Quando a Revolução Cultural encontra a Revolução Política
Olhar para a história de Pernambuco é encontrar a origem de um povo insubmisso, revolucionário, que, inclusive, perdeu muitos mártires nos campos de batalha e até mesmo parte do seu território, como punição aplicada pelo Império aos pernambucanos por desafiarem o poder vigente. A Revolução Praieira faz parte dessas lutas nacionalistas e anticoloniais. Chico Science transformou esse episódio em música.
O vídeo explica muito bem o contexto da época que fez eclodir a Revolução Praieira: a disputa política entre o Partido Conservador, liderado por Francisco Rego Barros, e o Partido Liberal, liderado pelos Cavalcanti. As constantes crises políticas e econômicas formaram a tempestade perfeita para o nascimento do Partido Nacional de Pernambuco, apelidado de Partido da Praia — e de seus membros, chamados de “praieiros”.
Os “praieiros” queriam modificar o Estado por meio de reformas populares: direito ao voto livre e universal; liberdade de imprensa; fim do Poder Moderador, com a redução da autoridade centralizadora do imperador; federalismo e autonomia, garantindo maior independência às províncias; e garantias sociais, com o trabalho como garantia de vida e a reforma do Poder Judiciário.
Depois de fazer parte de um governo liberal e sofrer um revés político com a volta dos conservadores ao poder, o Partido da Praia não via outra saída senão a Revolução Praieira.
Os principais líderes da Revolução Praieira dividiram-se entre a liderança política e ideológica, responsável pela formulação das propostas do Partido da Praia, e a liderança militar, que comandava as tropas em combate.

Liderança política e ideológica
Borges da Fonseca: jornalista e principal ideólogo do movimento. Foi o redator do famoso Manifesto ao Mundo, documento que sintetizava as exigências liberais e sociais dos rebeldes.
Joaquim Nunes Machado: deputado e influente líder político do Partido da Praia. Sua morte em combate, em 1849, desestruturou fortemente o movimento.
Liderança militar
Pedro Ivo Veloso da Silveira: principal comandante militar das forças praieiras. Conhecido por sua habilidade tática, liderou a guerrilha nas matas de Pernambuco e a marcha contra o Recife.
Manuel Pereira de Morais: proprietário de terras que aderiu à revolta e atuou no comando das forças insurgentes ao lado de Pedro Ivo.
A Revolução Praieira foi a última grande rebelião provincial do Brasil no Segundo Reinado. Em seu bojo, carregava ideais libertários que dialogavam com aqueles da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, de 1824.
Em 1994, o pernambucano Chico Science reativou o espírito revolucionário dos nossos heróis da pátria e homenageou a Revolução Praieira em um dos discos mais importantes da música brasileira, Da Lama ao Caos, com a faixa emblemática “A Praieira”.
Daquele momento em diante, começava uma nova revolução cultural, batizada de Manguebeat. No fundo: as praias, os mangues, as matas, o chão, os rios e até o ar de Pernambuco transpiram liberdade — e esse eco histórico aparece nos mais diversos movimentos políticos, sociais, culturais e artísticos.
Por isso, não basta ser pernambucano: é preciso sentir orgulho de pertencer a este povo insubmisso.
Agora você já sabe:
Chico Science e a Nação Zumbi deram a letra:
“E é praieira!
Vou lembrando a Revolução.”
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
