BAHIA E PERNAMBUCO: PONTES QUE FORTALECEM O CONTROLE PÚBLICO
Bahia e Pernambuco são os dois estados que fazem parte, de maneira profunda, daquilo que sou como ser humano e como homem público. Pernambuco, onde nasci, e Bahia, onde construí grande parte da minha trajetória, são territórios de memória, cultura, luta e pertencimento. Por isso, a visita que realizamos a Pernambuco teve um significado muito maior do que uma agenda institucional ou simplesmente uma viagem turística. Foi, ao mesmo tempo, uma oportunidade de conhecer o Tribunal de Contas de Pernambuco e uma viagem pela história, pela cultura e pelas minhas próprias raízes.
Nossa delegação, formada por integrantes do meu gabinete, por familiares e por amigos, percorreu alguns dos lugares mais importantes da história pernambucana. Visitamos Recife, Olinda e Igarassu, cidades que guardam marcas fundamentais da formação de Pernambuco; passamos pelos Montes dos Guararapes, cenário de um dos episódios decisivos da história colonial brasileira; por Gravatá e por Chã Grande, onde fomos ao Engenho Sanhaçu, que fabrica a cachaça do mesmo nome, cidades do agreste pernambucano; e chegamos a Amaraji, minha terra, na Zona da Mata Sul, lugar das cachoeiras, dos engenhos e das minhas primeiras memórias.


Foi uma viagem pela história de Pernambuco, mas também uma viagem pela minha própria história.
Recife: história, cultura e encontro de águas
Começamos pelo Recife, cidade construída entre rios, pontes, ilhas e mar. Visitamos o Marco Zero, coração simbólico do Recife, e percorremos lugares que ajudam a compreender a riqueza cultural e histórica da cidade. Estivemos no Paço do Frevo, dedicado a uma das mais expressivas manifestações da cultura pernambucana, e passamos pela Rua do Bom Jesus, onde está a Sinagoga Kahal Zur Israel, reconhecida como a mais antiga sinagoga das Américas. Fundada no período da presença holandesa, ela testemunha a diversidade religiosa e cultural que marcou o Recife do século XVII. Também visitamos igrejas e passeamos pelas ruas do Recife Antigo.
Na sexta-feira pela manhã, tivemos um importante momento institucional. Fomos recebidos pelo presidente do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, Carlos Neves, em seu gabinete.


A conversa foi marcada pela cordialidade e pela disposição para fortalecer a cooperação entre as duas Cortes. Da janela do gabinete, tínhamos uma vista extraordinária do Recife, com os rios Capibaribe e Beberibe se encontrando.
É uma paisagem que parece sintetizar a própria cidade: dois rios que se encontram, se misturam e seguem juntos em direção ao mar. Reza a lenda, já consagrada como uma tradição recifense, além de ser uma bela imagem poética, que ali, na confluência dos rios Capibaribe e Beberibe, “nasce o Oceano Atlântico”. Uma maneira bonita e bem-humorada de expressar a relação íntima entre o Recife, suas águas e o oceano. Quem nos contou essa história foi o presidente Carlos Neves. Todos deram uma bela gargalhada.
Uma mesa que também conta a história
Ao meio-dia, almoçamos no Restaurante Leite, fundado em 1882 e reconhecido como o restaurante mais antigo em funcionamento contínuo do Brasil. Todos aprovaram o cardápio.
São 144 anos de história preservados em uma casa que atravessou o Império, a República, diferentes ciclos políticos e profundas transformações da sociedade brasileira.
Almoçar no Leite, saborear sua famosa cartola, foi, portanto, mais do que uma experiência gastronômica. Foi sentar à mesa da própria história do Recife e de Pernambuco.

Demos uma passada rápida pela Casa da Cultura, antiga Casa de Detenção, que, após o encerramento de suas funções penitenciárias, foi transformada em um centro de cultura.
Instituto Ricardo Brennand: memória transformada em patrimônio
À tarde, visitamos o Instituto Ricardo Brennand, um dos mais importantes espaços culturais do Recife.
Criado pelo empresário e colecionador pernambucano Ricardo Brennand, o instituto reúne um extraordinário acervo histórico e artístico, instalado em um complexo que inclui o Castelo São João, a Sala das Armas, a Pinacoteca e a Biblioteca. As duas últimas não pudemos visitar porque o espaço estava sendo preparado para receber uma exposição.
É um lugar onde a preservação da memória ganha uma dimensão especial. Obras de arte, documentos, armas, armaduras e objetos históricos ajudam a reconstruir diferentes capítulos da história do Brasil, especialmente do período colonial e da presença holandesa em Pernambuco.
A visita também nos mostrou como uma coleção particular pode ser transformada em patrimônio cultural acessível à sociedade.

Olinda: entre igrejas, ladeiras e memória
À noite, fomos sentir os ares de Olinda.
Caminhar por suas ladeiras, contemplar suas igrejas e observar a arquitetura colonial é percorrer um dos capítulos mais importantes da formação histórica de Pernambuco.
Olinda guarda em suas ruas e monumentos uma parte essencial da memória brasileira. Ali, a história não está apenas nos museus: está nas pedras das ladeiras, nas fachadas, nos conventos, nas igrejas e na paisagem que se abre para o mar.
Infelizmente, o deslocamento até Olinda foi prejudicado por um enorme congestionamento. Mas nem o trânsito conseguiu diminuir a beleza da experiência. Afinal, há lugares em que até as dificuldades do caminho acabam fazendo parte da lembrança da viagem.
Monte dos Guararapes: quando diferentes povos se uniram
No sábado pela manhã, visitamos o Monte dos Guararapes, lugar onde ocorreram as duas batalhas decisivas da Insurreição Pernambucana contra os holandeses: a primeira, em 19 de abril de 1648, e a segunda, em 19 de fevereiro de 1649. As vitórias foram fundamentais para a derrota militar dos holandeses, cuja presença em Pernambuco só terminaria definitivamente em 1654.

