12 anos sem Ariano Suassuna
Em 23 de julho de 2014, o Brasil se despedia do imortal Ariano Suassuna, paraibano que defendeu a nossa gente e as nossas raízes como poucos. Ariano leu os clássicos, estudou a cultura, a história e as tradições de outros povos, mas decidiu colocar em primeiro plano o povo brasileiro e, com maior intensidade, os nordestinos, os sertanejos, os desvalidos, os mentirosos, os cordelistas e os cantadores. Aquele Brasil profundo que o “Brasil oficial” finge não conhecer.
Ariano bebeu de muitas águas, mas alimentava a sua arte na fonte que irriga o nosso solo e forja o sonho de um Brasil autoral — ou, melhor dizendo, armorial. O Movimento Armorial, liderado por Ariano e lançado na década de 1970, ousou criar uma vertente artístico-cultural erudita fundamentada na valorização das manifestações populares. Sua influência alcançou o teatro, a literatura, a música, as artes plásticas, o cinema e até mesmo a arquitetura.
O Movimento Armorial surgiu como uma resposta à crescente padronização cultural imposta pela indústria do entretenimento e à tendência de importar modelos estéticos estrangeiros como se fossem universais. Ariano jamais rejeitou o diálogo com outras culturas — ao contrário, conhecia profundamente os clássicos da literatura ocidental e admirava grandes artistas do mundo. O que combatia era a submissão cultural: a ideia de que o Brasil só seria moderno se imitasse os outros. Para ele, um povo que abandona a própria memória, despreza seus símbolos e renuncia à sua linguagem corre o risco de perder também a sua capacidade de imaginar o futuro. A verdadeira universalidade, defendia Ariano, nasce quando uma nação fala ao mundo com a sua própria voz.


Ariano já trazia na bagagem obras teatrais como Uma Mulher Vestida de Sol (1947), O Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1957), O Casamento Suspeitoso (1957) e A Pena e a Lei (1959). Em 1971, publicou sua obra-prima, Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, posteriormente adaptada para uma minissérie exibida pela TV Globo em 2007.
Ironicamente, Ariano conseguiu transpor os portais do Sertão justamente por meio dos veículos de comunicação de massa. Em 2000, O Auto da Compadecida ganhou sua adaptação para o cinema. Dirigido por Guel Arraes, com roteiro de Adriana Falcão, João Falcão e do próprio diretor, o filme tornou-se um dos maiores sucessos do cinema nacional, projetando definitivamente o nome de Ariano Suassuna como um dos escritores e dramaturgos mais populares do país e consolidando-o como um dos autores basilares da cultura brasileira.

Hoje, 23 de julho de 2026, completam-se 12 anos da partida de Ariano Suassuna. Sua obra permanece viva. Suas aulas-espetáculo, muitas delas gravadas e amplamente compartilhadas nas redes sociais, continuam difundindo aquilo que o mestre armorial defendeu durante toda a vida. É inevitável imaginar quais seriam suas críticas aos algoritmos das plataformas digitais, ao consumo desenfreado de referências estrangeiras e, sobretudo, às tentativas de sequestrar a cultura nordestina, transformando-a em produto, esvaziando seus significados e até descaracterizando celebrações como o nosso São João.
Manter vivo o pensamento de Ariano é dar continuidade ao legado daqueles que acreditam em um país capaz de pensar com a própria cabeça e sentir com o próprio coração. Somos os condutores da civilização brasileira — a única que verdadeiramente nos pertence. Não há projeto de futuro sem identidade, nem desenvolvimento sem cultura. Como ensinou Ariano, é somente reconhecendo a riqueza do nosso povo, da nossa arte e da nossa história que poderemos nos libertar da mediocridade imposta por aqueles que transformam a cultura em mera mercadoria e a identidade nacional em simples produto de consumo.

Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
