A Noite em que a Tripa perdeu para o Aniversário!
Depois de ter participado da posse do presidente do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, dei um pulo em Amaraji. Visita rápida, dessas que a gente faz sem grandes expectativas e acaba rendendo assunto para a semana inteira, e olhe lá para o mês. Amaraji tem esse dom: você chega achando que só vai passar e a cidade resolve lhe segurar pelo braço.

Almocei com Jânio de doutor Plínio, Mano do Galo, Rubinha e Cecília. Mesa farta, conversa solta, risadas em ponto de fervura. Depois, como manda o protocolo urbano das cidades pequenas, fui cruzando com conhecidos: Zomi, filho de seu Tezinho; Tantão e o irmão Miltinho; Tunda, filho de dona Alaide. Em Amaraji, nome próprio só funciona acompanhado do nome do pai ou da mãe. Sem isso, o sujeito vira estrangeiro.
Ainda caminhei pelas ruas, esse hábito antigo de quem precisa conferir se a cidade continua no lugar. Finalizei o percurso com um clássico absoluto: caldo de cana numa barraca em frente ao cemitério. Urbanismo poético. Vida e morte separadas apenas por um copo de vidro e um canudo fino. Bebi olhando para a eternidade e segui com açúcar na alma.
No fim da tarde, saí com Cecília para uma voltinha, expressão que em Amaraji pode significar qualquer coisa entre dez minutos e duas horas. Muita gente me reconhecia, cumprimentava com alegria. Alguns faziam o “L”, nós retribuíamos, porque educação é artigo de primeira necessidade. A cidade seguia cordial, democrática e observadora.
O problema é que os bares ainda estavam vazios. Uma calmaria suspeita, dessas que antecedem ou uma grande noite ou um grande nada. Optamos pelo nada e resolvemos voltar para casa. Mas mudamos o caminho e seguimos pela Avenida São José da Boa Esperança — ou, para os resistentes à modernidade, a eterna rua de Santo Amaro.
Meu plano era simples: passar na casa de Lúcia Cabeleireira. O problema foi o de sempre — lembrava de Lúcia, da conversa, do riso, mas a casa… essa ficou num arquivo corrompido da memória. Apelei para a sabedoria popular: um grupo estrategicamente posicionado no bar de Geraldo, já em processo avançado de socialização alcoólica.
Casa localizada, missão quase cumprida. Lúcia não estava. Eis que Júnior, sobrinho de Vital e neto de seu Egídio, me encara com olhar clínico e pergunta:
— Você é Josias Gomes?
Confirmei. Pronto. Amaraji decretou ali meu ponto final da noite. Fiquei.
Além de Júnior e Elaine, estava Eugênio, filho de seu Álvaro. Figura simpática, expansiva e dono de uma autoestima muito bem conservada. Segundo ele próprio — fonte absolutamente imparcial — o mais bonito entre os muitos filhos de seu Álvaro. Elaine, por amizade e compromisso com a verdade estética, confirmou. Os outros preferiram o silêncio, que em Amaraji também é forma de concordância.
Quando tudo parecia caminhar para uma noite longa, eis o golpe final. Ceinha, a mulher que nos atendia — dona de uma agenda social invejável e convicções firmes — anunciou que o bar encerraria as atividades. Eram menos de seis da tarde. Motivo? Festa de aniversário. Em Amaraji, aniversário não se negocia: se respeita.
Importante registrar: ela não nos colocou pra fora. Afinal, já estávamos na calçada, território neutro, quase internacional. Apenas nos comunicou que, espiritualmente, já não estávamos mais ali. Eugênio ainda tentou argumentar, recorrer à tradição, à amizade, à tripa ainda quente e crocante. Nada feito. A decisão estava tomada com a firmeza de um decreto municipal em dia santo.
Resultado: abandonamos a tripa — saborosa, crocante, memorável — e seguimos cada um para sua casa. Retirada estratégica, jamais fuga. Amaraji entende dessas coisas.
Ainda assim, valeu demais. Pela conversa boa, pelas risadas, pelo telefonema que Eugênio fez para o irmão Roberto, com quem ainda proseamos sem pressa. Conversa urbana de cidade pequena: não depende de hora nem de sinal.
Saí dali com uma certeza: o bar de Geraldo — agora oficialmente rebatizado por mim de Bar da Tripa — virou meu ponto fixo em Amaraji. Se não der pra comer, dá pra conversar. E da próxima vez, chego mais cedo. Não por fome, mas para não perder para o calendário social da cidade.
Porque Amaraji é assim: o bar fecha, a tripa acaba, mas a história… essa continua aberta.
– Josias Gomes, amarajiense com muito orgulho.