Uma crítica ao mesmo tempo profunda e humorada.
“Chiclete com Banana”, de Jackson do Pandeiro, lançada em 1959 é uma das manifestações mais inteligentes do debate cultural brasileiro daquele período.
A música critica, com muito humor, a imitação automática dos padrões culturais norte-americanos, especialmente na música. O “chiclete com banana” é justamente a metáfora de uma mistura aparentemente absurda: algo estrangeiro — o chiclete — com algo profundamente brasileiro — a banana.
Mas a crítica não é simplesmente contra a influência estrangeira. Jackson propõe uma antropofagia musical popular: podemos incorporar novidades, mas sem abandonar nossa identidade. A graça está justamente em transformar a crítica ao estrangeirismo em brincadeira, ritmo e irreverência.
Há também uma dimensão histórica importante: no final dos anos 1950, o Brasil vivia a modernização de Juscelino Kubitschek, a expansão da indústria cultural, a chegada de novos ritmos e a crescente influência dos Estados Unidos. Pouco depois surgiria a Bossa Nova, que também dialogaria intensamente com o jazz norte-americano, mas de uma maneira criativa e brasileira.


Infelizmente, existe uma tentativa de apagar a música nordestina. Em contrapartida, surgem a cada dia novos e jovens talentos, recriando o forró nordestino.
O próprio título é uma síntese genial: “Chiclete com Banana”. De um lado, o símbolo da cultura estrangeira; do outro, um dos elementos mais populares e brasileiros da nossa mesa e da nossa identidade. Jackson não propõe simplesmente rejeitar a influência estrangeira. O que ele ironiza é a submissão cultural, a ideia de que, para sermos modernos, precisamos abandonar nossos ritmos, nossos sotaques e nossas tradições.

E talvez seja justamente por isso que a música continue tão atual. Ainda hoje há quem tente desclassificar ou diminuir a música nordestina, como se seus ritmos, seus instrumentos, suas letras e seus modos de cantar pertencessem a uma cultura menor. É uma velha forma de preconceito, agora revestida de novos argumentos.
Jackson do Pandeiro nos ensina o contrário: o Nordeste não precisa escolher entre tradição e modernidade. Pode dialogar com o mundo sem abrir mão de sua identidade. O forró, o baião, o coco, o frevo, o xote, o xaxado e tantos outros ritmos não são manifestações menores da cultura brasileira. São parte fundamental daquilo que somos.
“Chiclete com Banana” é, portanto, mais do que uma brincadeira musical. É uma defesa bem-humorada da capacidade brasileira de absorver influências, transformá-las e devolvê-las ao mundo com uma identidade própria. O problema nunca foi misturar o chiclete com a banana. O problema é achar que a banana vale menos porque o chiclete veio de fora.

Por isso, “Chiclete com Banana” continua atual: ela não defende uma cultura brasileira fechada em si mesma. Defende que o Brasil receba influências externas, mas não deixe de ser Brasil ao incorporá-las.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
