Vamos falar de Dom Hélder do jeito que ele merece: sem verniz e sem altar
Ontem, 7 de fevereiro, celebramos o aniversário de Dom Hélder Câmara, nascido em 1909, em Fortaleza — um bispo que se tornou referência mundial por sua opção pelos pobres e sua coragem profética diante da injustiça. Para os mais jovens, pode parecer um caminho óbvio, mas ele precisou enfrentar estruturas poderosas no clero e na política, em um momento histórico em que o Brasil e o mundo viviam uma verdadeira ebulição geopolítica.
Dom Hélder foi um homem que mudou de lado na história — e isso, num país marcado por opressões civil-militares, não é pouca coisa. Iniciou sua vida política lá atrás, nos anos 1930, flertando com o Integralismo, aquele movimento de direita e autoritário liderado por Plínio Salgado, que encantou muita gente da Igreja Católica na época. Não dá para esconder isso. Ele mesmo nunca escondeu. O importante é que rompeu, fez autocrítica e virou a mesa.
A virada veio quando ele entendeu que não dava mais para uma Igreja falar em Deus e fechar os olhos para a miséria. No Concílio Vaticano II, Dom Hélder se transformou em um dos rostos mais inquietos da ala progressista do catolicismo. Quando assumiu a Diocese de Olinda e Recife, em 1964 — justamente no ano do golpe —, o Brasil entrava na ditadura e ele entrava na contramão da história oficial.

Durante o regime militar, enquanto muita gente poderosa se calava, ele falou. Denunciou tortura, perseguição, assassinato, fome. Não pegou em armas, mas desarmou o discurso da ditadura. Por isso foi censurado, espionado, tratado como inimigo interno. Aqui, tentaram apagá-lo; lá fora, virou referência mundial. Um bispo que assustava generais só com palavras — isso diz tudo. Sua autoridade moral e força popular, resguardadas pelos esquecidos do regime, fizeram de Dom Hélder uma liderança potente, daquelas que nenhuma ditadura consegue calar.
Dom Hélder não foi um santo de pedestal. Foi um homem que aprendeu com os erros, escolheu os pobres e pagou o preço. E talvez por isso seja tão atual: ele lembra que neutralidade, em tempos de injustiça, é sempre uma escolha de lado.
Como ele próprio dizia, com a clareza de quem sabia exatamente onde estava pisando:
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que os pobres não têm comida, me chamam de comunista.”

Ou ainda:
“Não me peçam para ser neutro diante da injustiça. A neutralidade, nesse caso, só favorece o opressor.”
Dom Hélder também sabia que sua luta não era de ódio, mas de enfrentamento moral:
“Prefiro os riscos da paz aos confortos da guerra.”
Deixou talvez sua lição mais incômoda, e mais atual, para uma Igreja e um país que ainda tentam conciliar fé com privilégio:
“A Igreja precisa ser pobre, para ser livre.”
Sua missão em tempos difíceis forjou toda uma geração — não somente católica, mas de homens e mulheres de fé — que dedicou a vida a acabar com a pobreza e as injustiças num país tão rico quanto o Brasil.
É por isso que Dom Hélder incomodou tanto. E continua incomodando. Porque há vozes que não envelhecem — atravessam o tempo como acusação. Sua luta missionária ultrapassou questões políticas e religiosas, tanto que ele será homenageado este ano no Carnaval do Recife pelo imortal Galo da Madrugada. Ou seja, o “santo guerreiro” superou a própria causa e tornou-se patrimônio imaterial da cultura popular.

Dom Hélder nos lembra a poesia de João Cabral de Melo Neto, “Tecendo a manhã”:
“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito
que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.”
O canto de liberdade e justiça social de Dom Hélder Câmara, continua vivo nos corações de quem sonha com um Brasil de todos os brasileiros.
Josias Gomes,
Conselheiro do TCE-BA