CONHECER O BRASIL É MUITO BOM. COMPREENDÊ-LO É MELHOR AINDA
Estou em Ouro Preto para participar do IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas. Decidi chegar um dia antes. Queria aproveitar a oportunidade para conhecer, sem pressa, a antiga Vila Rica, um dos lugares mais importantes da formação econômica, política e cultural do Brasil.
À medida que caminhava por suas ruas de pedra, compreendi que Ouro Preto não é apenas uma cidade histórica. É um livro aberto. Cada igreja, cada casarão, cada ladeira e cada praça guardam capítulos da construção do Brasil.
Antes mesmo de chegar à cidade, o Pico do Itacolomi, com seus 1.772 metros de altitude, dominava a paisagem. Para os bandeirantes do século XVII, ele era muito mais do que uma montanha: era um marco geográfico. Quando Antônio Dias avistou aquele gigante de pedra, soube que estava próximo das jazidas que dariam origem ao maior ciclo do ouro da América Portuguesa.

Mas o ouro não saiu sozinho das montanhas.
Existe uma parte dessa história que, por muito tempo, permaneceu em segundo plano. Muitos dos africanos trazidos à força para Minas Gerais eram provenientes de regiões onde a mineração do ouro era praticada havia séculos, como os antigos reinos da África Ocidental. Eles dominavam técnicas de prospecção, lavagem e beneficiamento do minério. Não eram apenas mão de obra escravizada; eram também portadores de conhecimentos técnicos que contribuíram decisivamente para a exploração das minas. Reconhecer esse legado é fazer justiça a uma parcela essencial da nossa história.


Comecei a visita às igrejas pela Igreja de São Francisco de Assis, considerada por muitos historiadores da arte a obra-prima de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Ali, o barroco mineiro atinge sua expressão mais refinada. O projeto da fachada, o magnífico portal em pedra-sabão, os púlpitos e grande parte da decoração revelam a genialidade de um artista que, apesar das limitações físicas impostas pela doença, produziu uma das mais extraordinárias obras da arte ocidental nas Américas. No interior da igreja, as pinturas do teto executadas por Manuel da Costa Ataíde, especialmente a representação de Nossa Senhora cercada por anjos mestiços, completam um conjunto artístico de rara beleza e profundo significado cultural. Ao visitar aquele templo, compreende-se por que Aleijadinho se tornou o maior símbolo do barroco brasileiro.

Depois fomos percorrer o interior da Igreja de Santa Efigênia, essa reflexão tornou-se ainda mais forte. Erguida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ela simboliza a extraordinária capacidade de homens e mulheres escravizados e libertos de transformar sofrimento em arte. A talha barroca, os símbolos africanos discretamente incorporados à decoração e a devoção a uma santa africana revelam um diálogo singular entre culturas. Não por acaso, Martinho da Vila dedicou uma bela canção à igreja, reconhecendo-a como um dos maiores símbolos da presença africana na formação da identidade brasileira.

Se Santa Efigênia emociona pela força de sua história e pela presença da cultura africana, São Francisco de Assis impressiona pela genialidade artística de Aleijadinho e Mestre Ataíde. São duas faces complementares do barroco mineiro: uma marcada pela resistência e pela identidade; outra pela sofisticação estética que levou a arte colonial brasileira ao seu ponto mais elevado.
Pouco depois, visitei a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, considerada a igreja brasileira com a maior quantidade de ouro aplicada em sua decoração. A beleza impressiona. O douramento parece transformar o interior do templo em uma antecipação da Jerusalém Celeste descrita no Apocalipse. Mas aquela riqueza também convida à reflexão. O ouro que deslumbra os olhos foi extraído pelo trabalho de milhares de homens e mulheres submetidos à escravidão.

Foi o ouro que fez nascer Vila Rica. Durante boa parte do século XVIII, a cidade tornou-se o principal centro econômico da colônia, irradiando riqueza, cultura, religiosidade e arte. Ali floresceu o barroco mineiro, cuja expressão máxima encontramos na obra de Aleijadinho e de Manuel da Costa Ataíde, artistas que transformaram Minas Gerais em um dos maiores centros de criação artística das Américas.
Quando as jazidas começaram a se esgotar, no final do século XVIII, Ouro Preto entrou em declínio econômico. Paradoxalmente, foi justamente essa decadência que preservou seu extraordinário patrimônio histórico. Enquanto outras cidades se modernizavam, Ouro Preto permaneceu praticamente intacta, permitindo que hoje possamos caminhar por um dos mais importantes conjuntos urbanos coloniais do mundo.


