SOUTO SOARES — ENTRE A CHAPADA, A TERRA E A MEMÓRIA POLÍTICA
TERRA, CAMINHOS E FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO
Sempre me impressionou como algumas cidades da Chapada Diamantina parecem nascer lentamente da própria paisagem. Souto Soares é uma delas.
Situada no Território de Identidade da Chapada Diamantina, a cidade carrega marcas profundas da formação histórica do interior baiano: a presença indígena, o avanço do garimpo, o poder regional dos coronéis e a lenta construção das comunidades rurais que moldaram o sertão chapadeiro.
Muito antes da ocupação colonial, a região já era habitada por povos indígenas, registrados historicamente como tapuios e cotoxós. Vestígios dessa presença permanecem nos sítios arqueológicos e nas pinturas rupestres espalhadas pelo território — sinais silenciosos de uma história muito anterior à chegada dos colonizadores.
A ocupação mais permanente do território começou ainda no século XVII, impulsionada pelo avanço de garimpeiros em busca de ouro e pedras preciosas na Chapada Diamantina. Mas diante das exigências da Coroa portuguesa sobre a mineração, muitos acabaram migrando para atividades agrícolas e pecuárias.

Assim surgiram as primeiras fazendas e pequenos núcleos populacionais.
DO LICURI AO NASCIMENTO DO POVOADO
A formação do antigo povoado de Ouricuri — posteriormente chamado Licuri — está profundamente ligada à vida rural.
O nome vinha da abundância do licurizeiro, palmeira típica da região e símbolo da convivência do homem com o semiárido.
No início do século XX, a Chapada Diamantina ainda era composta por vilas isoladas entre si, conectadas por estradas difíceis e pela circulação de tropeiros, comerciantes e vaqueiros. Nesse cenário, o poder político regional era fortemente influenciado por Horácio de Matos, uma das figuras centrais do coronelismo chapadeiro.


Foi nesse ambiente que Francisco de Matos, irmão de Horácio, se estabeleceu na localidade juntamente com famílias pioneiras como João Crispino Pires e Barnabé Gaspar. Aos poucos, o arraial cresceu.
A economia era sustentada pela agricultura, pela pecuária e, mais tarde, pela produção de cana-de-açúcar e cachaça artesanal — tradição que permanece viva até hoje.
O MEDO DA COLUNA PRESTES E O SERTÃO ISOLADO
Em 1926, o povoado viveu um episódio que marcou profundamente a memória local: a passagem da Coluna Prestes pela região.


Os integrantes do movimento eram chamados de “revoltosos” pela população local, influenciada pela propaganda das elites políticas e pelo discurso oficial do governo, que os apresentava como ameaça violenta ao sertão.
O medo espalhou-se rapidamente entre os moradores.
O episódio revela como o interior brasileiro vivia, isolado não apenas geograficamente naquele período, mas também politicamente — dependente das narrativas produzidas pelos grupos dominantes.
RELIGIÃO, EDUCAÇÃO E VIDA COMUNITÁRIA
A organização social do povoado também passou pela religiosidade.
Em 1938, iniciou-se a construção da primeira igreja católica local, dedicada a São João Batista, que se tornaria padroeiro da cidade. Poucos anos depois, em 1944, surgiria o primeiro templo protestante, ligado à Igreja Presbiteriana do Brasil.

Esses espaços religiosos ajudaram a estruturar a convivência comunitária num tempo em que o Estado tinha presença limitada no interior.
A educação também enfrentava enormes dificuldades. Muitos moradores dependiam de professores particulares itinerantes, como Severino Rodrigues, responsável pela alfabetização de diversas famílias da região.
Até o final da década de 1940, Licuri permanecia como um pequeno povoado rural, sustentado pelo cultivo de milho, feijão, mandioca e cana-de-açúcar.
JOÃO SOUTO SOARES: MEDICINA, POLÍTICA E PRESTÍGIO REGIONAL
É nesse contexto histórico da Chapada Diamantina que surge a figura de João Souto Soares, personagem cuja memória seria posteriormente incorporada ao nome do município.

