Lamine Yamal e a herança de quem desafiou o preconceito
A luta contra o racismo e a xenofobia no futebol, simbolizada pelo craque espanhol Lamine Yamal, remete aos primórdios do esporte. O futebol nasceu nos setores mais elitizados da sociedade, a começar pela Inglaterra do século XIX, onde era praticado principalmente pelas classes dominantes, especialmente por estudantes de colégios internos de elite e universidades como Cambridge. Durante muito tempo, o futebol foi praticamente proibido para negros, operários e imigrantes.
O que ninguém poderia imaginar é que, mesmo no século XXI, após o surgimento de tantos craques negros, tendo Pelé como Rei do Futebol, e com as principais ligas do mundo reunindo jogadores de todos os continentes, o racismo e a xenofobia ainda precisassem ser combatidos. Independentemente de questões partidárias ou ideológicas, toda forma de discriminação deve ser enfrentada por pessoas, países e instituições que prezam pelos valores da civilização e da igualdade.
Antes de se tornar o esporte do povo, o futebol foi sinônimo de preconceito, exclusão e perseguição aos grupos socialmente oprimidos. Por isso, é importante que jogadores como Lamine Yamal assumam uma posição firme e defendam, dentro e fora de campo, o espaço conquistado por seus antecessores. Até mesmo no Brasil, um país miscigenado e construído pela contribuição de milhões de imigrantes, o racismo ainda se manifesta e precisa ser combatido com firmeza.
Assim como o europeu, o futebol brasileiro nasceu elitizado, no fim do século XIX, em um país marcado por profundas desigualdades sociais e pela mais cruel de suas chagas: a escravidão. No Brasil pós-abolição, o esporte restringia a participação de negros, sendo praticamente exclusivo para homens brancos da elite econômica. Se hoje jogadores como Lamine Yamal utilizam sua voz e sua projeção para combater a opressão em suas comunidades e em seus países, no Brasil muitos atletas negros precisaram recorrer ao chamado “pó de arroz” e ao alisamento dos cabelos para disfarçar sua aparência e conseguir espaço no futebol.

Até mesmo na Seleção Brasileira os jogadores negros eram perseguidos. Um dos casos mais emblemáticos é o de Arthur Friedenreich, considerado o primeiro grande craque do futebol brasileiro. Filho de pai alemão e mãe negra, foi um dos maiores artilheiros da história do esporte. Apesar de seu talento, ficou fora do Campeonato Sul-Americano de 1921 após uma recomendação atribuída ao presidente Epitácio Pessoa para que apenas jogadores brancos representassem o Brasil no exterior. O episódio é reconhecido pelo Museu do Futebol como um exemplo de racismo institucional no esporte.
Fazendo justiça histórica, alguns dos primeiros clubes brasileiros a romper com essa lógica racista foram o Bangu Atlético Clube, que abriu espaço para operários e jogadores negros, e, posteriormente, o Club de Regatas Vasco da Gama. Em 1924, por meio da histórica “Resposta Histórica”, o Vasco recusou-se a excluir atletas negros, pobres e trabalhadores para permanecer na principal liga do Rio de Janeiro. O sucesso do clube e do futebol-arte protagonizado por jogadores negros e operários contribuiu decisivamente para enfraquecer as barreiras do racismo no futebol brasileiro.

De Barbosa a Lamine Yamal, a história revela que jogadores negros continuam sendo alvo de perseguições racistas quando os resultados esportivos não correspondem às expectativas de parte da torcida. No Brasil, após o Maracanazo, na Copa do Mundo de 1950, quando a Seleção Brasileira foi derrotada pelo Uruguai por 2 a 1, o goleiro Barbosa, negro e ídolo do Vasco, carregou durante toda a vida o peso injusto daquela derrota. Muitos racistas atribuíram aos jogadores negros a responsabilidade pelos fracassos da Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Esse estigma começou a ser rompido em 1958, quando um jovem negro de apenas 17 anos, Pelé, ao lado de Garrincha, o “Anjo das Pernas Tortas”, conduziu o Brasil à conquista de seu primeiro título mundial.

Ainda hoje, jogadores negros que defendem seleções europeias costumam sofrer ataques racistas após eliminações em Copas do Mundo ou outros grandes torneios. Por isso, o racismo deve ser combatido em todos os espaços: nas comunidades, nos bairros, nas cidades, nos estados e nos países. A FIFA, por exemplo, dispõe de instrumentos que podem ser utilizados com mais rigor para identificar, punir e banir racistas dos estádios e do ambiente do futebol.
Parabéns, Lamine Yamal. Independentemente do resultado final da Copa, você já é um campeão. Seu futebol e suas atitudes representam a coragem de quem enfrenta o preconceito e preserva a essência do futebol-arte.
Abaixo o racismo!
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
