O Poder dos Coronéis — A História de Cícero Dantas
Município de Cícero Dantas – Bahia
Gentílico: cicerodantense
Aspectos territoriais e demográficos
Localização: Território de Identidade Nordeste II
Criação do município: 1875 (como Bom Conselho)
Renomeado: 1905 para Cícero Dantas
Aniversário: 9 de junho
Padroeira: Nossa Senhora do Bom Conselho
História
O nome homenageia Cícero Dantas, que foi vereador em Bom Conselho e deputado pela Bahia.
Dados geográficos e administrativos
Área total: 819,969 km²
Altitude: 420 m
Prefeito: Vinicius José Araujo Borges de Souza
População: 32.292 mil habitantes (estimativa para 2025)
Densidade demográfica: em torno de 50 hab./km²
Distância de Salvador: aproximadamente 320 km
Fundação e emancipação
Data de fundação: o povoamento iniciou-se no final do século XIX, com a formação de fazendas e pequenos núcleos comerciais.
Data de emancipação política: 15 de agosto de 1958
Município de origem: Ribeira do Pombal
Cícero Dantas é um município localizado no território de identidade Nordeste II, conhecido por sua história que remonta à fundação como Bom Conselho em 1875, sendo renomeado em 1905 e restaurado como município em 1933, homenageando o político e jurista Cícero Dantas. A cidade celebra seu aniversário de emancipação política em 9 de junho, comemorando 150 anos em 2025, e tem como padroeira Nossa Senhora do Bom Conselho.
Cícero Dantas Martins – o Barão de Jeremoabo

Cícero Dantas Martins, conhecido como Barão de Jeremoabo, foi uma das figuras mais poderosas e influentes da história política, econômica e social da Bahia e do Nordeste brasileiro entre o final do século XIX e o início do século XX.

Filho de Mariana Francisca da Silveira e do Comendador João Dantas dos Reis, era neto do capitão-mor João Dantas dos Imperiais Itapicuru, um dos heróis da Independência da Bahia. Pertencia, portanto, à tradicional família Dantas, antigos procuradores da Casa da Torre de Garcia d’Ávila, uma das mais poderosas instituições fundiárias do Brasil colonial. Foi justamente na administração das vastas terras da Casa da Torre que os Dantas acumularam enormes extensões rurais no sertão baiano.

Nascido em berço privilegiado, Cícero Dantas Martins tornou-se, já adulto, o maior fazendeiro de toda a região Nordeste, chegando a possuir sessenta e uma propriedades rurais distribuídas entre a Bahia e Sergipe. Seu poder territorial e econômico lhe garantiu influência que se estendia de Alagoinhas a Juazeiro, consolidando-o como uma liderança incontornável do sertão.

Casou-se com sua prima Mariana da Costa Pinto Dantas, filha do Conde de Sergimirim, Antônio da Costa Pinto, importante senhor de engenho do Recôncavo Baiano. Esse casamento selou a união entre duas das maiores forças econômicas da Bahia: o poder sertanejo dos Dantas e o poder açucareiro do Recôncavo, ampliando ainda mais sua influência política e social. Formou-se bacharel em Ciências Sociais e Jurídicas, pela Faculdade de Direito do Recife, em 1859, uma das mais prestigiadas do país à época. Ingressou cedo na vida pública, exercendo diversos mandatos e funções políticas: foi vereador em Bom Conselho em 1875; deputado provincial e deputado geral pela Bahia por quatro legislaturas (1869–1872, 1872–1875, 1877 e 1886–1889); e senador estadual da Bahia, em 1891. Entre 1893 e 1896, tornou-se o primeiro intendente constitucionalmente eleito do município de Itapicuru de Cima, atual Cícero Dantas. Além da política e da grande propriedade rural, uma das marcas mais singulares de Cícero Dantas Martins foi sua intensa atividade epistolar. Entre 1873 e 1903, enviou 44.411 cartas, uma média de 1.432 por ano. Meticuloso, registrava em cadernos todas as correspondências expedidas, bem como acontecimentos relevantes de sua vida cotidiana, como nascimentos, mortes e fatos políticos. Embora muitas das cartas enviadas não tenham sido recuperadas, todas as cartas recebidas pelo Barão de Jeremoabo foram preservadas, acompanhadas de fotografias e documentos.

