A capital que menos ouve sertanejo: Recife e os sons de sua identidade
Maria Bethânia costuma dizer que música é como perfume. E realmente é, trata-se de uma arte sensorial que invade espaços, indivíduos, sensibiliza quem compõe, toca, canta e principalmente quem ouve as músicas e gêneros musicais preferidos. E as cidades, organismos coletivos, também carregam a história e cultura de um povo, também tem seus gostos musicais. É o que mostra a Pesquisa Cultura nas Capitais, realizada pela JLeiva Cultura & Esporte e divulgada em 2025.
O levantamento sobre o gosto musical das capitais brasileiras, trouxe um dado interessante e revelador: Recife é a capital que menos ouve sertanejo. Segundo a pesquisa, apenas 15% dos entrevistados disseram ouvir sertanejo, enquanto a média entre as capitais chegou a 34%. O que explica, a ressalva dos pernambucanos em adotar este gênero que conta com um império musical que concentra artistas renomados, espaço na mídia, nas rádios, plataformas digitais, feiras, eventos públicos e privados? A força da identidade musical e cultural dos recifenses.

Recife e Pernambuco de uma maneira geral, guarda tradições culturais e é berço de movimentos como o frevo, maracatu, baião, manguebeat, brega, bregafunk, ciranda, coco, embolada e é a terra de ninguém menos do que Luiz Gonzaga, Lenine, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Reginaldo Rossi, Lia de Itamaracá, Dona Selma do Coco, Cordel do Fogo Encantado e vamos parar por aqui para não cometer mais injustiça de não poder citar tanta gente boa que faz os pernambucanos sentirem orgulho da sua veia musical.
Diante de tanta potência sonora, de acordo com a pesquisa, o gênero predileto dos recifenses é o brega. Os pernambucanos, devido a sua história de lutas independentistas, são afamados como um povo valente, sim, mas em Recife, antes de tudo, são românticos. Neste quesito a pesquisa não surpreende, estamos diante da terra de Reginaldo Rossi e de um dos gêneros que atravessa o tempo não somente Recife, mas em cada cidade que tem um coração apaixonado.

Ao analisarmos gêneros musicais como fenômenos da indústria cultural, observamos muito mais do que gosto pessoal. De tal modo que quem gosta de brega, baião, frevo , maracatu e MPB, muitas vezes, pode gostar do sertanejo. No entanto, o objeto da pesquisa, que afere a preferência musical das capitais, traz um elemento interessante: Recife consegue não ser inundada pela força do sertanejo, que pelas cifras financeiras movimentadas, pode sim, comprometer o futuro de gêneros musicais característicos de cada cidade, região.
É perigoso hierarquizar a arte, querer dizer ao povo o que é ou não interessante de ser consumido. Contudo, nada pode ser tão perigoso para uma sociedade quanto esquecer os movimentos culturais que fundaram o Brasil como civilização autoral. Neste quesito, os pernambucanos e os nordestinos -mesmo com os desafios postos nos dias atuais, onde onde o mercado fonográfico utiliza a força da grana para prevalecer os próprios interesses comerciais- lutam pela preservação e continuidade do nosso legado artístico e cultural.

Afinal como bem diz a icônica frase da canção de Fred Zero Quatro, do Mundo Livre S/A, e interpretada por Chico Science & Nação Zumbi no álbum Da Lama ao Caos de 1994: “Computadores fazem arte / Artistas fazem dinheiro”
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
