Wenceslau Guimarães: ENTRE A TERRA E A PALAVRA
Wenceslau Guimarães e a Formação Política do Território do Baixo Sul da Bahia
Terra, poder e memória
Sempre acreditei que certas cidades não podem ser compreendidas apenas pelos mapas ou pelos números oficiais. Elas precisam ser lidas como se lê um romance — observando as pessoas, a paisagem e os conflitos que moldaram sua existência. O município de Wenceslau Guimarães, situado no Território do Baixo Sul da Bahia, é um desses lugares onde a história do Brasil se revela de forma silenciosa, porém profunda.
Ali, a terra fala antes mesmo dos homens.
O relevo ondulado, as matas úmidas e os rios que atravessam a região anunciam uma vocação agrícola antiga. Antes da chegada dos colonizadores rurais, aquela área era habitada por povos indígenas, classificados nos registros históricos como tapuios e cotoxós. Depois vieram famílias que abriram a mata com ferramentas simples, formando pequenos roçados que dariam origem ao povoado de Laje do Rio das Almas — embrião do município atual.

A história administrativa da localidade revela a lenta construção do território: Palmeiras, depois ganhou o nome de Indaiá, até que em 1962, a emancipação política lhe conferiu o nome de Wenceslau Guimarães. Não foi apenas uma mudança toponímica; foi a inscrição de uma memória política na geografia baiana.
A cidade cresceu ligada à agricultura e ao movimento das estradas. A BR-101 que corta o município, tornou-se mais que um eixo rodoviário: converteu-se em artéria econômica e social, conectando o interior ao litoral e integrando o Baixo Sul aos fluxos nacionais. Por ela circularam produtos agrícolas, trabalhadores, ideias e transformações que alteraram lentamente o ritmo da vida local.
A economia da terra e o mundo do cacau
Para compreender o Território do Baixo Sul é impossível ignorar a força histórica do cacau. Durante grande parte do século XX, o sul da Bahia viveu sob a lógica econômica e social do chamado “ouro negro”. O cacau não foi apenas cultura agrícola; foi estrutura de poder.
Surgiu então a figura do coronel do cacau — grande proprietário rural que concentrava terra, riqueza e autoridade política. Esses coronéis não governavam apenas fazendas; governavam relações sociais inteiras. Controlavam votos, mediavam conflitos, influenciavam decisões administrativas e moldavam a vida econômica regional.
O coronelismo baiano não pode ser reduzido a caricatura. Ele foi resultado de um país rural, de instituições ainda frágeis e da ausência efetiva do Estado no interior. Onde o poder público era distante, o poder privado ocupava o espaço.
Essa realidade foi capturada com rara sensibilidade pela literatura de Jorge Amado. Em seus romances, o sul da Bahia deixa de ser apenas cenário e transforma-se em personagem histórico.

Em Terras do Sem Fim, vemos a violência da conquista da terra, as disputas entre famílias poderosas e o nascimento das grandes fazendas cacaueiras. Em Cacau, surge o trabalhador explorado, revelando o outro lado da riqueza agrícola. Já em Tocaia Grande, talvez uma das narrativas mais densas de Jorge Amado, aparece a formação de uma comunidade inteira sob a sombra do poder dos coronéis, mostrando como civilização e barbárie caminharam juntas na expansão econômica regional.
Esses romances não são apenas ficção. Funcionam como interpretação social de uma época. Neles, compreende-se que o cacau produziu riqueza, mas também desigualdade; progresso material, mas conflitos humanos profundos.
Terra, reforma agrária e novos sujeitos sociais
Com o declínio do ciclo cacaueiro e as transformações econômicas das últimas décadas do século XX, o território passou por novas mudanças sociais. A estrutura fundiária começou a se alterar com a criação de assentamentos de reforma agrária, muitos organizados sob a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
Esses assentamentos representam uma nova etapa histórica da relação entre homem e terra no sul da Bahia. Se antes predominava o grande domínio rural, surgem agora experiências baseadas na agricultura familiar e na organização coletiva da produção.
Não se trata apenas de mudança econômica, mas de transformação social. O território passa a incorporar novos sujeitos históricos — trabalhadores que reivindicam não apenas terra, mas cidadania e reconhecimento.
Assim, o mesmo espaço que testemunhou o poder dos coronéis passa a abrigar experiências de democratização do acesso à terra, revelando a continuidade das questões agrárias brasileiras ao longo do tempo.
Wenceslau Guimarães: o homem e seu tempo

É nesse panorama histórico mais amplo que se deve compreender a figura de Wenceslau de Oliveira Guimarães.
Nascido em Valença, formou-se em 1886 pela Faculdade de Direito do Recife, uma das grandes escolas formadoras da elite intelectual brasileira do século XIX. Ali se formavam não apenas advogados, mas homens destinados à vida pública — oradores, parlamentares e intérpretes da lei.
Ele pertenceu à geração que viveu o fim do Império e o nascimento da República. Eleito deputado provincial em 1888, participou da política exatamente no momento em que o Brasil aboliu a escravidão e se preparava para mudar de regime.
Os políticos daquele tempo eram, antes de tudo, homens da palavra. A tribuna parlamentar era espaço de prestígio intelectual, e a oratória constituía instrumento central de liderança. Wenceslau Guimarães destacou-se justamente por essa capacidade — reconhecido como jurista culto, orador respeitado e homem público de reputação ética.

Sua trajetória representa a elite jurídica que deu sustentação institucional à Primeira República. Não eram revolucionários, mas construtores de continuidade política em tempos de mudança.
Faleceu em 1932, quando o ciclo político oligárquico já se encerrava após a Revolução de 1930, marco do início de uma nova fase do Estado brasileiro.
Quando o nome vira território
Décadas depois, ao criar o município em 1962, a Bahia decidiu perpetuar seu nome na geografia estadual. Esse gesto revela algo profundo: a memória política transforma indivíduos em referências coletivas.
Hoje, o município de Wenceslau Guimarães sintetiza múltiplas temporalidades — o passado indígena, a colonização agrícola, o poder dos coronéis do cacau, as lutas sociais contemporâneas e a permanência simbólica de um homem público formado no século XIX.
Ao olhar para essa história, compreendo que não se trata apenas de narrar uma biografia ou descrever uma cidade. Trata-se de entender como o Brasil foi sendo construído lentamente pela relação entre terra, poder e palavra.
Porque no fundo, cada cidade do interior guarda uma chave para compreender o país inteiro.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
