Maria Camarão e a resistência das guerreiras de Tejucupapo
As mulheres nordestinas são guerreiras centrais nas lutas libertárias do Brasil. Na Restauração Pernambucana contra a invasão holandesa, temos um vasto acervo que demonstra a liderança de André Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Filipe Camarão. Mas poucos sabem que a companheira do líder indígena, Maria Camarão, também foi uma heroína que comandou a histórica Batalha de Tejucupapo, em 1646.
Ao lado de outras mulheres, Maria Camarão utilizou táticas de guerrilha para impedir o avanço dos holandeses. Contra as armas dos invasores, as guerreiras de Tejucupapo prepararam caldeirões de água fervente com pimenta para atingir os olhos do inimigo. Além dos instrumentos improvisados, contavam com paus, chuços, roçadeiras e tudo mais que pudesse surpreender o adversário. Sabendo antecipadamente do avanço batavo, reforçaram as paliçadas que cercavam o povoado, organizaram emboscadas e lançaram mão de outras estratégias que lhes dessem algum tipo de vantagem.
Frei Manuel Calado, cronista daqueles dias de luta e patriotismo, registrou com assombro o que viu: uma mulher de face serena e crucifixo sobre o peito, empunhando armas como se embalasse um filho. Maria Camarão não esteve à sombra do marido. Esteve à frente das mulheres do Arraial de Bom Jesus, fortificação improvisada na resistência, onde cada palmo de terra era defendido com flechas e preces.
Mesmo sendo uma heroína nacional, apenas em 2018 o Brasil decidiu inscrever o nome de Maria Camarão no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, num mármore distante em Brasília. Mas o verdadeiro monumento a essa guerreira está fincado em outro lugar: na memória movediça dos manguezais e canaviais pernambucanos, onde, em certas noites — dizem os mais velhos — ainda se ouve o rumor de passos femininos em marcha: ligeiros como setas, suaves como ave-marias, firmes como a terra que ninguém doma.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
