O “teatro” de uma mãe e o nascimento de uma escritora
O afeto da mãe de Conceição Evaristo a salvou da fome, da pobreza e do abandono do poder público, tão comuns nas histórias de muitas famílias negras do Brasil. Mesmo sem saber, o teatro improvisado de sua mãe, numa casa vazia de posses materiais, mas cheia de amor, ajudou a menina imaginativa a construir o roteiro de uma escritora que, mais tarde, viria a ser alimento para a alma de muitas pessoas.
Atente bem à fala de Conceição: “Muitas vezes, um pedaço de pão, pra gente, era um sonho.” Quando o alimento sagrado passa a ser o sonho de uma criança, todas as demais necessidades vitais lhe foram negadas. Conceição Evaristo conseguiu superar adversidades inimagináveis, tornou-se uma respeitável pesquisadora e docente universitária e, por meio da poesia, do romance, do conto e do ensaio, firmou-se como uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea.
Na obra de Conceição Evaristo, a memória é sua principal aliada. É por meio dela que a escritora debate a violência sofrida pelas mulheres negras, o racismo e a desigualdade social — dramas reais de milhões de brasileiros que sempre atravessaram sua existência. Não por acaso, uma de suas obras de maior destaque chama-se Becos da Memória, um dos importantes romances memorialistas da literatura contemporânea brasileira.

Conceição Evaristo é uma exceção entre aqueles que não tiveram o que comer e, mesmo assim, conseguiu transformar essa dor em denúncia, por meio de seus ofícios de educadora e escritora. A sensação é de que, a cada fala e a cada texto dessa brasileira notável, ela própria se transforma em literatura: com seus sonhos de pão diário, seu horizonte de muitas lutas e a esperança de que, um dia, nenhuma mãe precise mais improvisar um teatro pela ausência de quase tudo, mas apenas pelo prazer de criar, imaginar e compartilhar afeto com suas filhas.
Josias Gomes
Engenheiro Agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
