A força de ser quem somos: a lição universal de Ariano Suassuna
Imagine se Ariano Suassuna tivesse ouvido os “conselhos” do amigo dramaturgo e engavetado sua obra-prima, O Auto da Compadecida. O Brasil e o mundo perderiam um dos maiores clássicos da literatura, do teatro e do cinema.
Se Ariano não tivesse convicção da profundidade de sua obra, que se tornaria amada por povos de diferentes lugares do mundo, João Grilo e Chicó jamais teriam saltado das páginas dos livros para ganhar vida em uma adaptação cinematográfica de sucesso arrebatador. A lição do mestre nordestino é revolucionária, porque a maioria das produções artísticas que atravessam o tempo não se resume à originalidade do tema, mas também à capacidade do autor de contar uma história sem abrir mão de sua essência, de sua visão de mundo e de suas próprias raízes para agradar a quem quer que seja.
Não é por acaso que Ariano é um dos pensadores regionalistas de maior impacto no nosso país. Partindo do cotidiano do sertão nordestino, ele consegue dialogar de forma universal com leitores e espectadores de diferentes países e culturas.
Na obra de Ariano, não faltam elementos que servem de alicerce para a construção de ideias capazes de dialogar com os mais diversos públicos. O Auto da Compadecida vai muito além da seca, do cangaço e da estética regionalista. Com humor e espírito crítico, Ariano escancara tipos humanos e práticas equivocadas que permeiam a sociedade: o vendilhão da fé, a opressão dos poderosos sobre a população e a ausência do Estado, que contribui para perpetuar a fome e a sede naquele contexto histórico.

Mesmo em um cenário árido, a obra fala de amor, poesia, fé e do desejo incessante de superação, mesmo diante das condições mais adversas.
A maior lição deixada pelo nosso mestre, Ariano Suassuna, dialoga com uma célebre reflexão do escritor russo Liev Tolstói:
“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”
E não poderia encerrar um texto sobre Ariano sem recorrer a uma de suas frases mais célebres, que traduzem tão bem sua defesa da cultura nordestina e da identidade brasileira:
“Não troco o meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém!”
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
