Quando o Rio Guadalquivir Escuta o Rio Amaraji
Caminho devagar, como quem não quer chegar, porque aprendi cedo que certas viagens não são de distância, são de reconhecimento. Dou um passo em Amaraji e o outro já pisa em Granada. O chão muda de nome, não muda de sentimento.
O sol é o mesmo — duro, antigo, sem conversa fiada. Um sol que não acaricia: ensina. No interior de Pernambuco amadurece a cana e racha a terra; na Andaluzia, dourando oliveiras, conta a mesma história em outro idioma. Sigo andando entre os dois, como quem atravessa uma ponte invisível feita de lembrança.

Sempre que viajo para fora do Brasil, quando as atividades permitem, desloco-me de uma cidade para outra de ônibus ou trem; assim tenho uma visão mais ampla do país que visito. Foi o que fiz nesta viagem: saí de Madrid em direção a Granada, atravessando paisagens que lentamente mudam o ritmo do coração da gente. Nesta travessia pela Andaluzia estamos eu e Cecília, companheiros de estrada e de descobertas, dividindo o silêncio das paisagens e o espanto de cada chegada. Granada, cidade marcada por tempos mouros e cristãos, carrega nos muros uma história que não se apaga; apenas se acumula como poeira antiga sobre a pedra. Granada está encravada ao pé de uma serra que a circunda quase por inteiro — característica que lembra imediatamente muitas cidades do sertão nordestino, também abraçadas por serras e protegidas por essa geografia de resistência.
A sensação quando se entra na Andaluzia é de arrepio. Os olivais se espalham até onde a vista alcança, a vegetação seca, os montes silenciosos — tudo remete imediatamente ao nosso nordestino pernambucano João Cabral de Melo Neto. Parece que seus versos viajam junto com o ônibus, olhando pela janela, reconhecendo naquela paisagem espanhola um pedaço do Nordeste brasileiro do outro lado do mar. Lembro dos poemas que escreveu sobre a Andaluzia, onde a paisagem é seca, precisa, quase mineral — como o sertão — ensinando que a beleza também nasce da contenção.

Foi também nessa Granada que nasceu, em 1898, na pequena Fuente Vaqueros, o poeta e dramaturgo Federico García Lorca, uma das vozes mais profundas da alma andaluza. Nas escadarias do hotel onde estamos hospedados encontro versos seus gravados na escadaria que dá acesso ao restaurante. Paro. Leio devagar. A cidade fala através dele. Lorca recorda as grandes copas amarelas das árvores antigas e a praça solitária coberta de folhas, lembranças da Granada de seu sonho e de sua solidão adolescente. Ali compreendo que a poesia não descreve apenas um lugar — guarda o tempo vivido dentro dele.
A vida de Lorca terminou tragicamente no início da Guerra Civil Espanhola. Preso em 1936 por forças ligadas ao levante militar fascista, foi executado sem julgamento nas proximidades de Granada e enterrado em uma cova rasa. Tornou-se símbolo maior da repressão política daquele período. O golpe liderado pelo general Francisco Franco, sustentado pela Alemanha nazista de Adolf Hitler e pela Itália fascista de Benito Mussolini, instaurou uma ditadura violenta que perseguiu intelectuais, trabalhadores e artistas. Um regime sanguinário que tentou apagar vozes como a de Lorca e acabou transformando-o em símbolo permanente da liberdade criadora contra o fascismo.

Nas ruas brancas da Andaluzia sinto o cheiro do engenho. Não sei explicar. Talvez o silêncio das paredes grossas. Talvez o jeito das portas fechadas na hora quente do dia, como se o mundo precisasse descansar da própria luta. Lembro das tardes compridas da infância, quando o tempo parecia parado e só o vento mexia nas folhas, devagar, respeitando o cansaço do povo.
E foi também por causa de outro caminho que voltei a estas terras. Não apenas pelo chamado da memória ou pela insistência silenciosa dos versos de João Cabral, mas por um compromisso concreto. O VII Congresso Internacional de Controle Público e Luta contra a Corrupção foi o motivo formal da viagem — a razão institucional que me trouxe novamente à Andaluzia. Vim discutir transparência, democracia e controle público, temas muito importantes, e acabei reencontrando paisagens que falavam diretamente com minha própria história.

