Caboclo Sonhador: Quando a música nordestina vira painel da nossa história
Poucas músicas começam de forma tão profunda quanto “Caboclo Sonhador”:
“Sou um caboclo sonhador
Meu senhor, viu?
Não queira mudar meu verso
Se é assim, não tem conversa
Meu regresso para o brejo
Diminui a minha reza.”
Camy Moury faz uma análise perfeita da música de Maciel Melo, consagrada na voz de Flávio José. Um encontro de corpo e alma de dois artistas que têm no Nordeste e no povo nordestino os mananciais criativos para embasar a cultura de uma região que viveu muitos contrastes, dentre eles a migração forçada para o Sul e o Sudeste.
Assim como, com o tráfico de africanos para o Brasil, os poderosos tentaram apagar as referências históricas, religiosas, culturais e gastronômicas dos escravizados — e falharam miseravelmente —, aconteceu o mesmo com os retirantes nordestinos. Nosso povo resistiu. Não por acaso, existe uma parte do Nordeste em cada região brasileira.

Caetano cantou a saudade de Santo Amaro dizendo: “Narciso acha feio o que não é espelho.”
Maciel cantou seu pranto sertanejo assim:
“Coração tão sertanejo
Vejam como anda plangente o meu olhar
Mergulhado nos becos do meu passado
Perdido na imensidão desse lugar.”
As memórias individuais e coletivas do poeta sertanejo encontram abrigo nos corações migrantes e também nos de quem ficou em sua terra. Como não se identificar com estes cânones do imaginário sertanejo:
“Sou devoto de Padim Ciço Romão
Sou tiete do nosso Rei do Cangaço
E meu regaço culminado em pensamentos
Em meu rebento sedento eu quero chegar.”

A música nordestina ultrapassa a esfera artística e serve de painel histórico para entender os tempos difíceis que atravessamos, mas que, felizmente, temos superado. Claro, tudo com poesia e prosa da boa, terreno onde somos insuperáveis!
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
