Quando o tribunal também vira história e cultura
A sessão do Pleno do Tribunal de Contas do Estado da Bahia transcorreu dentro da normalidade. A pauta foi debatida, os relatores apresentaram seus votos e o presidente conduziu os trabalhos com a serenidade habitual das sessões plenárias.
Ao final, concluída a votação das matérias constantes na pauta, o conselheiro Inaldo Paixão Santos Araújo apresentou uma moção de aplausos ao baiano Aroldo Cedraz, recentemente aposentado do Tribunal de Contas da União. Cedraz construiu uma longa trajetória pública: foi secretário de Estado, deputado federal e ministro do TCU. Tive, inclusive, a honra de ser seu colega de parlamento.

Em seguida, o conselheiro João Carlos Bacelar Bonfim pediu a palavra para associar-se à homenagem. Ao conceder-lhe a fala, o presidente do Tribunal, Gildásio Penedo Cavalcanti de Albuquerque Filho, citou seu nome completo. João Bonfim, por sua vez, retribuiu a gentileza e iniciou sua manifestação mencionando também o nome completo do presidente.
Foi nesse instante que um detalhe me chamou a atenção: os sobrenomes Cavalcanti e Albuquerque.
Pedi então a palavra.
Antes de chegar ao ponto que me intrigava, fiz um breve registro pessoal. Lembrei que, quando deputado federal, na legislatura em que Aroldo Cedraz pleiteava a vaga de ministro do TCU, ele me pediu apoio. Contudo, o Partido dos Trabalhadores, ao qual eu era filiado naquele momento, havia apresentado candidato próprio — o deputado federal cearense José Pimentel — e, por essa razão partidária, não pude lhe dar o voto.
Feito esse registro, dirigi-me ao presidente para fazer uma pergunta simples:
— Esse Albuquerque do senhor é da família fundadora de Pernambuco?
A resposta veio com naturalidade: sim, era a mesma família.
Nesse momento, o próprio presidente acrescentou uma curiosidade interessante sobre seu nome. Contou que o sobrenome Penedo tem origem em uma decisão tomada por seu bisavô. Vindo de Pernambuco, ao chegar à cidade de Penedo, ele teria gostado tanto do nome da cidade que resolveu incorporá-lo ao nome da família. Assim, o nome do lugar passou a fazer parte da identidade familiar e atravessou gerações até chegar ao nome que hoje conhecemos.
A partir dali, como o próprio presidente observou com bom humor, o tribunal também se transformou em espaço de cultura.
As famílias que moldaram Pernambuco
A família Albuquerque está entre aquelas que participaram diretamente da formação histórica de Pernambuco. Ao lado dela, outras linhagens tiveram papel central na estruturação da capitania, especialmente na economia açucareira. Entre elas estão Cavalcanti, Pais Barreto, Wanderley, Lins e Rego Barros.
Essas famílias constituíram o que muitos historiadores chamam de aristocracia do açúcar, grupo que durante séculos concentrou terras, engenhos e poder político na região.
Os Cavalcanti, por exemplo, pelo que já li, chegaram a Pernambuco ainda no século XVI. Um de seus primeiros representantes foi Filippo Cavalcanti, de origem florentina. Seus descendentes tornaram-se senhores de engenho e figuras influentes na vida econômica e política da capitania.
Mas a história pernambucana não foi construída apenas por essas elites. Ela também se ergueu sobre o trabalho de povos indígenas, africanos escravizados, mestiços e trabalhadores livres pobres. Sem eles, não teria existido a riqueza que sustentou o sistema dos engenhos.
O espírito rebelde de Pernambuco
A conversa abriu espaço para lembrar outro traço marcante da história pernambucana: sua tradição de rebeldia política.

Recordei então a Revolução Pernambucana de 1817, um levante que proclamou uma república inspirada nos ideais iluministas e republicanos que circulavam no mundo atlântico. Embora derrotado, o movimento marcou profundamente a história política do Brasil. Como resposta a rebeldia pernambucana, o regente Dom João VI, criou a província de Alagoas, desmembrando-a de Pernambuco.
Poucos anos depois, em 1824, Pernambuco voltaria a se insurgir na Confederação do Equador, movimento que contestava o centralismo do imperador Dom Pedro I e defendia a criação de uma república federativa no Nordeste.
A repressão foi dura. Como represália, Dom Pedro I retirou de Pernambuco toda a margem esquerda do rio São Francisco — da cidade de Carinhanha até Casa Nova — incorporando-a inicialmente a Minas Gerais, para logo em seguida, à Bahia. Foi uma decisão política que redesenhou o mapa do Nordeste.
Dois pernambucanos no tribunal da Bahia
No meio dessa conversa histórica surgiu também uma coincidência reveladora.
O Tribunal de Contas da Bahia tem hoje em seus quadros dois conselheiros ligados a Pernambuco, vindos de trajetórias sociais bastante diferentes.
De um lado, o presidente do tribunal, Gildásio Penedo Cavalcanti de Albuquerque Filho, pertencente a uma família tradicional associada à antiga elite canavieira pernambucana.
De outro, este que lhes fala: Josias Gomes da Silva, seu criado, filho de um curumba.
Curumba era o nome dado aos sertanejos do agreste pernambucano que migravam para a Zona da Mata em busca de trabalho no corte da cana. Meu pai, Jesuino Gomes da Silva, nascido em Gravatá, foi um desses homens que sustentaram com o próprio esforço a economia dos engenhos.
Uma pequena síntese da história
Talvez aquela homenagem, tão justa, feita pelo conselheiro Inaldo Paixão ao ex-ministro Aroldo Cedraz, tenha produzido algo que vai além do protocolo institucional.
Ela abriu espaço para um momento raro: uma conversa espontânea sobre a história, sobre famílias, sobre migrações e sobre a formação econômica dos estados de Pernambuco, Bahia e Alagoas.
De certo modo, ali estavam reunidos ecos de diferentes tempos históricos — das antigas famílias da aristocracia do açúcar aos trabalhadores anônimos que sustentaram os engenhos; das rebeliões pernambucanas do século XIX às trajetórias contemporâneas que hoje se encontram dentro de uma instituição pública.
Às vezes, basta um sobrenome mencionado numa sessão formal para que a história reapareça.
E então percebemos que, mesmo em um tribunal, a memória e a cultura continuam dialogando silenciosamente com o presente.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
