O racismo no Brasil é implacável: o julgamento começa pela cor da pele
O racismo no Brasil é implacável. Antes do sobrenome, da profissão, dos títulos e até mesmo da roupa que o cidadão veste, vem a cor da pele. O delegado Ricardo Amorim, titular da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, deu um depoimento que confirma o racismo profundamente enraizado na sociedade brasileira.
Um homem negro de terno, muitas vezes, é visto como um evangélico, um motorista de bacana ou um garçom de um restaurante chique. Não que essas profissões e escolhas não tenham seus valores. O problema está no reducionismo com que parte da sociedade enxerga as pessoas negras, revelando a força do racismo estrutural.
Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, a esmagadora maioria da população negra permanece na base da estrutura social. Poucos, como o delegado Ricardo Amorim, conseguem transpor esse muro invisível, sustentado por alicerces construídos durante séculos de escravidão no Brasil.
Florestan Fernandes já demonstrava que a Abolição não significou a efetiva integração do negro à sociedade brasileira. Como escreveu em A Integração do Negro na Sociedade de Classes:
“A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre.”

Ou seja, a escravidão acabou juridicamente, mas não foram criadas condições sociais e econômicas para que a população negra tivesse uma verdadeira inserção na sociedade de classes. É inegável que houve avanços, sobretudo a partir do século XXI, mas eles ainda são insuficientes para responder a uma necessidade histórica que exige enfrentar três séculos e meio de escravidão e suas profundas consequências.
Por isso, o racismo atinge tanto o cidadão comum quanto aqueles que ocupam posições de autoridade. Cito mais um exemplo marcante: Djavan, uma das maiores autoridades da música brasileira, foi preso em 1979. Em entrevista à jornalista Maria Fortuna, ele revelou a situação humilhante e violenta pela qual passou ao tentar comprar um piano:
“Estava ali para comprar um piano elétrico, um Fender Rhodes. E os caras me levaram porque acharam que o negro não podia estar numa loja como aquela para comprar um piano. No mínimo, era para assaltar… Pegaram a mim e o Tadeu (divulgador), nos levaram puxando numa condição humilhante. Pediram a carteira de trabalho, dei a de músico, minha categoria.

Acharam ridículo, começaram a rir e disseram: ‘Vai cantar agora na prisão’. Chegaram à Praça da Sé, pegaram nossas bolsas de tricô e despejaram no chão. Começou a juntar gente, alguém me reconheceu, ligaram para a Odeon, minha gravadora, que mandou um advogado. Mas fiquei cinco horas lá dentro, me levaram para a cadeia junto com os marginais ali. Cinco horas! Até chegar um advogado para me tirar.”
Casos como esses não são exceções no Brasil, mesmo com o racismo sendo considerado crime. O racismo é tão profundamente enraizado que, muitas vezes, parece existir uma espécie de lei perpétua, na qual a pessoa negra está condenada a provar continuamente que merece ocupar determinados espaços. Como se o lugar reservado aos negros na sociedade fosse, historicamente, o da servidão — e não o de protagonista de sua própria história.

No país da falsa cordialidade, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista!
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
