Esperança Garcia: a Voz que a Escravidão Não Calou
No silêncio áspero do sertão antigo, onde a lei era distância e o poder tinha rosto de senhor, uma mulher ousou escrever para não desaparecer. Esperança Garcia tomou da palavra como quem acende um candeeiro na escuridão — não para iluminar caminhos largos, mas para provar que ainda era gente. Escreveu com a dor de mãe apartada dos seus, com o peito rasgado pela ausência do marido e dos filhos, numa terra onde amar também era risco. E ali, entre currais, chicotes e rezas sussurradas, sua carta atravessou o abandono como um grito manso, desses que não fazem barulho no mundo, mas ficam ecoando na história.
Em meio à dureza do Brasil colonial, quando a escravidão moldava a vida e o destino de milhões de pessoas negras, essa voz feminina rompeu o silêncio imposto pela violência. Era a voz de Esperança Garcia, uma mulher escravizada que em 1770 teve a coragem de transformar sua dor em palavra escrita — e sua palavra em denúncia.
Naquele tempo, na capitania de São José do Piauí, a vida dos escravizados era marcada por castigos, separações familiares e absoluta ausência de direitos. Esperança que havia aprendido a ler e escrever com os jesuítas, tomou uma decisão extraordinária para alguém em sua condição: escreveu uma carta ao governador denunciando os maus-tratos que sofria, a violência do feitor e o sofrimento de seus filhos. Pedia também algo simples e profundamente humano — o direito de viver ao lado do marido.
Aquele documento, redigido com clareza e firmeza, não era apenas um desabafo. Era na essência uma petição de justiça. Séculos depois, a Ordem dos Advogados do Brasil reconheceria a grandeza desse gesto. Em 2022, declarou Esperança Garcia como a primeira advogada do Brasil, compreendendo que sua carta já expressava no século XVIII a defesa de direitos diante da autoridade pública.

A história de Esperança revela algo profundo sobre o Brasil. Mesmo sob o peso brutal da escravidão, mulheres e homens negros resistiram não apenas com o corpo, mas também com a inteligência, a palavra e a dignidade. Sua carta tornou-se símbolo dessa resistência — um testemunho de que a luta por justiça não começou nas instituições formais, mas muitas vezes nasceu da coragem dos que quase não tinham voz.
Essa memória segue viva também na literatura. O livro Esperança do escritor Enéas Barros, reconstrói a trajetória de Esperança Garcia em forma de romance histórico, mesclando pesquisa e narrativa literária para revelar o mundo colonial e a resistência negra no Nordeste do século XVIII. Tive a oportunidade de adquirir essa obra no Museu Garcia D’Ávila, na Praia do Forte, e recomendo a leitura a todos que desejam conhecer mais profundamente essa história.
Hoje, no Piauí, o dia 6 de setembro é dedicado à sua memória. Mais do que uma homenagem, é o reconhecimento de que a história do país também foi escrita por mulheres como ela, que transformaram sofrimento em luta e luta em legado.

Sua carta atravessou os séculos — e ainda fala.
E talvez seja por isso que sua história continue a nos chamar. Porque entender Esperança Garcia não é apenas olhar para o passado, mas reconhecer de onde vem a luta por justiça no Brasil.
Se quiser conhecer mais profundamente essa trajetória, vale a pena assistir ao vídeo que conta sua história — ele dá rosto, voz e emoção a essa mulher que o tempo não conseguiu calar, como também ler o livro Esperança, do escritor Enéas Barros, que reconstrói a trajetória de Esperança Garcia em forma de romance histórico.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
