Personalidades Históricas da Bahia: EUCLIDES DA CUNHA E O ARRAIAL DE CANUDOS
O sertão e o Brasil que o poder não quis olhar
Antes de entrar no coração do sertão narrado por Euclides da Cunha, é preciso começar pela cidade que hoje carrega seu nome. Ela surge no interior áspero da Bahia como uma epígrafe viva da própria história brasileira — como se o território guardasse, em sua paisagem seca, a memória de um livro que jamais deveria ter sido necessário escrever, mas que se tornou inevitável para revelar aquilo que o Brasil oficial insistiu em não ver.
A cidade e o território: onde a memória permanece
O município de Euclides da Cunha, encravado no Território do Sisal, nasceu com o nome de Cumbe, palavra de origem quicongo que significa simplesmente “cidade”. A antiga fazenda foi elevada à condição de vila em 1898 e, após sucessivos rearranjos administrativos ao longo das primeiras décadas do século XX, recebeu em 1938 o nome do autor de Os Sertões, numa homenagem que é também uma declaração histórica.

Com cerca de 2.028 km² de extensão territorial, a região respira o semiárido: ventos quentes, longos períodos de seca e uma geografia que exige resistência permanente de quem nela vive. A população, próxima de 61 mil habitantes, distribui-se entre áreas urbanas e uma vasta zona rural onde a agricultura familiar e a pecuária permanecem como bases econômicas e formas históricas de sobrevivência diante da ausência recorrente do Estado.
Situada a aproximadamente 311 quilômetros de Salvador, a cidade integra um conjunto territorial marcado por profundas continuidades históricas, fazendo fronteira com Canudos, Monte Santo, Quijingue e Cícero Dantas — lugares onde o passado não é ruína, mas presença cotidiana.

Foi nesse espaço, simultaneamente esquecido e resistente, que se ergueu o arraial de Canudos. Ali, no final do século XIX, revelou-se o abismo entre dois países que coexistiam sem se reconhecer: o Brasil das elites políticas e o Brasil do povo abandonado.
A cidade atual conserva essa herança em sua vida comunitária, nas manifestações culturais, na religiosidade popular e na persistência de modos coletivos de existência que atravessam gerações. A eleição municipal de 2024, que conduziu Helder Macedo da Silva à prefeitura, insere-se numa realidade ainda marcada por desafios sociais históricos — sinais de que o passado narrado por Euclides permanece estruturalmente presente.

Assim, a cidade não apenas homenageia um escritor. Ela materializa uma memória em disputa permanente.
Cabe registrar que a homenagem à Euclides da Cunha já estava no meu roteiro da série Personalidades Históricas da Bahia e contou também com o entusiasmo do meu colega e presidente do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) Gildásio Penedo Filho. Nascido em Tucano, cidade vizinha a Euclides da Cunha, Gildásio tem raízes na mesma terra que legou a história de Canudos, o seu filho pródigo João Abade. Tucanense como ele, João Abade foi comandante militar dos conselheiristas, liderando a Guarda Católica — também chamada de Companhia do Bom Jesus —, encarregada da segurança de Antônio Conselheiro e da defesa do povoado. Era conhecido como “chefe do povo”.

Rememorar a resistência heroica de João Abade é prestar um tributo a todos os sertanejos que tombaram na épica Guerra de Belo Monte. Nem o açude que cobriu o arraial em ruínas será capaz de afogar a memória desse povo valente, que só queria viver em paz, longe das mazelas produzidas pelo Estado e seus “senhores feudais”.
Euclides da Cunha: ciência, República e contradição
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866–1909) foi engenheiro militar, jornalista, geógrafo e um dos maiores intérpretes da formação social brasileira. Sua trajetória intelectual nasce num momento decisivo: o Brasil recém-republicano tentava definir sua identidade enquanto mantinha intactas desigualdades herdadas do período escravocrata.


Correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, foi enviado ao sertão baiano para acompanhar a fase final da Guerra de Canudos, em 1897. A missão parecia simples: registrar a vitória da República sobre uma rebelião considerada retrógrada. O que encontrou, porém, provocaria uma ruptura moral profunda, dando origem anos depois a Os Sertões — obra que redefiniria a interpretação do Brasil.
Antes de Canudos, Euclides compartilhava as crenças científicas dominantes do fim do século XIX: o positivismo republicano, o determinismo ambiental e a fé no progresso conduzido pela modernização estatal. Como muitos intelectuais de sua época, acreditava que o Exército representava a civilização e que Antônio Conselheiro simbolizava o atraso.

