Um padre, um tempo, um gesto de coragem: Padre Assis em Amaraji
Esses dias, ao ler um texto sobre Padre Assis, Amaraji voltou inteira à minha memória — como se o tempo não tivesse passado. Não foi apenas a lembrança de um padre. Foi a lembrança de um tempo. E de um país.

O Brasil vivia sob o peso da ditadura. Era um tempo em que até as palavras tinham medo, e o silêncio era, muitas vezes, a única forma de proteção. Mas nem todos silenciavam. Havia, dentro da própria Igreja, vozes que insistiam em falar de justiça, de dignidade, de povo. Em Pernambuco, essa voz tinha nome: Dom Helder Câmara. E isso não era pouca coisa. Estar sob sua diocese era, para muitos, quase um gesto de coragem.
Amaraji, pequena e aparentemente distante de tudo, não estava fora desse mundo. A igreja local seguia seu curso, como sempre: missas, procissões, sacramentos. Lembro dos padres que vieram antes de Padre Assis, cada um à sua maneira, cumprindo sua missão. Havia o padre José Leão, que tinha um sítio no engenho Autonomista, que acabou dando nome à conhecida “ladeira do padre”. Depois, se a memória não estiver falhando, veio Padre Inácio, um padre negro cuja presença guardo com respeito e carinho — ele tinha um irmão a quem, na linguagem simples da época, sem qualquer marca de racismo, chamávamos de “Bola Preta”. Acredito que foi ele quem fundou o Colégio Vaticano II, onde estudei, instalado no prédio do salão paroquial. Houve também o padre Melo, que foi meu diretor e professor de português no Ginásio Agrícola de Escada. Eram tempos de uma igreja mais voltada para dentro, mais preocupada com o rito do que com o mundo ao redor.
Até que chegou Padre Assis.
Humilde, modesto, audaz e arrojado — havia nele uma espécie de indumentária moral muito própria, uma forma singular de enfrentar desafios e ultrapassar os limites do seu tempo e do seu espaço. Não era apenas um sacerdote: era alguém que pregava o Evangelho com autoridade de conhecimento e uma fé viva, que se traduzia em ação.
Veio do Ceará, de Bela Cruz, nascido em 11 de outubro de 1940, na Fazenda Bom Sucesso, filho de Raimundo Magalhães Rocha e dona Maria Benedita Rocha. Era o sexto de uma família numerosa, de 21 irmãos — uma origem que, talvez, já o tivesse acostumado desde cedo à partilha, à escuta e à convivência com o coletivo. Formado no Seminário de Olinda — o mesmo que formou figuras como o revolucionário Frei Caneca, herói pernambucano, trazia consigo não apenas formação religiosa, mas também um certo espírito inquieto, marcado pela história.
Mas não foi sua origem que marcou Amaraji. Foi sua forma de ser padre.
No dia 1º de março de 1979, assumiu a Paróquia de São José da Boa Esperança. E, desde a chegada, algo mudou. A cidade se entusiasmou com seu dinamismo. Não demorou: iniciou uma campanha para a recuperação e reforma da igreja matriz e passou a atuar em todos os setores da paróquia, com uma energia que não combinava com imobilismo.
Havia nele algo diferente, difícil de explicar naquele tempo, mas impossível de não sentir. Ele não ficava apenas no altar. Caminhava pelas ruas, conversava, escutava, se aproximava. Sobretudo dos jovens, com quem parecia dialogar não como autoridade, mas como alguém que também buscava respostas.
Com ele, a fé ganhava outro sentido. Não era só oração — era presença. Não era só palavra — era compromisso.
Lembro de episódios que, até hoje, me impressionam pela coragem e pela humanidade. Um deles foi a visita que fiz com ele ao cabaré/fuá de Damiana, na Semana Santa. Para muitos, aquele era um lugar interditado, moralmente condenado. Mas Padre Assis entrou. E não entrou para julgar. Falou, pregou, mas, acima de tudo, acolheu. As mulheres choravam. Não era um choro de culpa — era um choro de quem, talvez pela primeira vez, se sentia vista como gente.
Outro momento foi a ida à cadeia. Fui com ele também. Ali, entre homens esquecidos, ele não levou apenas oração. Levou respeito. Num tempo em que até a liberdade era vigiada, ele conseguia devolver, por alguns instantes, a dignidade àqueles que já não esperavam nada.
Esses gestos, hoje entendo melhor, não eram simples. Eram profundamente políticos — ainda que não no sentido estreito da palavra. Eram gestos de alguém que entendia a fé como compromisso com os últimos.
Com o tempo, fui compreendendo que aquela postura não nascia do acaso. Padre Assis carregava influências profundas. Seguia, com firmeza, os ensinamentos de Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho, referência cristã e segundo bispo da Diocese de Afogados da Ingazeira, no Pajeú — região próxima de onde ele próprio nascera. Dali vinha, talvez, essa mistura de fé e coragem, de espiritualidade e enfrentamento.
E enfrentamento não lhe faltou.
Mais tarde, ao ouvir relatos de sua própria trajetória, fui entendendo a dimensão do homem que havia passado por Amaraji. Ele não se limitou a uma paróquia. Atuou em diversas regiões — Afogados da Ingazeira, Serra Talhada, Tabira, Mamanguape, Flores — levando consigo uma prática pastoral que evangelizava, mas também politizava, despertava consciências, incomodava estruturas.
