, poetas populares, escritores e músicos que usaram a palavra como libertação. Sua fala conecta o forró às bibliotecas, o palco à escola, a tradição à consciência crítica.

João Gomes representa, assim, um novo capítulo da cultura nordestina: não mais o Nordeste silenciado pelo coronelismo, não mais o sertão tratado como atraso, mas um território que dança, canta, lê, pensa e produz futuro.
Sua música carrega o povo.
Sua estética carrega a história.
Sua leitura carrega emancipação.
Ele não apenas entretém — ele reinscreve o sertão no centro da cultura brasileira.
João Gomes já é semente fértil e generosa na nova geração que brota o fruto da arte transformadora.
Neste encontro fenomenal de gerações que renovam a música nordestina sem perder a essência, temos esta pérola na voz de João Gomes e Ruan Vaqueirinho. Eles merecem muitos aplausos.
João Gomes já é um artista consolidado nacionalmente, com muito mérito, graças ao seu talento, carisma e autenticidade. Vê-lo cantar ao lado de Ruan Vaqueirinho, mais uma excepcional revelação da música, faz nosso orgulho bater mais forte.

João Gomes tem um futuro ainda mais brilhante. Ele segue os passos de outros grandes cantores brasileiros que abrem espaço para que novos talentos também possam brilhar.
Parabéns, João Gomes e Vaqueirinho! Que venham muitas outras parcerias para que possamos nos emocionar com vocês. É a boa música brasileira tocando o coração das novas gerações e mantendo viva a nossa cultura musical de raiz nordestina!
Viva o forró como resistência.
Viva a leitura como libertação.
Viva a cultura nordestina como força histórica.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/Ba.