Os sinos de Ouro Preto dobram pela Democracia
Meus caríssimos — e sempre poucos — leitores e leitoras
Há acontecimentos que não terminam quando as luzes do auditório se apagam. Permanecem conosco por muito tempo, como uma boa música que insiste em voltar à memória ou como o eco dos sinos que percorrem as ladeiras de Ouro Preto. Assim foi a abertura do IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas.

O cenário não poderia ser mais simbólico. Ouro Preto, Patrimônio Cultural da Humanidade, é uma cidade onde a história parece caminhar ao lado de quem a visita. Cada rua de pedra, cada igreja barroca, cada torre guarda um capítulo da formação do Brasil.

A solenidade começou da melhor maneira possível: um refinado quarteto de cordas, formado por músicos da Orquestra Ouro Preto, brindou o público com uma apresentação inesquecível. Fundada em 2000, a orquestra tornou-se uma das mais importantes do país justamente por romper fronteiras entre o erudito e o popular, sem jamais perder a excelência artística.

O repertório foi cuidadosamente escolhido.
As Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, revelaram toda a genialidade do compositor que soube unir Bach à alma brasileira. Em seguida, O Trenzinho do Caipira nos levou, em imaginação, pelas montanhas de Minas, numa das páginas mais delicadas da música nacional.

Vieram depois o sofisticado Baião Barroco, de Juarez Moreira; o clássico Brejeiro, de Ernesto Nazareth, marco da música urbana brasileira; a emocionante Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, de Milton Nascimento e Márcio Borges; e uma surpreendente versão de La Belle du Jour, de Alceu Valença, recebida com entusiasmo pelo público.

Como encerramento, o Hino Nacional Brasileiro, executado com elegância e solenidade, levou todos a se levantarem. Os aplausos foram longos, calorosos e de pé, prestando homenagem não apenas aos músicos, mas ao poder transformador da arte.

Mas aquela manhã fria de Ouro Preto ainda reservaria outro momento memorável.
Na abertura oficial do Congresso, o presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, Durval Ângelo, fez um pronunciamento que ultrapassou o protocolo institucional. Em vez de um discurso burocrático, ofereceu uma vigorosa reflexão sobre a democracia, a comunicação pública e o papel dos Tribunais de Contas na defesa da cidadania.

Tudo começou pela escolha do símbolo do Congresso: um sino estilizado.
Não poderia haver imagem mais apropriada.

Em Ouro Preto, os sinos nunca foram apenas instrumentos religiosos. Durante séculos, constituíram o principal sistema de comunicação da cidade. Muito antes da imprensa, do rádio ou da internet, eram eles que anunciavam as horas, convocavam os fiéis, alertavam para incêndios, epidemias e calamidades, comunicavam falecimentos e celebravam as grandes festas religiosas. Cada igreja possuía um toque próprio, compreendido pelos moradores como uma verdadeira linguagem coletiva. Essa tradição, preservada até hoje, foi reconhecida pelo IPHAN como patrimônio cultural brasileiro.

O presidente Durval a quem recorri para entender melhor a história dos sinos de Ouro Preto, me repassou um excelente artigo de Luís Veríssimo, publicado pelo Jornal GGN sobre a extraordinária linguagem dos sinos de Ouro Preto, que ajudou a compreender a profundidade desse símbolo. Mais tarde, durante um agradável almoço no tradicional restaurante Contos de Réis, um simpático garçom acrescentou outro dado curioso: Ouro Preto reúne 13 igrejas, 12 capelas e quatro Passos da Paixão, formando um dos mais extraordinários conjuntos religiosos do Brasil. Como se não bastasse, contou, com justificado orgulho, que já subiu catorze vezes o Pico do Itacolomi, que avistávamos da janela do restaurante. Em Ouro Preto, percebe-se logo que a história não está apenas nos monumentos; ela vive também na memória e na conversa de seu povo.

Foi justamente a partir dos sinos que Durval Ângelo construiu o ponto alto de seu discurso de abertura do congresso.
Recordou a célebre parábola narrada por José Saramago durante o Fórum Social Mundial de 2001. Numa pequena aldeia medieval, os sinos começaram a tocar a finados. A população abandonou seus afazeres e correu para descobrir quem havia morrido. Não havia caixão, nem corpo. Diante do espanto geral, o sineiro respondeu: “Hoje morreu a justiça.”

A partir dessa poderosa metáfora, o presidente do Tribunal conduziu uma reflexão sobre o mundo contemporâneo. Lembrou que vivemos tempos marcados por guerras, intolerância, racismo, misoginia, desinformação organizada e ataques às instituições democráticas. Citando o livro *Como as Democracias Morrem*, advertiu que as democracias raramente desaparecem de forma abrupta. Elas costumam ser corroídas lentamente, quando o diálogo cede lugar ao ódio, quando a mentira substitui os fatos e quando as instituições deixam de cumprir sua missão.

Nesse contexto, ressaltou que os Tribunais de Contas já não exercem apenas o controle financeiro dos gastos públicos. São instituições que promovem transparência, induzem políticas públicas, fortalecem a boa governança e, sobretudo, precisam comunicar melhor suas ações para que cada cidadão compreenda que fiscalizar os recursos públicos significa proteger direitos, melhorar serviços e fortalecer a democracia.

A conclusão foi igualmente inspiradora. Ao lembrar os versos do poeta inglês John Donne, eternizados por Por Quem os Sinos Dobram — “Nunca perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” — Durval Ângelo recordou que ninguém permanece indiferente quando a democracia é atacada ou quando a justiça é enfraquecida.
Saí daquela solenidade de abertura convencido de que a escolha de Ouro Preto para sediar este Congresso não foi mero acaso.
Cidade onde a liberdade começou a ser sonhada, onde as pedras contam histórias e onde os sinos ainda conversam com o povo, Ouro Preto mostrou que comunicar é muito mais do que transmitir informações. Comunicar é criar vínculos, formar consciência, fortalecer instituições e cultivar esperança.
Naquela manhã, os músicos fizeram as cordas cantarem, e Durval Ângelo fez os sinos falarem.
Uns emocionaram pela beleza da arte.
*O outro emocionou pela coragem de lembrar que a democracia não é um presente recebido de gerações passadas. É uma construção diária, que depende de instituições fortes, de cidadãos vigilantes e de homens públicos que compreendam a grandeza de sua responsabilidade*.
Ao deixar o auditório da UFOP, tive a impressão de que os sinos de Ouro Preto continuavam ecoando pelas montanhas mineiras.
Desta vez, porém, não dobravam pela morte da justiça, como na parábola de Saramago.
Dobravam pela democracia.
Registro meu sincero agradecimento ao conselheiro Durval Ângelo, que gentilmente me encaminhou o artigo sobre a história dos sinos de Ouro Preto, leitura fundamental para que eu compreendesse o profundo significado desse extraordinário patrimônio cultural e pudesse incorporá-lo a esta crônica.
Agradeço, igualmente, ao companheiro Michael Rosa, que me enviou a íntegra do discurso de abertura de Durval Ângelo, bem como a relação das obras executadas pelo quarteto de cordas da Orquestra Ouro Preto. Sem essas valiosas contribuições, esta crônica certamente não teria alcançado a riqueza de detalhes que procurei oferecer aos meus poucos leitores e leitoras.
Josias Gomes
Engenheiro Agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
