Uma história contada sem as mulheres nunca será completa
Seu Freitas faz uma reflexão bem-humorada e, ao mesmo tempo, carregada de verdade quando o assunto é a valorização das mulheres que ajudaram a mudar o país. Temos mulheres nordestinas pioneiras na política, nas artes, nas ciências, no desenvolvimento regional e nacional, entre tantas outras áreas. Mas aqui reside uma pergunta que não quer calar: por que muitas dessas mulheres não estão no imaginário popular como figuras de destaque?
Podemos explicar esse esvaziamento histórico a partir do conceito de sociedade patriarcal, na qual o poder, a autoridade e o controle das propriedades ficam majoritariamente nas mãos dos homens. Nesse modelo, as mulheres são empurradas para uma posição de subordinação e, muitas vezes, de esquecimento. Suas contribuições ao longo do tempo acabam invisibilizadas para grande parte da população.
Quando se fala em herói nacional, Tiradentes é frequentemente lembrado, mas poucos citam Joana Angélica, Maria Felipa, Dandara, Anita Garibaldi, Maria Quitéria e Maria Camarão. Muitas vezes, valoriza-se a figura de mulheres ligadas ao poder dominante, enquanto outras, que desafiaram estruturas de poder e tiveram papel decisivo na construção do país, são colocadas no rodapé da história. É o caso, por exemplo, da Princesa Isabel, cuja trajetória ocupa um espaço muito maior no imaginário nacional do que o de tantas outras mulheres que protagonizaram lutas sociais e políticas.
Na arte, também temos inúmeros exemplos: Chiquinha Gonzaga, Carolina Maria de Jesus, Tarsila do Amaral, Rachel de Queiroz e tantas outras mulheres extraordinárias, ainda pouco conhecidas do grande público.
Podemos constatar, portanto, que o apagamento da figura feminina não acontece apenas no Nordeste. É algo profundamente enraizado na sociedade brasileira e relacionado à forma como nossa sociedade se organizou estruturalmente ao longo da história, sob forte influência do patriarcado.
Vejam como, durante décadas, tentaram limitar a participação das mulheres na vida do país. Apenas em 1932 elas conquistaram o direito ao voto. Até 1962, o Código Civil de 1916 estabelecia restrições à autonomia da mulher casada, que precisava da autorização do marido para exercer determinadas atividades profissionais. O divórcio legal só se tornou possível a partir de 1977. E somente em 1988 a Constituição Federal estabeleceu, de forma expressa, a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres na sociedade conjugal. Antes disso, o marido era considerado o “chefe da família” e concentrava poderes legais sobre decisões relativas ao lar e aos filhos.
Os impactos de uma sociedade patriarcal ainda imperam nos espaços de poder. Apesar de serem maioria da população brasileira, as mulheres ocupam cerca de 38% dos cargos de alta liderança no Brasil, tanto no setor público quanto no setor privado, segundo levantamento citado pela Forbes. Elas continuam recebendo salários menores e, muitas vezes, enfrentando uma jornada tripla, que combina trabalho, cuidados com a família e responsabilidades domésticas.
A questão de gênero no Brasil, portanto, vai muito além do esquecimento de mulheres notáveis ao longo da história. Ela impacta diretamente a vida de milhões de brasileiras, em todas as classes sociais.
Ressaltar o protagonismo e o pioneirismo das mulheres brasileiras na construção do nosso país, aliados à implementação de políticas de Estado, é fundamental para fazer do Brasil uma nação mais democrática e capaz de valorizar as mulheres em todas as instâncias da sociedade.
Esta é uma luta de todos nós.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
