Era só o que faltava: agora querem mudar a História na canetada!
Quando a gente pensa que já viu de tudo, aparece mais uma aberração. Desta vez, uma “comissão” da Câmara Federal sugeriu retirar a palavra “golpe” da referência ao golpe militar de 1964. Um negacionismo baseado em viés ideológico que não condiz com a proposta do livro ‘Independências do Brasil’, que reúne 50 pesquisadores renomados da História do Brasil.
Foi então que me deparei com esta entrevista do historiador Sérgio Guerra, professor e pesquisador da UFRB e fiquei ainda mais perplexo. A propósito, será que Sérgio Guerra é filho do também professor Sérgio Guerra da Uneb?
Enfim, a verdade é que ele deu uma verdadeira aula magna sobre a Independência do Brasil e suas lutas populares, que não se restringem ao 7 de Setembro. Portanto, os autores do livro estão mais do que certos ao contestar o negacionismo de uma minoria de parlamentares que querem reescrever e falsear a História.
Leia a entrevista de Sérgio Guerra: https://atarde.com.br/muito/o-2-de-julho-nega-historia-mitologica-do-7-de-setembro-diz-historiador-1400954
História não se escreve por decreto, muito menos por determinação política. Cabe aos pesquisadores estudar os fatos, consultar documentos, confrontar fontes e chegar às suas próprias conclusões. Ninguém pode querer dizer aos historiadores o que eles devem ou não escrever sobre um período tão importante da nossa História.
Aliás, durante muito tempo, setores reacionários e governos ditatoriais tentaram apagar a História do 2 de Julho e das revoltas populares contra o colonialismo e a escravidão. Mas a História do Brasil não cabe em um quadro na parede, muito menos em um quadro encomendado de Dom Pedro às margens do rio Ipiranga.
Como o professor Sérgio Guerra mesmo destacou: “A pesquisa historiográfica recente e acho que muitos dos trabalhos presentes no livro representam isso, é uma historiografia que nega o mito do Sete de Setembro. A nossa Independência não foi pacífica, não foi um acordo entre cavalheiros, não foi um ato de vontade de um príncipe.”
O mito do “povo cordial” cai por terra quando analisamos os fatos históricos e encontramos grandes batalhas de libertação que forjaram a luta de homens e mulheres — negros, brancos, indígenas e mestiços — em diversas partes do Brasil, especialmente no Nordeste, onde tantas dessas lutas foram decisivas.
Por isso, toda a minha solidariedade aos pesquisadores que vêm estudando nossa Independência e tantos outros momentos fundamentais da formação do Brasil, com liberdade, rigor e responsabilidade.
Vivemos, ou não, tempos difíceis?
Como diria qualquer bom nordestino diante de uma dessas: “Oxente! Agora pronto! Só faltava essa.”
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