Entretanto, conhecer Ouro Preto é apenas o começo.
O Brasil guarda outras cidades que contam capítulos igualmente fascinantes da nossa história.
Na Chapada Diamantina, cidades como Lençóis, Mucugê, Rio de Contas e Andaraí preservam elegantes casarões erguidos durante a corrida pelos diamantes. Ali, o brilho das pedras preciosas também moldou paisagens, fortunas e destinos.
No Recôncavo Baiano, especialmente Cachoeira e Maragogipe, encontram-se alguns dos mais importantes testemunhos do ciclo do açúcar. Os sobrados, as igrejas barrocas e o traçado urbano dessas cidades revelam a prosperidade proporcionada pelos engenhos e pelo comércio atlântico, ao mesmo tempo em que preservam a memória da decisiva contribuição africana para a formação da cultura brasileira.
Em Pernambuco, Recife, Olinda e Igarassu contam uma história marcada pela economia açucareira, pela ocupação holandesa, pelas lutas políticas e por uma impressionante riqueza cultural. Foi ali que ocorreram episódios decisivos como a resistência aos holandeses, a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador, movimentos que ajudaram a formar o pensamento político brasileiro.

Há um traço comum entre Minas Gerais, Bahia e Pernambuco que não pode ser ignorado. Os ciclos do ouro, do diamante e do açúcar produziram riqueza extraordinária, mas tiveram como sustentação o trabalho de milhões de africanos escravizados e de seus descendentes. A escravidão marcou profundamente a formação econômica, social e cultural desses três estados. Ao mesmo tempo, foi justamente a população negra que deixou contribuições decisivas para a mineração, a agricultura, a arquitetura, a música, a culinária, a religiosidade e as manifestações culturais que hoje admiramos como parte do patrimônio brasileiro.
Nenhuma visita às cidades históricas substitui a leitura. Os livros permitem compreender aquilo que as igrejas, as montanhas e os casarões apenas sugerem.
Para quem deseja aprofundar o conhecimento sobre Ouro Preto e o ciclo do ouro, recomendo O Sol e a Sombra, de Laura de Mello e Souza, uma das maiores especialistas no Brasil colonial. Como romance histórico, Boca do Inferno, de Ana Miranda, recria com extraordinária sensibilidade o ambiente da sociedade colonial e ajuda a compreender o mundo que deu origem às Minas Gerais do século XVIII.
Sobre a Chapada Diamantina e o interior baiano, a leitura de Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, tornou-se indispensável para compreender a formação social do sertão, a herança da escravidão e a profunda relação entre a terra e seus habitantes.
Para entender o Recôncavo Baiano e o ciclo do açúcar, recomendo Segredos Internos, do historiador norte-americano Stuart B. Schwartz, uma obra clássica sobre a sociedade açucareira baiana e a importância dos engenhos na formação econômica e social do Brasil.
Já para compreender Pernambuco, sua tradição libertária e seus conflitos políticos, indicaria A Fronda dos Mazombos, de Evaldo Cabral de Mello, O Negócio do Brasil, de José Antônio Gonsalves de Mello, e A Outra Independência, de Evaldo Cabral de Mello. São obras fundamentais para entender a invasão holandesa, a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador.
Viajar pelas cidades históricas é sempre uma experiência enriquecedora. Vale escolher um guia com conhecimento amplo sobre Ouro Preto. O guia que fez o tour comigo, com Cecília e Ariane nos fez conhecer muito mais que a história dos sinos, das ruas de pedra, nos fez conhecer sobre a economia, a importância da engenharia africana. Parte deste texto só foi possível ser escrito graças a colaboração de Couboi, nome de guerra do nosso guia turístico.
Mas a viagem se torna muito mais profunda quando é acompanhada pelos livros. As igrejas, os casarões, as montanhas e as ruas antigas contam uma parte da história; os historiadores e os romancistas nos ajudam a compreender a outra.

Volto de Ouro Preto ainda mais convencido de que conhecer o Brasil é uma das formas mais completas de exercer a cidadania. Antes de buscarmos no exterior as grandes civilizações do mundo, vale a pena percorrer as nossas cidades históricas. Nelas estão gravadas as marcas do trabalho, da criatividade, das contradições, da resistência e da diversidade que fizeram nascer o Brasil.
Conhecer o Brasil é muito bom. Compreendê-lo é melhor ainda.
Josias Gomes
Engenheiro Agrônomo, ex-deputado federal, devoto de padre Cícero e , atualmente Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