Esse vasto acervo epistolar constitui hoje uma fonte histórica de extraordinário valor, reunindo correspondências com personagens centrais da história brasileira, como José de Alencar, Barão do Rio Branco, Barão de Cotegipe e o Visconde de Niterói, além de familiares, políticos, intelectuais e grandes proprietários rurais. As cartas lançam luz sobre episódios decisivos da história nacional, como a Guerra de Canudos, oferecendo uma perspectiva privilegiada das elites políticas do período.

No campo econômico, Cícero Dantas Martins também se destacou como empreendedor. Em parceria com seu sogro, o Conde de Sergimirim, e com seu cunhado, o Visconde da Oliveira, construiu a primeira usina de açúcar do Norte/Nordeste do Brasil, o Engenho Central Bom Jardim, localizado em Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Também foi responsável pela construção do Solar do Camuciatá em Itapicuru, símbolo de seu poder e prestígio.

Cícero Dantas Martins faleceu em 1903 e foi sepultado na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Conselho, na então cidade de Bom Conselho, atual Cícero Dantas. Seus restos mortais permanecem até hoje nesse templo, integrando a memória histórica local. Foi pai do ex-senador João da Costa Pinto Dantas e do ex-deputado Antônio da Costa Pinto Dantas; avô do deputado Cícero Dantas Martins (neto) e de João da Costa Pinto Dantas Júnior; bisavô do ex-deputado João Carlos Tourinho Dantas; e trisavô do banqueiro Daniel Dantas e do ex-deputado Sérgio Tourinho Dantas, demonstrando a continuidade de sua influência política e econômica ao longo de gerações.

O Barão de Jeremoabo era ainda sobrinho de José Dantas dos Imperiais Itapicuru, o primeiro Barão do Rio Real, e primo de Manoel Pinto de Souza Dantas, o Senador Dantas, outro personagem central da política imperial brasileira. Sua importância histórica ultrapassou os registros oficiais e alcançou a literatura. Cícero Dantas Martins é um dos personagens centrais do romance A Guerra do Fim do Mundo, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, onde é retratado sob o nome de Barão de Canabrava, figura que simboliza o poder das elites agrárias e políticas da Primeira República brasileira.

Entretanto, é fundamental compreender que a trajetória de Cícero Dantas Martins se insere no contexto do coronelismo, sistema de poder que dominou o sertão nordestino durante o final do Império e a Primeira República. Os grandes proprietários rurais — os chamados “coronéis” — exerciam autoridade econômica, política e social quase absoluta sobre vastas regiões, controlando votos, forças policiais locais, o acesso à terra, ao trabalho e até à justiça. Nesse modelo, prevalecia muitas vezes a lei do mais forte, em que a violência, o clientelismo e o mando pessoal substituíam o Estado de direito.

Foi dentro dessa lógica de poder que se estruturou também a repressão ao arraial de Canudos, comunidade liderada por Antônio Conselheiro, formada majoritariamente por sertanejos pobres, ex-escravizados e camponeses expulsos das terras pelos grandes latifúndios. Para os coronéis da região, Canudos representava uma ameaça à ordem fundiária, à autoridade local e ao controle da mão de obra. Assim, as elites políticas e agrárias pressionaram o governo estadual e federal para a destruição do arraial, culminando na sangrenta guerra de 1896–1897, que resultou no massacre de milhares de sertanejos.
Desse modo, embora Cícero Dantas Martins figure como personagem central da história política e econômica da Bahia, sua atuação está vinculada a um sistema profundamente desigual, que concentrou terras, poder e riqueza nas mãos de poucos, enquanto a maioria da população sertaneja enfrentava pobreza, exclusão e violência. A história de Cícero Dantas — assim como a de muitos coronéis do período — ajuda a compreender não apenas a formação dos municípios do interior nordestino, mas também as raízes sociais das grandes injustiças que marcaram a região.
Josias Gomes