Quem foi Antonieta de Barros?
Imagine uma mulher negra, nascida em Santa Catarina em 1901, 13 anos após a abolição da escravidão, filha de uma ex-escravizada, lavadeira e administradora de pensão, tornar-se a primeira deputada estadual negra eleita no Brasil. Esta é a vida e obra de Antonieta de Barros, uma das mulheres mais importantes na construção de um Brasil democrático e que acreditava no poder da educação transformadora.
O pioneirismo de Antonieta ao alcançar um dos principais postos do poder em Santa Catarina quando ele era praticamente restrito aos homens brancos abastados, é tão impressionante quanto a sua atuação político-social. A raiz desse sucesso foi justamente a educação. Por sua mãe administrar uma pensão estudantil, ela se apropriou dos estudos desde cedo e quis ir além ao compartilhar o que aprendeu com os menos desfavorecidos.

Ainda com 17 anos de idade, Antonieta montou um cursinho focado em alfabetizar adultos e pessoas pobres. Ela ainda não sabia que essa iniciativa atravessaria a sua vida e entraria para a história da educação nacional. Se de um lado a mulher negra incentivava a educação, como jornalista, por meio do pseudônimo de Maria da Ilha, usava o seu conhecimento e visão crítica para denunciar as mazelas sociais e cobrar políticas públicas educacionais e mais direitos para as mulheres numa sociedade fortemente patriarcal. Em 1937, ela publicou um livro chamado Farrapos de Ideias, que reuniu dezenas de artigos com suas opiniões pessoais sobre a educação e sua importância.
A dedicação imparável de Antonieta ganhou projeção estadual e, no ano de 1934, veio o justo reconhecimento popular e de natureza histórica: foi eleita deputada estadual por Santa Catarina, a primeira mulher negra a alcançar esse feito no Brasil. Vale destacar que somente em 24 de fevereiro de 1932 o voto feminino passou a ser assegurado pela legislação brasileira, ou seja, até pouco tempo, as mulheres não podiam sequer votar, quanto mais serem eleitas. Dessa maneira, o triunfo eleitoral de Antonieta foi uma dupla vitória e também lavou a alma do movimento feminino que lutava pelo direito ao voto havia 50 anos.
O auge da trajetória política dessa mulher extraordinária aconteceu em 1947, ao ser novamente eleita deputada estadual. Ela escreveu o seu nome no estado de Santa Catarina ao participar da elaboração de projetos voltados ao fortalecimento do ensino público, à concessão de bolsas de estudo e à valorização dos professores. Nada disso seria possível se a filha de uma ex-escravizada não tivesse tido contato com a educação e, principalmente, não contasse com o apoio popular para representar o povo no parlamento catarinense.

Aos professores e professoras saibam que o dia que os homenageia começou com Antonieta de Barros. Foi ela quem apresentou o projeto de lei estadual nº 145, que instituiu o Dia do Professor em Santa Catarina, em 1948, celebrado em 15 de outubro. A medida inspirou a criação da homenagem em esfera nacional, durante o governo de João Goulart em 1963. Essa celebração faz justiça histórica à luta da deputada negra em favor da educação.
Diante de uma vida e obra tão potente quanto a de Antonieta de Barros, uma pergunta não quer calar: por que ela não tem o devido reconhecimento nem mesmo no universo educacional? Seu nome raramente é citado na política ou nos movimentos sociais. Talvez o início do texto responda: ela é negra, mulher, filha de ex-escravizada — uma barreira indelével que omite a glória e favorece o ostracismo de pessoas negras, mesmo depois de mais de um século do nascimento de uma das brasileiras mais notáveis do Brasil.
Antonieta de Barros PRESENTE!
Josias Gomes, engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