Não por acaso, também fez das rádios um instrumento de missão. Participou da criação e administração de emissoras no Sertão, ajudando a dar voz a quem não tinha. Em um desses momentos, já mais tarde, ao narrar sua história em um programa especial de rádio que reuniu emissoras de Pernambuco e Ceará, falou com a mesma convicção de sempre sobre sua caminhada.
Ali, resumiu sua trajetória de forma simples e contundente:
“Nunca tive medo de enfrentar os poderosos que exploravam o povo. Fui ameaçado, até tiro me deram, mas nunca pegou um, porque sabia que Deus estava comigo.”
Essa frase diz muito. Talvez diga tudo.
Ele também defendia que os sacerdotes precisavam ocupar mais os meios de comunicação e jamais transformar o sacerdócio em meio de vida — uma visão coerente com quem sempre entendeu a fé como serviço.
Sua formação foi além do seminário. Passou por experiências em Roma e por outros países, ampliando horizontes. Foi professor, ocupou funções acadêmicas, chegando a ser pró-reitor da Universidade do Vale do Acaraú. Mas, curiosamente, era ao falar do sertão, das comunidades simples, da vida junto ao povo, que sua voz parecia ganhar mais verdade.
Houve ainda uma conversa que nunca esqueci. Padre Assis me falou de uma visita que fez ao padre Vitor Miracapilo, que havia sido punido e banido do Brasil por se recusar a celebrar a Independência sob imposição do regime. Lembro da indignação dele. Mas, mais do que isso, lembro da tristeza. Ele tentou ir com alguém, a Ribeirão prestar solidariedade — e não encontrou quem fosse com ele. Foi só, ou quase só. Naquele tempo, até a solidariedade tinha medo.
O padre italiano Vito Miracapillo (muitas vezes lembrado como “Vitor” na memória popular) foi expulso do Brasil em 1980, durante o regime militar.
A razão foi profundamente política — ainda que expressa em um gesto religioso.
Naquele ano, ele se recusou a celebrar a missa do 7 de Setembro, data da Independência do Brasil. Mas não foi uma recusa simples ou protocolar. Ele declarou, de forma clara, que não havia o que comemorar, porque o povo brasileiro — especialmente os mais pobres — não vivia uma verdadeira independência, mas sim uma realidade de desigualdade, repressão e falta de direitos.
Essa posição foi interpretada pelo regime como uma afronta direta. Em plena ditadura, questionar símbolos nacionais — ainda mais vindo de um padre estrangeiro — era visto como subversão.
Como consequência, o governo o enquadrou na Lei de Segurança Nacional e decretou sua expulsão do país. O banimento do padre Vito Miracapillo, decretado em 1980 pela ditadura, foi revertido por Lula no seu primeiro mandato, permitindo seu retorno ao Brasil, ainda que só para celebrar uma missa em Ribeirão e rever amigos.
Naquela época, 1980, eu estava longe, estudando em Areia, na Paraíba. Mas aquela história ficou comigo. Talvez porque revelasse algo maior do que o episódio em si. Revelava o isolamento daqueles que ousavam não se curvar. Se estivesse em Amaraji, claro que iria com ele.
Permaneceu à frente da paróquia até 11 de setembro de 1983. Não foi um período longo no calendário — mas foi profundo na memória.
Com o passar dos anos, aquele padre que caminhava pelas ruas de Amaraji se tornaria o Monsenhor Francisco de Assis Magalhães Rocha, reconhecido por sua longa trajetória na Paróquia São José da Boa Esperança. Sua história não ficou apenas na memória de alguns — foi celebrada por toda a comunidade. Em 2018, ao completar cinquenta anos de sacerdócio, comemorou seu Jubileu de Ouro, um marco que não mede apenas o tempo, mas a profundidade de uma vida dedicada ao outro.
E talvez ali estivesse a prova mais silenciosa de tudo aquilo que ele representou: não foi apenas um padre de passagem, mas alguém que deixou raízes.
Entre tantas lembranças que marcaram a minha vida, a do nosso povo e país, me veio à memória um presente que ele me mandou, pelas mãos de Marcelo, meu irmão — um daqueles gestos simples, mas que a gente não esquece.
Atualmente, Padre Assis vive no Ceará e, pelo visto, virou também um respeitável produtor de cajuína. No ano passado, me enviou nada menos que uns dez litros — uma bênção engarrafada, diga-se de passagem.
Confesso que desde então minha fé até aumentou… especialmente na generosidade dele. Estou aqui pensando seriamente em fazer uma oração bem caprichada — ou quem sabe um pedido mais direto mesmo — para ver se o padre resolve repetir o milagre.
Hoje, olhando para trás, vejo que Padre Assis não foi apenas um padre em Amaraji. Foi um sinal de que a fé podia ir além das paredes da igreja. Podia entrar onde ninguém queria entrar. Podia tocar onde a sociedade preferia não olhar.
Num tempo de silêncio, ele escolheu a presença.
E talvez tenha sido isso que mais ficou: a lembrança de que, mesmo nos períodos mais duros, há sempre aqueles que transformam a fé em coragem — e a coragem em gesto.
Porque em Amaraji eu aprendi que rezar também pode ser um ato de resistência.
Josias Gomes, filho de Amaraji,
Conselheiro do TCE/BA
