A pedra preciosa que moldou a Chapada Diamantina
Voz Baiana, mais uma vez, trazendo à luz temas da nossa história que não podem permanecer adormecidos nas páginas dos livros.
Desta vez, viajamos até a Chapada Diamantina, especificamente até Lençóis, para conhecer um capítulo extraordinário da história da Bahia: o ciclo do diamante.
Entre 1845 e 1871, Lençóis viveu o auge da exploração diamantífera e chegou a ser a maior produtora mundial de diamantes. A riqueza que saía do solo baiano alimentou fortunas locais, movimentou o comércio internacional e ajudou a financiar obras e empreendimentos muito além das fronteiras do Brasil.
Desde o Brasil Colônia, conhecemos a história dos ciclos econômicos baseados na exploração dos recursos naturais: pau-brasil, açúcar, ouro e, posteriormente, diamantes. Em diferentes momentos, essas riquezas contribuíram para concentrar renda e poder, enquanto parte expressiva da população permanecia submetida à escravidão, à pobreza e à ausência de direitos básicos.
O ciclo do diamante em Lençóis reproduziu, em escala regional, muitas dessas contradições.
A descoberta das jazidas, em meados do século XIX, provocou uma verdadeira corrida para a região. Garimpeiros, comerciantes, senhores de escravos e aventureiros chegaram em grande número. Lençóis transformou-se rapidamente em um importante entreposto comercial, exportando minerais para a Europa e importando produtos e artigos de luxo. A dimensão desse comércio foi tamanha que a França instalou na cidade um vice-consulado para facilitar suas relações comerciais.

A prosperidade se refletia na vida urbana. Surgiram casarões, estabelecimentos comerciais, saraus e espaços de sociabilidade que revelavam o poder econômico das elites locais. Diamantes eram utilizados como joias e até aplicados nas roupas durante os eventos sociais. Lençóis chegou a ser considerada a terceira cidade mais importante da Bahia naquele período. Era uma espécie de capital econômica das Lavras Diamantinas, conectada aos mercados europeus e inserida em uma rede internacional de comércio.
E aqui está uma das grandes contradições da nossa história: riquezas retiradas do território brasileiro ajudaram a movimentar capitais e projetos de desenvolvimento em outras partes do mundo, enquanto o próprio Brasil permanecia marcado pela escravidão e pela precariedade da infraestrutura e dos serviços públicos.

Há relatos que associam os diamantes das Lavras Diamantinas ao financiamento de grandes obras internacionais, como o metrô de Paris e o Canal do Panamá. Essa memória da riqueza diamantina mostra a dimensão internacional que a exploração mineral de Lençóis alcançou.
Mas nenhuma riqueza natural é eterna.
A partir de 1871, Lençóis entrou em decadência. A descoberta e expansão das jazidas de diamantes na África do Sul aumentaram a concorrência internacional, enquanto a exploração local enfrentava o esgotamento de áreas mais acessíveis. O resultado foi uma profunda crise econômica na região.
A história dos diamantes deixou uma lição que continua atual: não basta possuir riquezas no subsolo. É preciso transformar essa riqueza em desenvolvimento, conhecimento, tecnologia, emprego, infraestrutura e qualidade de vida para a população.

Hoje, o Brasil volta seus olhos para outro capítulo da mineração: o das terras raras, minerais estratégicos para tecnologias como veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e de defesa, e sistemas de geração de energia. O país possui uma das maiores reservas mundiais — atualmente estimada pela ANM em cerca de 13,9% das reservas globais — e tem diante de si o desafio de avançar não apenas na extração, mas também no processamento e na agregação de valor desta riqueza nacional, alvo de cobiça de interesse estrangeiros.
Que a história de Lençóis sirva, portanto, como memória e como alerta.
Que as riquezas minerais brasileiras não sejam apenas retiradas do nosso solo para alimentar cadeias produtivas e fortunas em outras partes do mundo. Que sejam capazes transformar o Brasil e, sobretudo, oferecer um país melhor para os brasileiros. Ou seja, não basta ter a riqueza. É preciso fazer com que ela permaneça como patrimônio de desenvolvimento da nação.
Felizmente, Lençóis já não recebe visitantes movidos pela febre dos diamantes.

Hoje, a Chapada Diamantina revela outras joias — talvez ainda mais preciosas: suas montanhas, rios, cachoeiras, grutas, casarões, ruas, sua arquitetura, sua cultura e a memória de um povo que atravessou os ciclos da riqueza e da decadência.
O que antes era explorado pelo brilho dos diamantes hoje pode ser admirado pelo brilho da própria natureza.
E talvez essa seja uma das maiores riquezas que Lençóis oferece ao Brasil: a oportunidade de olhar para o passado, compreender suas contradições e aprender a construir uma outra relação com a riqueza, com o território e com o meio ambiente.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
