Paulo Afonso – O Rio, a Usina e o Nascimento da Cidade
A história de Paulo Afonso começa muito antes das turbinas girarem e das linhas de transmissão cruzarem o sertão. Ela nasce do espanto humano diante da natureza — da força indomável das águas do Rio São Francisco despencando entre rochas e formando uma das paisagens mais impressionantes do continente.
Em 1725, o sertanista Paulo Viveiros Afonso recebeu sesmarias na região e fundou a Fazenda Tapera. A grande queda d’água, antes conhecida como Sumidouro, passou então a ser chamada Cachoeira de Paulo Afonso. O nome atravessou os séculos como o próprio rio: primeiro designou a cachoeira; depois, o povoado; por fim, a cidade emancipada em 1958.

No século XIX, conhecer a cachoeira tornou-se quase uma peregrinação científica e cultural. O imperador Dom Pedro II, movido pela curiosidade intelectual que o caracterizava, enfrentou o sertão para observar de perto aquela força natural — tornando-se o primeiro chefe de Estado brasileiro a pisar naquele cenário grandioso. O poeta Castro Alves também esteve ali e viu nas águas violentas uma imagem viva da grandeza brasileira. Viajantes estrangeiros, engenheiros e naturalistas registraram a paisagem como uma das maiores maravilhas naturais da América do Sul. Muito antes da eletricidade, a cachoeira já produzia energia simbólica: alimentava imaginação e esperança.


Décadas depois, essa esperança ganharia forma concreta com a ousadia do industrial Delmiro Gouveia. Entre 1913 e 1914, ele construiu a Usina Hidrelétrica de Angiquinho, a primeira do Nordeste. O projeto era visionário: gerar energia para impulsionar a industrialização regional e levar eletricidade até Recife e Maceió — algo revolucionário para um país ainda predominantemente rural.
Na antiga Vila da Pedra — atual cidade de Delmiro Gouveia, em Alagoas — fundou a Companhia Agro Fabril Mercantil. Ali eram produzidas as famosas Linhas da Pedra, Marca Estrela, que concorriam diretamente com as linhas Corrente da poderosa companhia inglesa Machine Cotton. Angiquinho demonstrou, décadas antes das grandes políticas públicas, que o sertão possuía capacidade industrial própria. O improvável tornava-se realidade movido pela força do rio.

A grande transformação estrutural viria em 1948, com a criação da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), marco do projeto nacional de eletrificação do Nordeste. Pouco antes, o presidente Eurico Gaspar Dutra visitara a região, reforçando o compromisso nacional com o aproveitamento energético do São Francisco. Em 15 de março daquele ano, nomeou a primeira diretoria da companhia e deu início à grande epopeia da construção da usina.
A decisão de erguer a primeira Usina de Paulo Afonso na margem baiana, nas terras do então povoado Forquilha, transformou uma área de caatinga quase desabitada em um dos maiores canteiros de obras do país. Ali surgiram a barragem, os túneis escavados em rocha maciça e o acampamento planejado da CHESF — com milhares de casas, hospital, escolas e clubes — enquanto, ao redor, crescia uma cidade espontânea moldada pela necessidade.

De um lado, o Acampamento da CHESF: cidade planejada em pleno sertão, com infraestrutura moderna destinada a engenheiros, técnicos e dirigentes. Era o retrato do Brasil que apostava na ciência e na engenharia como motores do futuro.
Do outro, a cidade improvisada. Com a chegada de milhares de trabalhadores braçais para a construção civil pesada, ergueram-se barracos cobertos com papelões das embalagens do cimento Poty. A pequena ocupação ficou conhecida como Vila Poty. Separada do Acampamento por uma cerca de arame farpado — limite físico e simbólico entre dois mundos — a vila cresceu rapidamente.
A maioria daqueles trabalhadores era formada por nordestinos pobres, muitos sem qualificação técnica, que passaram a ser chamados de “cassacos”. Para capacitá-los, a CHESF firmou convênio com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), criou escolas profissionalizantes e organizou cursos de alfabetização noturna. As condições eram duras: jornadas longas, calor intenso, escavações com dinamite e quase nenhuma proteção individual, como revelam as fotografias da época. Ainda assim, foram esses homens que, a cerca de 80 metros de profundidade nos paredões de granito, abriram espaço para os grandes geradores que mudariam o destino regional.

Com o tempo, comerciantes começaram a erguer casas de alvenaria e prédios comerciais, transformando o espaço precário em núcleo urbano permanente. A antiga Vila Poty passaria a chamar-se Nossa Senhora de Fátima. A cidade que nascia fora do planejamento oficial revelava a força da iniciativa popular. Paulo Afonso, desde cedo, foi construída tanto pelo projeto estatal quanto pela coragem anônima dos trabalhadores.
A primeira usina foi inaugurada em 15 de janeiro de 1955 pelo presidente João Café Filho. A chegada da energia elétrica representou mais que avanço técnico: foi uma revolução social e econômica. Costuma-se dizer que ali se estabeleceu uma linha divisória na história regional — o Nordeste A/C, antes da CHESF, e o Nordeste D/C, depois da CHESF.
A própria companhia contribuiu diretamente para o desenvolvimento econômico local. Ao permitir a instalação de lojas em prédios pertencentes à empresa, estimulou o surgimento do comércio urbano. Armazéns, farmácias, alfaiatarias, bares e pequenas casas comerciais floresceram ao redor da obra. Muitos trabalhadores que chegaram apenas para a construção fixaram raízes como comerciantes, consolidando Paulo Afonso como polo regional dinâmico.

A grandiosidade do empreendimento rapidamente entrou no imaginário popular. Na voz de Luiz Gonzaga, o sertão cantou sua própria transformação:
“Delmiro deu a ideia
Apolônio aproveitou
Getúlio fez o decreto
E Dutra realizou
O presidente Café
A usina inaugurô
E graças a esse feito
De homens que tem valô
Meu Paulo Afonso foi
Sonho
Que já se concretizô
Olhando pra Paulo Afonso
Eu louvo nosso engenheiro
Louvo o nosso cassaco
Caboclo bom verdadeiro
Vejo o Nordeste erguendo a bandeira
De ordem e progresso da nação brasileira
Vejo a indústria gerando riqueza
Findando a seca, Salvador”
A música traduzia o sentimento coletivo: pela primeira vez, muitos nordestinos acreditavam que o desenvolvimento poderia alterar o destino histórico da região.

Mas a história do São Francisco não se fez apenas de engenharia e esperança. A partir dos anos 1970, abrir-se-ia outro capítulo — o da organização popular e da resistência social. Mas esse tema será objeto de um outro texto onde vamos discorrer sobre os movimentos sociais e sindical de Paulo Afonso.
A trajetória de Paulo Afonso revela que o São Francisco não moveu apenas turbinas: moveu consciências. Das visitas imperiais à ousadia industrial de Delmiro Gouveia; da engenharia monumental da CHESF às greves operárias e à organização camponesa; das canções de Luiz Gonzaga às negociações históricas dos trabalhadores — tudo converge para uma mesma narrativa.

Entre energia e memória, o Velho Chico ensinou que o verdadeiro progresso não se mede apenas pela força das máquinas, mas pela capacidade de um povo permanecer protagonista da própria história.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