Nascido em Rio de Contas, em 22 de agosto de 1912, formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1934 — numa época em que poucos homens do interior conseguiam acesso ao ensino superior.
Sua atuação médica ganhou destaque em Palmeiras, onde ficou conhecido pelo atendimento gratuito prestado às populações pobres da Chapada.
Em regiões marcadas pela ausência de serviços públicos, o médico frequentemente assumia papel muito maior que o exercício técnico da profissão: tornava-se referência moral, liderança comunitária e figura política.
João Souto Soares também teve atuação política expressiva. Foi uma das lideranças regionais e participou da fundação da Ação Integralista Brasileira em Palmeiras, vinculando-se ao movimento integralista que ganhou força no Brasil dos anos 1930.

A Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado, defendia um nacionalismo autoritário inspirado nos movimentos fascistas europeus daquele período. Seus integrantes utilizavam uniformes verdes, realizavam desfiles e adotavam o lema “Deus, Pátria e Família”.
O movimento cresceu especialmente entre setores médios urbanos, proprietários rurais e segmentos conservadores preocupados com o avanço das ideias socialistas e comunistas após a Revolução de 1930.

Na Bahia e em várias regiões do interior brasileiro, o integralismo encontrou espaço entre lideranças locais, profissionais liberais e membros das elites agrárias. Em muitos municípios, a adesão ao movimento representava não apenas alinhamento ideológico, mas também instrumento de afirmação política regional num país ainda profundamente marcado pelo coronelismo e pelas disputas oligárquicas.
A trajetória de João Souto Soares revela, portanto, as contradições daquele tempo: homens públicos que reuniam influência profissional, liderança regional e participação ideológica em um Brasil ainda fortemente rural, hierárquico e socialmente desigual.
João Souto Soares faleceu em Salvador, em 11 de agosto de 1952.
Dez anos depois, quando Licuri conquistou sua emancipação política, a nova cidade recebeu seu nome.
A EMANCIPAÇÃO E O NASCIMENTO DE SOUTO SOARES
Em 1953, Licuri tornou-se distrito de Seabra. A emancipação definitiva ocorreu em 5 de julho de 1962, por meio da Lei Estadual nº 1.700.

A articulação política desse processo teve forte participação de Rosalvo Pinto, liderança local que defendia a autonomia administrativa do povoado.
Com a emancipação, nasce oficialmente Souto Soares.
Mais do que uma mudança administrativa, a nova denominação representava a inscrição de uma memória política na geografia baiana.
ECONOMIA, COMUNIDADES TRADICIONAIS E PERMANÊNCIAS SOCIAIS
Hoje, Souto Soares possui cerca de 17 mil habitantes e mantém forte vínculo com a agricultura familiar.
A economia local é sustentada principalmente pela produção de:
* feijão
* milho
* mandioca
* mamona
* cana-de-açúcar
A tradicional produção artesanal de cachaça permanece como símbolo econômico e cultural da cidade.

O município também abriga importantes comunidades tradicionais, incluindo quilombolas e comunidades de fundo e fecho de pasto, como as comunidades da Cisterna e de Segredo — formas históricas de organização coletiva típicas do semiárido baiano.
Essas comunidades revelam que o território continua marcado pela relação coletiva com a terra e pela resistência cultural das populações rurais.
ENTRE O CORONELISMO E A CIDADANIA
A história de Souto Soares ajuda a compreender as múltiplas camadas da formação do interior baiano:
* a presença indígena
* o avanço do garimpo
* o coronelismo chapadeiro
* a religiosidade popular
* a força da agricultura familiar
* as permanências das comunidades tradicionais

É uma cidade onde convivem diferentes temporalidades do Brasil.
Porque no fundo, cidades como Souto Soares não são apenas divisões administrativas.
São territórios onde a história brasileira permanece viva — entre a terra, a memória e a luta cotidiana do povo sertanejo.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
