14 de março de 2026: 90 anos do poeta Chico Pedrosa
Chico Pedrosa e a força da poesia popular nordestina
Pense num poeta arretado. Sempre admirei a capacidade desses poetas nordestinos. O improviso deles me fascina.
Desde menino, eu acompanhava na feira de Amaraji os coquistas e emboladores que alegravam o movimento da cidade. A roda se formava, o pandeiro marcava o compasso e dali saíam versos ligeiros, cheios de humor, crítica e sabedoria popular. Lembro-me de ver ainda muito jovens os emboladores Caju e Castanha já demonstrando aquele talento impressionante para o improviso. Havia também outros emboladores que passavam pelas feiras e festas da região — mestres da palavra rimada como Beija-Flor, Curió de Bela Rosa e Peneira, que animavam as feiras com desafios e cantorias. Também gostava de assistir as grandes cantorias de viola, onde os repentistas travavam verdadeiros duelos poéticos. Entre os grandes mestres que já partiram estão Pinto do Monteiro, Otacílio Batista e Louro de Campina. E continuam mantendo viva essa tradição grandes cantadores ainda em atividade, como Oliveira de Panelas, Ivanildo Vilanova, Severino Feitosa, Zé Viola e João Lourenço — todos herdeiros dessa impressionante tradição oral do Nordeste.
Mas sábado foi aniversário de outro grande poeta nordestino: Chico Pedrosa. Francisco Pedrosa Galvão nasceu no sítio Pirpiri, zona rural de Guarabira, no dia 14 de março de 1936 — data que coincide com o Dia da Poesia e também com o nascimento do grande poeta baiano Castro Alves. Filho de Avelino Pedro Galvão — o Mestre Avelino — agricultor e cantador de coco, herdou desde cedo o gosto pela palavra rimada e pela tradição da poesia oral. Grande contador de histórias do imaginário e da realidade popular, Chico Pedrosa se tornou um dos grandes expoentes contemporâneos da poesia nordestina. Ao longo de sua trajetória, lançou sete livros e inúmeros cordéis, sempre mantendo viva a tradição da declamação e da poesia popular.
Eu tenho em minha discotecas uns 5 CDs dele e alguns livros de poesia dessa lenda viva.
A obra e a presença de Chico Pedrosa lembram que o Nordeste é um território de extraordinária diversidade cultural. Da força armorial do Quinteto Armorial à energia contagiante do frevo; da roda da ciranda ao balanço do forró; da ousadia criativa do Manguebeat ao legado do Movimento Armorial, inspirado por Ariano Suassuna. Poderíamos ainda lembrar o xote, o baião e tantas outras expressões que formam esse grande mosaico cultural nordestino.
Tudo isso mostra como a poesia popular faz parte de uma tradição viva — nas feiras, nas praças, nas cantorias e nos palcos — onde a palavra nasce da voz do povo e retorna a ele em forma de arte.
É dessa fonte profunda que brotam poetas como Chico Pedrosa, guardiões da memória, do humor e da sabedoria do Nordeste.
E para sentir um pouco dessa força da poesia falada, convido todos a assistirem ao vídeo. Vale a pena ouvir a voz e os versos de um grande poeta do nosso Nordeste.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