A experiência do sertão desmontaria essas certezas.
O choque de Canudos: quando a realidade derrota a teoria
O Brasil profundo não nasceu nos palácios nem nos gabinetes.
Nasceu no pó, na seca, na exclusão e na rebeldia.

Euclides chegou a Canudos como jornalista da República e saiu como acusador de sua violência.
“Fui a Canudos como jornalista e voltei como réu da consciência.”
O que encontrou foi uma população miserável e abandonada, mas organizada por laços de solidariedade e resistência coletiva. O conflito revelou não uma guerra contra inimigos da nação, mas a destruição de brasileiros pobres por um Estado incapaz de compreender o próprio país.

A confiança no progresso automático da República se rompeu diante da experiência concreta da guerra.
A invenção do Brasil profundo
Em Os Sertões, Euclides constrói uma interpretação inédita do país, organizada em três movimentos — A Terra, O Homem e A Luta — que transformam o episódio militar em explicação histórica.
O sertão deixa de ser cenário e torna-se agente formador.
O sertanejo deixa de ser degenerado e torna-se sujeito histórico.
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

A frase rompe com o racismo científico dominante e inaugura uma leitura social do Brasil. Canudos revela a existência de dois Brasis:
• o litoral urbano, autoproclamado moderno;
• o interior invisível, resistente e excluído.
O atraso não estava no povo, mas nas estruturas que o marginalizavam.
Antônio Conselheiro e a política dos excluídos
Antônio Conselheiro não foi um fanático isolado. Foi a expressão moral de uma população expulsa da cidadania econômica e política.
O povo o seguia porque via nele justiça.

Sua pregação denunciava impostos abusivos, desigualdade social e uma República distante da vida real. Canudos tornava-se perigosa não por negar o Brasil, mas por demonstrar que outra forma de organização social — baseada em solidariedade e sobrevivência coletiva — era possível.
Quando o Estado escolhe o massacre
A Guerra de Canudos foi uma guerra contra brasileiros pobres.
Quatro expedições militares.
Artilharia pesada contra casas de taipa.
A República contra o próprio povo.
“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história.”
O que ocorreu foi mais que derrota militar: foi extermínio político. A jovem República precisou destruir Canudos para afirmar autoridade sobre aquilo que não compreendia.
Civilização ou barbárie?
O gesto decisivo de Euclides foi denunciar a civilização que produziu a barbárie.
“A campanha de Canudos foi um crime. Denunciemo-lo.”
Sua conclusão permanece devastadora: o maior problema do Brasil não era o atraso do povo, mas o desconhecimento do povo por suas próprias elites. O Estado tratara seus cidadãos como estrangeiros internos.

A permanência histórica de Canudos
A força interpretativa de Os Sertões ultrapassou o Brasil quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa reconheceu ali uma das grandes obras da literatura universal e escreveu A Guerra do Fim do Mundo.
O romance transformou Canudos em metáfora universal do conflito entre poder e povo, entre razão de Estado e justiça social. Se Euclides revelou Canudos ao Brasil, Vargas Llosa ajudou a inscrevê-lo na memória mundial.
A literatura impediu que o massacre se tornasse silêncio.
Nome, cidade e acusação histórica

A antiga Cumbe passou a chamar-se Euclides da Cunha. Não apenas como homenagem, mas como advertência histórica permanente.
Canudos não terminou em 1897.
Ele reaparece sempre que o povo é tratado como ameaça e quando projetos de modernização ignoram justiça social. Porque, como ensinou Euclides:
“A História não apaga. Revela.”
E Canudos continua revelando aquilo que o poder frequentemente tentou esconder: não existe civilização verdadeira onde a desigualdade é fundamento da ordem social.

Para aprofundar a compreensão
A permanência histórica de Canudos deve-se, em grande medida, à força de duas obras fundamentais, dentre outras tantas obras existentes sobre o tema:
• Os Sertões, de Euclides da Cunha — denúncia histórica e interpretação fundadora do Brasil profundo.
• A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa — a universalização literária da tragédia sertaneja.
Juntas, elas impedem que Canudos pertença apenas ao passado. Mantêm viva a consciência crítica sobre o Brasil real — aquele que nasce longe dos palácios, mas insiste em sobreviver à história.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA