Os heróis negros que a história oficial tentou esquecer
O vídeo apresentado pela Causos Kalunga faz uma pergunta necessária: por que muitos de nós não estudamos sobre a Revolta dos Búzios, também conhecida como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates?
Ela tem um valor imensurável para a nossa história. Ocorrida em 1798, marcou uma das mais importantes revoltas anticoloniais do Brasil, reunindo escravizados e libertos, soldados, alfaiates e trabalhadores em torno de ideias de liberdade, igualdade e transformação social.
O primeiro ponto que ajuda a compreender esse apagamento histórico é o fato de a Conjuração Baiana ter sido protagonizada pelas camadas populares e de defender explicitamente pautas sociais profundas. A Inconfidência Mineira, por exemplo, também ocorreu entre 1788 e 1789, mas foi liderada por setores da elite local e tinha entre suas principais motivações a defesa de seus próprios interesses, sobretudo diante da opressão fiscal da Coroa portuguesa. Tiradentes foi o único condenado à forca.
No caso da Revolta dos Búzios, em Salvador, sufocada pela Coroa portuguesa, as consequências para os revoltosos foram muito mais graves. Depois de reprimir o movimento, em 8 de novembro de 1799, as autoridades coloniais determinaram que seus principais líderes fossem enforcados e esquartejados na Praça da Piedade.
Entre os mártires estavam:
* João de Deus do Nascimento, alfaiate;
* Manuel Faustino dos Santos Lira, alfaiate;
* Luís Gonzaga das Virgens, soldado;
* Lucas Dantas de Amorim Torres, soldado.
A Revolta dos Búzios sofreu graves consequências por seu caráter verdadeiramente revolucionário. Inspirados pelos ideais iluministas e pelos acontecimentos da Revolução Francesa, os revoltosos defendiam a independência, a criação de uma república democrática e o fim do sistema colonial português.

A luta também envolvia o fim da escravidão, o combate ao preconceito e à discriminação racial, além da igualdade de direitos e salários. Com o fim da opressão portuguesa, os revoltosos também defendiam a abertura dos portos ao livre comércio.
A punição teve cor.
Enquanto membros das elites econômicas e intelectuais envolvidos na articulação do movimento foram, em grande parte, absolvidos ou receberam penas mais leves, a punição máxima recaiu sobre líderes de origem humilde e negra. Essa dimensão racial e social da repressão ajuda a compreender também por que a memória da Conjuração Baiana e de suas principais lideranças permaneceu durante tanto tempo à margem da narrativa histórica oficial.
Um dos processos mais perversos da colonização das Américas foi justamente o massacre e o apagamento histórico das lideranças populares que se levantaram contra os impérios ibéricos.

Na América colonizada pela Espanha, muito se fala de Simón Bolívar, que, inegavelmente, foi um dos grandes libertadores do nosso continente, embora fosse de origem aristocrática. E o que dizer de Dom Pedro I no Brasil?
Em contrapartida, pouquíssimas pessoas sabem quem foram João de Deus, Manuel Faustino, Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas — homens negros, soldados e alfaiates que deram a própria vida por um projeto de liberdade, igualdade e justiça social.
Nada disso é por acaso. Um povo que não conhece suas referências históricas fica à deriva. Cabe a nós contar e preservar as histórias daqueles que também ajudaram a construir a liberdade do Brasil.
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Viva a Revolta dos Búzios! Ou, se você preferir, Revolta dos Alfaiates ou Conjuração Baiana.
Salve a Terra da Liberdade!
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
