Canudos, a guerra das narrativas e o poder destruidor das fake news
A página Irecê Trends trata da Guerra de Canudos e de Antônio Conselheiro sob a perspectiva da manipulação das informações pela imprensa da época, algo que hoje reconhecemos como fake news. A página considera que a distorção da narrativa por parte da imprensa contra Conselheiro foi um agravante decisivo para o Estado brasileiro orquestrar a morte do líder missionário e a destruição do arraial de Belo Monte, tragédia que vitimou milhares de brasileiros.
O que faz as fake news ganharem uma proporção capaz de provocar guerras, influenciar uma pandemia, mudar o rumo de uma eleição e interferir em assuntos de Estado é justamente transformar uma meia-verdade em verdade absoluta, repetida em série. Antônio Conselheiro, de fato, manifestava ideias monarquistas, mas sua oposição à República tinha uma base essencialmente religiosa e moral, e não correspondia a uma atuação política partidária tradicional.

O verdadeiro motivo da perseguição ao beato estava também na ameaça que ele provocava no imaginário das elites. Em Belo Monte, as hierarquias sociais eram relativizadas, até mesmo porque grande parte de sua população era formada pelos invisíveis do Estado: indígenas, negros, ex-escravizados, trabalhadores precarizados, pequenos produtores rurais assolados pela seca e, enfim, pessoas que viviam na extrema miséria e no abandono social do Nordeste.
Sob a liderança de Conselheiro, essa gente passava a ter nome, teto, comida e trabalho. Passava, de fato, a pertencer a um modelo de sociedade que, para muitos daqueles sertanejos, era muito mais justo e humano.
Canudos chegou a reunir cerca de 25 mil a 30 mil pessoas no final do século XIX, uma população considerável para os padrões brasileiros da época, comparável à de algumas capitais nordestinas, como Natal, Aracaju e João Pessoa. A força sociopolítica que emergia do arraial começou a incomodar as elites econômicas e setores do alto clero da Igreja Católica.

Canudos era, para os despossuídos, os “ninguéns”, aquilo que nem a República nem a Igreja tradicional conseguiam ser. E como deslegitimar um líder com tamanha capacidade de organização, senso de justiça social e liderança? Com mentiras!
Este é o ponto central abordado pelo Irecê Trends no vídeo. Antônio Conselheiro precisava ser apresentado como louco, fanático, inimigo da República e, em última instância, até mesmo como alguém contrário a Deus. A imprensa teve papel importante nessa desconstrução. Um exemplo é o jornal carioca A Notícia, que, em 1897, publicou uma carta falsa atribuída a Conselheiro, contendo supostas ameaças de ataques à cidade e até mesmo de deposição da República. A carta, além disso, apresentava erros básicos de ortografia que, segundo essa narrativa, seriam incompatíveis com a formação atribuída a Conselheiro em áreas como direito, teologia e comércio.

A verdade é que o crime já estava encomendado pelos poderosos da Bahia, mas a imprensa precisava dar o verniz de legalidade ao que se transformaria em um dos episódios mais sangrentos da história da República brasileira.
Euclides da Cunha fez parte daquela imprensa oficial. Mais tarde, ao ver com os próprios olhos o banho de sangue praticado contra seus compatriotas, redimiu-se por meio da escrita e legou ao Brasil uma das maiores obras da literatura nacional: Os Sertões.
Neste link, você pode conferir meu artigo da série “Personalidades Históricas da Bahia que Batizam Cidades Baianas”:
Nele, trato de Euclides da Cunha, da cidade que carrega seu nome e dos personagens da Guerra de Canudos.
Este capítulo da história nos rememora e chama a atenção para o perigo das notícias falsas e para seu poder de destruição da reputação de uma das principais lideranças populares brasileiras de todos os tempos. Mas as fake news também podem vitimar anônimos, governos e instituições.
Por isso, o combate à mentira precisa ser enfrentado com veemência, ainda mais nos dias atuais, quando as big techs acumulam poderes extraordinários e resistem a regulações capazes de garantir um ambiente mais seguro e saudável para os indivíduos e para a sociedade. Disso também depende o futuro da nossa democracia.

Nós, enquanto nordestinos, mais de um século depois, estamos aqui para dizer que Antônio Conselheiro foi vítima de um Estado brasileiro que dizimou, matou, decapitou e destruiu um arraial sem misericórdia.
Não fez cerimônia para gastar em balas e fuzis aquilo que faltava no prato dos sertanejos pobres. Belo Monte, que para milhares de pessoas representava um lugar de paz, dignidade e pertencimento, sofreu com o fogo impiedoso do Exército da própria pátria.
E até com a água, que sempre faltou àquela gente, tentaram apagar as marcas daquele lugar, inundar aquela vergonha e fazer esquecer aquele genocídio.
Mas não conseguiram.
Seguimos aqui para contar, com olhos de ver e consciência de enxergar, uma história que jamais poderá ser apagada.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
