Assis Valente: a alegria do samba e a melancolia da vida
Recentemente li a biografia Quem Samba Tem Alegria: A Vida e o Tempo de Assis Valente, escrita pelo jornalista Gonçalo Junior. A leitura é daquelas que não apenas conta a história de um artista, mas ajuda a compreender um pedaço importante da formação cultural do Brasil. Ao acompanhar a vida de Assis Valente, somos levados a percorrer também os caminhos da música popular brasileira em um de seus momentos mais férteis.
De acordo com a pesquisa minuciosa realizada para o livro, Assis Valente nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano e não em Salvador. Região que há séculos pulsa música, religiosidade e cultura popular. Ali entre festas, tradições afro-brasileiras e o ritmo da vida cotidiana, formou-se uma sensibilidade que marcaria profundamente sua obra. A Bahia, com sua mistura de alegria e drama, de festa e sofrimento, parece ter deixado uma marca profunda no espírito do compositor.

Ainda jovem, como tantos brasileiros de sua geração, ele seguiu para o Rio de Janeiro, então capital do país e grande centro cultural. Trabalhou como protético dentário, profissão modesta que garantia a sobrevivência, enquanto a música se tornava sua verdadeira vocação. Foi nesse ambiente vibrante do rádio, dos teatros de revista e das rodas de samba que seu talento encontrou espaço para florescer.
Não demorou para que suas composições chamassem atenção. O compositor Lamartine Babo chegou a chamá-lo de “o pivô do samba”, reconhecendo sua importância no cenário musical da época. Suas canções ganharam ainda mais projeção quando passaram a ser interpretadas por Carmen Miranda, uma das maiores estrelas da música brasileira nos anos 1930 e 1940.
Desse encontro nasceram clássicos como Camisa Listrada, Minha Embaixada Chegou, Uva de Caminhão e E o Mundo Não se Acabou. Músicas cheias de humor, ritmo e vitalidade que retratavam o cotidiano da cidade e o espírito festivo do povo brasileiro.
Mas talvez um dos traços mais intrigantes de Assis Valente esteja justamente no contraste entre sua obra e sua vida. Muitas de suas canções transbordam alegria, ironia e leveza — como se o samba fosse uma celebração permanente da vida. No entanto, por trás dessas melodias, havia um homem profundamente melancólico, marcado por dificuldades financeiras, inquietações pessoais e crises existenciais.
Mesmo assim, sua criatividade parecia inesgotável. Ele compôs músicas que atravessaram gerações e se incorporaram à própria memória afetiva dos brasileiros, como a canção junina Cai, Cai, Balão e o clássico natalino Boas Festas, cuja melodia doce contrasta com uma letra surpreendentemente melancólica.
A vida, contudo, foi dura com ele. Endividado e atormentado por problemas pessoais, tentou o suicídio três vezes. Em 6 de março de 1958, no Rio de Janeiro, sua última tentativa acabou sendo fatal.
Durante algum tempo, sua obra ficou à sombra do esquecimento, como acontece com tantos artistas que marcaram uma época. Mas a música tem uma forma curiosa de sobreviver ao tempo. Décadas depois, compositores e intérpretes da nova geração redescobriram sua genialidade. Grupos como Novos Baianos voltaram a popularizar o Brasil Pandeiro, enquanto artistas como Nara Leão e Caetano Veloso ajudaram a recolocar seu nome no lugar que merece na história da música brasileira.
A biografia escrita por Gonçalo Junior cumpre assim um papel importante: resgatar não apenas a trajetória de um compositor extraordinário, mas também um momento fundamental da cultura brasileira. Ao final da leitura, fica a sensação de que compreender Assis Valente é compreender um pouco do próprio Brasil — esse país onde, muitas vezes, a alegria da música convive com a melancolia da vida.
E talvez esteja justamente aí o segredo de sua obra: no fato de que, mesmo nascida de uma vida difícil, ela continua a fazer o Brasil cantar.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