Entre uma atividade e outra, a vida continuava ensinando fora dos auditórios. No restaurante do hotel puxei conversa, como faço sempre, carregando minha velha dificuldade quando o assunto é literatura com os mais jovens. Muitas vezes imagino que a pressa do mundo novo afastou a juventude dos livros. Desta vez, queimei a língua.
O rapaz que me atendia — filho de uma funcionária do próprio hotel — entrou na conversa com curiosidade tranquila. Chamava-se Jaime. Falávamos sem compromisso até que descobri duas coisas que me impressionaram: ele quer conhecer o Brasil e sabe quase tudo de literatura espanhola. Citava autores, comentava poemas, falava com entusiasmo verdadeiro. Observe um detalhe: o jovem tem apenas 23 anos.
Fiquei animado e desconfiado ao mesmo tempo. Resolvi encerrar a conversa antes que ele me fizesse alguma pergunta difícil. Vai que o professor virava aluno e o aluno ganhava? Um metido a professor sendo inquirido pelo suposto aprendiz — dessas peças silenciosas que a vida gosta de pregar.

Jaime estudou a vida inteira em escola pública e está no último ano de Economia. Ali pensei comigo: a escola pública continua dando exemplo, formando gente curiosa, aberta e inquieta diante do mundo.
Saí dali com uma ideia que não me abandonou. Quem sabe não fazemos uma surpresa para ele? Quem sabe abrir a possibilidade de conhecer o Nordeste, essa outra Andaluzia atravessada pelo sol e pela resistência? Talvez, caminhando entre rios pequenos e terras secas, descubra que Amaraji também conversa com Granada — e que certos lugares do mundo se reconhecem mesmo separados pelo oceano.
Eu e Cecília, em outro dia, entramos em um restaurante em Granada para almoçar. Sentamos ainda carregando o silêncio das ruas quando reconheci os primeiros acordes que vinham do sistema de som. Era “Corcovado”, de Tom Jobim. A surpresa veio antes da alegria. No meio da Andaluzia surgia aquela música mansa, quase sussurrada, feita para caber dentro do fim da tarde.
Pensei então em algo curioso: se no Brasil a Bossa Nova, com sua musicalidade intensa e lírica, revolucionou nossa música e hoje muitas vezes aparece apenas ligada ao estudo da história musical brasileira, ali permanecia viva, atual, respirando naturalmente no cotidiano. Não era lembrança acadêmica; era presença.
Mal terminávamos de comentar quando a música mudou. Começou a tocar “Samba da Bênção”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell. Olhei para Cecília: é mole?

“Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração”.
A música parecia explicar melhor que qualquer discurso o que eu vinha sentindo desde que chegara. Assim como o Nordeste conversa com a Andaluzia pela paisagem e pela luz, o Brasil também chegava ali pela música. Percebi então que a música fazia o mesmo caminho dos rios: atravessava fronteiras sem pedir licença, corria por dentro da gente e ligava margens distantes como se nunca tivessem estado separadas.
Conversar com os colegas de viagem continua sendo desafio. Eu mal sei o português direito; nunca quis aprender línguas estrangeiras — erro da porra, agora é tarde. No meu tempo de adolescente, quem militava nas organizações clandestinas muitas vezes nem queria conversa sobre aprender língua de país imperialista. Era o espírito do tempo, a cabeça fervendo de política e urgência. Mesmo assim tocamos nossas conversas, misturando gestos, risos e palavras tortas que acabam se entendendo.

Em Amaraji aprendi que a vida se mede pela resistência. Em Granada descobri que essa resistência não era só nossa. O homem que passa com passos curtos, cabeça baixa, poderia ser trabalhador do canavial ou camponês andaluz voltando do campo. Ambos carregam o mesmo peso invisível: sobreviver todos os dias.
Os rios também conversam entre si. Quando olho o Guadalquivir, escuto o rio Amaraji correndo dentro de mim. Água que não é abundância, mas memória. Rios que não gritam; persistem. Como certas poesias e certas músicas, seguem correndo mesmo quando o mundo parece em silêncio.
Percebo então que não viajei para conhecer o estrangeiro. Viajei para reencontrar o Nordeste escondido do outro lado do mar. A mesma economia de gestos, o mesmo orgulho silencioso, a mesma dignidade de quem aprendeu a viver com pouco sem diminuir a própria grandeza.
Há uma tristeza bonita nessas terras secas — uma tristeza que não derruba, apenas amadurece. Talvez por isso eu me sinta em casa caminhando entre oliveiras como antes caminhava entre canaviais. A paisagem muda; o coração reconhece.

Sigo andando, meio homem da zona da mata pernambucana, meio viajante das ruas andaluzas, entendendo que existem lugares parentes, mesmo sem nunca terem se visto. Lugares feitos da mesma luz severa e da mesma esperança teimosa.
No fim das contas descubro que não estou entre Amaraji e Granada.
Estou dentro de um mesmo mundo — o mundo dos que aprenderam a viver sob o sol forte, falando pouco, sentindo muito, transformando a dureza da terra em poesia silenciosa.


Porque há viagens que fazemos com os pés. Outras, ajudamos alguém a começar.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
