Festa junina: resistência, memória e identidade
Recebi este vídeo de Mano do Galo, meu conterrâneo e, como eu, profundo admirador da nossa cultura nordestina. Resolvi compartilhar com vocês este desabafo de uma nordestina indignada com o tratamento que muitas vezes é dado às nossas raízes culturais nas atuais festas juninas do Nordeste.
Nada tenho contra o funk, o sertanejo ou qualquer outro ritmo musical que possa participar dos nossos festejos. A cultura é dinâmica, dialoga com outros sons e se renova permanentemente. O Nordeste sempre foi um espaço de mistura, criatividade e acolhimento.
Mas precisamos refletir: não faz sentido que, nas festas que nasceram da alma nordestina, os grandes palcos sejam dominados por artistas e ritmos que pouco têm relação com a nossa tradição, enquanto os nossos mestres — sanfoneiros, forrozeiros, cantadores e representantes da cultura popular — sejam relegados a horários e espaços secundários.
É preciso valorizar quem construiu a identidade cultural do Nordeste. O forró, o baião, o xote, o xaxado, o coco, a ciranda, a poesia popular e tantas outras manifestações não são apenas estilos musicais: são a memória viva de um povo. São a voz dos nossos sertões, das nossas cidades, dos nossos engenhos, das nossas feiras e das nossas comunidades.
Os promotores das festas juninas precisam compreender que organizar um grande evento não significa apenas contratar os artistas de maior apelo comercial. Significa também assumir uma responsabilidade histórica com a preservação e a promoção da cultura que dá sentido a essas celebrações.
As festas de São João do Nordeste não podem perder a sua alma. Elas devem ser espaços de encontro entre tradição e inovação, mas com a nossa cultura ocupando o lugar de protagonismo que merece.

Não podemos aceitar que os nordestinos precisem lutar para que a própria riqueza cultural não seja esquecida dentro da sua própria terra. Precisamos acordar, defender nossas raízes e exigir respeito aos nossos artistas.
Valorizar a cultura nordestina é valorizar a nossa história, a nossa identidade e o legado que recebemos de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Marinês, Sivuca, Elba Ramalho, Trio Nordestino, Santana, Flávio Leandro, Flávio José, Nando Cordel, Petrúcio Amorim e tantos outros que transformaram os sons do Nordeste em patrimônio do Brasil.

Que as festas juninas continuem sendo grandes celebrações, mas que nunca deixem de ser, acima de tudo, uma homenagem ao povo nordestino e à cultura que nasceu no coração desta região.
Josias Gomes, engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
