
A Fé Capturada: Reflexões Após Apocalipse nos Trópicos
Assisti ao documentário Apocalipse dos Trópicos, de Petra Costa, ao lado de minha companheira Cecília, pela Netflix. Esperávamos uma análise profunda sobre o bolsonarismo e seus desdobramentos. Encontramos muito mais: uma denúncia poderosa sobre como a fé foi capturada por um projeto político autoritário, com impactos profundos no presente e no futuro do Brasil.
O filme lança luz sobre algo que muitos de nós, da militância de esquerda, demoramos a compreender: a fé — sobretudo entre os mais pobres — não é apenas refúgio espiritual. É rede de apoio, é proteção, é cuidado onde o Estado falha.
Onde o Estado não chega, a igreja ocupa
A imagem que mais me marcou não foi a de comícios ou palanques, mas sim a da igreja de bairro, encravada na periferia, atuando onde os serviços públicos são ausentes ou precários. Eu já me deparei com isso na leitura do livro Povo de Deus, de Juliano Spyer. Ali estão os pastores e irmãs oferecendo consolo, cestas básicas, remédio, escuta, apoio jurídico — tudo aquilo que o Estado, tantas vezes, se mostra incapaz de fornecer.
É nesse vácuo que cresce o poder político das lideranças religiosas, especialmente de segmentos neopentecostais que operam com lógica empresarial e teológica centrada na “vitória” nesta vida — e não na esperança do além.
A instrumentalização da fé
A cena em que Bolsonaro discursa sob o olhar fiscalizador do pastor Silas Malafaia é emblemática. O presidente parece não falar ao povo, mas prestar contas a quem realmente detém sua legitimidade moral: o pastor. Malafaia, por sua vez, repete palavra por palavra em sincronia, como quem dita as linhas invisíveis do roteiro.
Essa relação não é simbólica. É estratégica. É nesse terreno que se constrói o discurso político disfarçado de evangelho. O fiel não vota mais como cidadão, mas como “servo de Deus”, orientado por seu líder espiritual. O voto vira extensão do culto. A política, um braço da guerra espiritual.
A resposta da esquerda: humildade e presença concreta
Nós, da esquerda, temos falhado historicamente em compreender esse fenômeno. Muitas vezes olhamos com ironia ou superioridade para o papel das igrejas, como se fossem apenas instrumentos de alienação.
O documentário nos obriga a repensar. O que vimos nos últimos anos foi o esboço de uma teocracia informal, em que o presidente da República parecia agir sob comando espiritual de um líder religioso, obedecendo a diretrizes ditadas por figuras como Silas Malafaia. O risco era real: termos um Estado governado não pelas leis da Constituição, mas pelos mandamentos de um pastor.
Cabe observar os limites da “teologia da prosperidade” difundida pelos neopentecostais quando a realidade econômica do país se impõe. Em 2022, dados do IBGE/Datafolha publicados pelo PT elucidam essa questão: no período dos governos do Partido dos Trabalhadores (2003-2016), em valores absolutos, houve um crescimento de 129% da população evangélica no Brasil, enquanto o PT estava no governo — uma média de 27,6% a cada três anos. Já durante o governo de Jair Bolsonaro, o crescimento proporcional da população evangélica foi muito menor: apenas 6% nos primeiros três anos de gestão.
A pesquisa revela dois pontos intencionais: 1) nossos governos não traduziram a prosperidade econômica alcançada – especialmente entre evangélicos de baixa renda, fruto de nossas políticas públicas – em apoio político-eleitoral; 2) muitos fiéis associam a melhoria de vida exclusivamente à prosperidade prometida pelos pastores, o que gera obediência acrítica.
Contudo, após os governos do PT, o desmonte do Estado, o enfraquecimento de políticas públicas e a precarização do trabalho abalaram conquistas anteriores. Esse retrocesso impactou diretamente as camadas mais vulneráveis – público prioritário dos neopentecostais –, contribuindo para o declínio da teologia da prosperidade, como evidenciam os dados.
Essa constatação impõe à esquerda a tarefa de retomar o diálogo com o povo de fé — não para disputar Bíblia com os pastores, mas para disputar o direito de viver em um país onde nenhuma religião domine a política e onde todas as crenças convivam sob a proteção do Estado democrático.
Assista, reflita, compartilhe
Apocalipse nos Trópicos é mais do que um documentário político. É um chamado à consciência.
Petra Costa constrói com maestria uma narrativa em que as fronteiras entre púlpito, palanque e psicologia coletiva se apagam, e o que emerge é um Brasil cindido entre fé e razão, entre povo e poder.
O filme não ridiculariza o crente. Não demoniza a fé.
Ele denuncia a manipulação da espiritualidade como instrumento de dominação e alerta para o perigo real de uma teocracia informal em curso.
É um alerta. Um espelho. Um clamor.
E, para nós que militamos por um Brasil mais justo, é um chamado à ação.
Eu e Cecília assistimos pela Netflix e recomendamos fortemente. Que cada militante, gestor, pastor e cidadão preocupado com a democracia brasileira tire um tempo para ver, pensar e agir.
Josias Gomes
Deputado Federal do PT/Bahia
Vice-líder do PT na Câmara
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