Elevador Lacerda: Engenharia, Política e a Sombra do Tráfico Negreiro
Quem vê o Elevador Lacerda — primeiro elevador urbano do mundo e um dos principais cartões-postais da Bahia — não imagina que seu idealizador, Antônio Francisco de Lacerda, foi um poderoso traficante de escravizados. Ele fez fortuna com a exploração de seres humanos mesmo depois da Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que proibia formalmente o tráfico negreiro.
Como podemos comprovar em vídeos e demais referências históricas, a fortuna adquirida por Lacerda com a desumanização de africanos e seus descendentes financiou empreendimentos bancários, logísticos e a formação dos filhos nos Estados Unidos. O perfil cabal do embrião de boa parte da elite financeira do Brasil.
A ironia é que a obra-prima da engenharia brasileira, debruçada sobre a Baía de Todos os Santos para ligar a Cidade Baixa (zona portuária e comercial) à Cidade Alta (centro histórico e administrativo), vencendo um desnível de 72 metros, idealizada por Lacerda, não foi executada pelo traficante de escravizados. Na realidade, ele era um ferrenho opositor do governo provincial que, de fato, executou a obra. Quando a companhia que idealizou o projeto faliu, o governo encampou a construção do que viria a ser o coração da capital baiana. O presidente da província, visando um gesto de conciliação política (ou uma provocação bem-humorada), batizou o elevador com o nome do seu maior crítico. Daí o nome Elevador Lacerda.

No Brasil dos escravizados, era comum homenagear traficantes de seres humanos — algo parecido com o que aconteceu na ditadura militar ao homenagear quem atentou contra a democracia. O mais assustador é que não somente Salvador, mas várias cidades do Brasil ainda mantêm nomes de monumentos, praças, ruas e órgãos públicos em homenagem a personagens nefastos da história do país.
Ao mesmo tempo, muita gente boa que merece ser homenageada está na prateleira do esquecimento. No caso do Elevador Lacerda, a obra superou — e muito — o seu entusiasta. Foi incorporada pela magia da Baía de Todos os Santos e ressignificada por baianos e gente do mundo inteiro. Mas a pergunta que fica é: até quando inimigos da pátria batizarão nossos espaços de pertencimento e memória?
A história por trás do Elevador Lacerda lembra a máxima proferida por Balzac no romance O Pai Goriot: “O segredo das grandes fortunas sem causa aparente é um crime esquecido, porque o serviço foi bem-feito”.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino.
