Paulo Freire na região cacaueira – 105 anos do Patrono da Educação Brasileira
Paulo Freire na região cacaueira
Em abril de 1992, tive a honra de levar Paulo Freire à região cacaueira da Bahia. Sua passagem por Itabuna, pela Universidade Estadual de Santa Cruz e por Coaraci constituiu um dos momentos mais marcantes da luta pela educação popular no sul do estado.
Em Itabuna, Paulo Freire fez uma palestra no Grapiúna Tênis Clube para uma grande plateia, formada principalmente por jovens. Falou sobre educação, sobre a luta dos trabalhadores e também sobre o Partido dos Trabalhadores. Eu fazia questão de lhe pedir que, em cada encontro, falasse um pouco do PT, de sua construção e de sua importância para a organização política dos trabalhadores. Ele acolheu o pedido e, generosamente, tratou do partido em todos os eventos dos quais participou.
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Durante sua permanência em Itabuna, Paulo Freire ficou hospedado no Itabuna Palace Hotel. Antes da palestra, fui buscá-lo no hotel. Naquele momento, faltou energia elétrica na rua onde ele estava hospedado, e Paulo Freire teve de descer pelas escadas. Mesmo diante do imprevisto, manteve a serenidade, a disposição e o bom humor que o acompanhavam.
Durante sua permanência na região, a reitora da Universidade Estadual de Santa Cruz, René Albagli, solicitou que ele também visitasse a instituição. Conversei com Paulo Freire, que prontamente aceitou o convite. Sua presença na universidade transformou-se em um acontecimento extraordinário.
O auditório reservado para recebê-lo não comportou a quantidade de estudantes que desejava ouvi-lo. A palestra precisou ser transferida para um espaço aberto, onde uma multidão se reuniu. Diante daquela manifestação de entusiasmo, Paulo Freire confessou que somente havia vivido uma experiência semelhante em uma universidade de um país africano. Foi um momento inesquecível, tanto para ele quanto para os estudantes, professores e trabalhadores que tiveram a oportunidade de escutá-lo.
Guardo também uma lembrança profundamente afetiva daquela visita. Cecília levou Pedro Igor, nosso filho, ainda de colo, para tirar uma fotografia com Paulo Freire. Essa fotografia permanece até hoje em nossa casa. É um retrato de família, mas também o registro de um encontro entre gerações: de um lado, um dos maiores educadores do mundo; do outro, uma criança que começava a vida.
Paulo Freire também visitou o município de Coaraci, onde participou, no dia 12 de abril de 1992, de um importante encontro de alfabetizadores populares. A atividade reuniu educadores, sindicatos, associações de moradores, Comunidades Eclesiais de Base, a FASE e diferentes movimentos sociais atuantes na região.
Naquela ocasião, ele proferiu a palestra “Alfabetizar é preciso”, posteriormente transformada em publicação no próprio município. Sua presença em Coaraci fortaleceu a articulação das iniciativas de alfabetização e educação popular que já vinham sendo desenvolvidas no sul da Bahia.

A passagem de Paulo Freire pela região cacaueira não foi apenas uma sequência de palestras. Foi um encontro entre sua pedagogia e uma sociedade marcada pela organização dos trabalhadores, pela força dos movimentos populares e pela esperança de transformação social. Em cada lugar, ele falava de educação como prática da liberdade, da necessidade de conscientização e da capacidade que o povo possui de compreender e transformar a própria realidade.
Para mim, ter contribuído para trazer Paulo Freire à região cacaueira foi uma honra e uma responsabilidade. Mais de três décadas depois, permanecem vivas as lembranças das multidões que se reuniram para ouvi-lo, de sua atenção aos jovens e aos educadores populares, de sua solidariedade à luta dos trabalhadores e de seu compromisso com o Partido dos Trabalhadores.
E permanece, sobretudo, a fotografia guardada em nossa casa: Cecília, Pedro Igor ainda no colo e Paulo Freire. Uma imagem simples, doméstica e afetiva, que conserva um pedaço daquela história.
Legado de Paulo Freire
19 de setembro: o Brasil e o mundo rendem homenagem a Paulo Freire.
O Patrono da Educação Brasileira completaria 105 anos. Nordestino, pernambucano, Paulo Freire revolucionou a pedagogia e se firmou como um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos, com uma obra que ultrapassou fronteiras e influenciou gerações em diferentes países.
Paulo Freire e sua obra magna, Pedagogia do Oprimido, tornaram-se referências constantes nos estudos das Ciências Humanas. Segundo levantamento realizado pelo Google Scholar — ferramenta de pesquisa dedicada à literatura acadêmica —, Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo. Quem faz ciência e produz conhecimento sabe o significado e a dimensão desse feito.
Freire aparece à frente de pensadores como Michel Foucault e Karl Marx. Sua pedagogia era tão revolucionária que, durante a ditadura militar brasileira, os militares o consideraram uma ameaça, especialmente pelo potencial transformador da educação para a população pobre. Foi perseguido, preso e exilado, mas nunca esqueceu o Brasil. Do exílio, continuou produzindo conhecimento e levando o nome do nosso país para o mundo.
Pedagogia do Oprimido também figura entre os livros mais estudados e solicitados em universidades de língua inglesa. Em um levantamento que analisou cerca de 1 milhão de ementas de cursos universitários nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia, a obra de Paulo Freire foi o único livro de um autor brasileiro a aparecer entre os 100 mais solicitados. Na área de Educação, ficou em segundo lugar.

Paulo Freire recebeu dezenas de títulos de Doutor Honoris Causa ao longo da vida e também em homenagens póstumas. Suas honrarias foram concedidas por universidades de prestígio nas Américas e na Europa, incluindo instituições de reconhecimento internacional, como Harvard, Cambridge e Oxford.
Nem a truculência do passado nem a do presente será capaz de apagar os feitos de Paulo Freire. Sua obra permanece viva, atravessa gerações e continua inspirando educadores, pesquisadores e todos aqueles que acreditam na educação como instrumento de transformação social.
Paulo Freire segue como um dos pensadores mais importantes do mundo — e assim será pela eternidade.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