Mas o Monte dos Guararapes representa mais do que uma vitória militar.
Naquele momento, o Brasil ainda não existia como Estado independente. É justamente isso que torna aquele episódio tão importante para a compreensão da nossa formação histórica.
Ali lutaram lado a lado homens de diferentes origens: portugueses e descendentes de portugueses, indígenas e negros. Henrique Dias, negro; Felipe Camarão, indígena; João Fernandes Vieira, português radicado no Brasil; André Vidal de Negreiros e outros líderes da insurreição tornaram-se símbolos de uma luta comum.
Não devemos transportar para o século XVII uma ideia de nacionalidade brasileira que só se consolidaria posteriormente. Mas é possível reconhecer no Monte dos Guararapes um momento fundador de uma consciência de pertencimento à terra e de uma identidade que, séculos depois, ajudaria a constituir a ideia de Brasil.
Por isso, Guararapes é chamado de “berço da Pátria”.
E há um detalhe que esqueci de comentar com o grupo: antes mesmo de chegarmos ao monumento que homenageia os heróis das batalhas, no lado direito da subida, encontramos hasteadas as bandeiras de todos os estados brasileiros. É uma imagem de enorme força simbólica.

Ali, naquele lugar onde homens de diferentes origens se uniram para defender um território que ainda não era o Brasil independente, estão hoje reunidas as bandeiras de todos os estados da Federação.
A história, às vezes, encontra maneiras extraordinárias de conversar com o presente.
Bernardo, nosso fiscal da lei, perguntou por que os pernambucanos lutaram para expulsar os holandeses. Expliquei que, após a saída de Maurício de Nassau, a cobrança das dívidas, os impostos elevados, os conflitos religiosos e o desejo de retornar ao domínio português alimentaram a revolta que ficou conhecida como Insurreição Pernambucana.

Igarassu: outros capítulos das origens de Pernambuco
Nossa passagem por Igarassu completou esse mergulho nas origens de Pernambuco.
A visita ao museu municipal ajudou a compreender essa história. Pena que não estou me lembrando do nome do nosso guia no museu.
A cidade conserva alguns dos mais antigos testemunhos da presença portuguesa e da formação colonial no território pernambucano, como a Igreja de São Cosme e Damião, hoje a igreja mais antiga em funcionamento do Brasil. Ela data de 1535.
Visitar Igarassu, depois de Recife, Olinda e do Monte dos Guararapes, foi como percorrer diferentes capítulos de uma mesma história: a ocupação do território, os conflitos, a presença indígena, a colonização portuguesa e a construção de uma sociedade que, ao longo dos séculos, ajudaria a formar o Brasil.

Recife, Olinda e Igarassu nos permitem compreender que a história de Pernambuco não está apenas nos livros.
Ela está nas igrejas, nas ruas, nos rios, nas casas, nas praças, nas pedras das ladeiras e, sobretudo, na memória de seu povo.
Amaraji: onde tudo começou para mim
E então chegamos a Amaraji.
Voltar à minha terra tem um significado que nenhuma outra cidade poderia ter.
Amaraji é parte da minha identidade, das minhas primeiras lembranças e da trajetória que me trouxe até aqui.
É a terra das cachoeiras, dos engenhos e da Zona da Mata. É a paisagem da cana-de-açúcar, dos caminhos rurais, das casas simples e das histórias que atravessaram gerações.
Ali visitamos o Engenho Amorinha, onde está a Pousada Serra Nevada, que nos acolheu; o Engenho Amora Grande, onde conhecemos a barragem que abastece a cidade de Gravatá — a cidade queridinha de Olivia; as cachoeiras do Engenho Rio Morto; e a casa-grande do Engenho Sete Ranchos.

Mas nenhum lugar me tocou tanto quanto o Engenho Estivas.
Foi ali que nasci.
Voltar a Estivas, agora acompanhado de minha equipe, de minha esposa, de amigos e de pessoas que fazem parte da minha vida, foi reencontrar uma parte de mim que o tempo não apagou.
A paisagem mudou. Eu mudei. O mundo mudou.
Mas certas lembranças permanecem.
O Brasil profundo
Na manhã de domingo, fizemos o circuito das cachoeiras e percorremos a paisagem dos engenhos Rinoceronte, Rio Morto, Riacho de Pedras, Não Pensei e Estiva.
Foi também uma oportunidade de enxergar aquilo para o que Raimundo tão bem chamou minha atenção: o Brasil profundo.

As casas de taipa, os caminhos rurais, a simplicidade da vida e as marcas ainda visíveis da pobreza nos lembram que o desenvolvimento brasileiro foi profundamente desigual.
Muito já foi feito para reduzir as desigualdades sociais e econômicas. Milhões de brasileiros tiveram suas condições de vida transformadas nas últimas décadas.
Mas ainda estamos longe de vencê-las.
É impossível passar por essas comunidades sem pensar que o Brasil moderno convive, lado a lado, com um Brasil que ainda espera direitos básicos, oportunidades e melhores condições de vida.
Talvez seja essa uma das maiores lições de uma viagem como essa: conhecer a beleza de um lugar não pode nos impedir de enxergar seus problemas.
De volta às minhas origens

Ainda fizemos uma rápida visita à Usina União e Indústria.
Para mim, aquele lugar não é apenas uma indústria de açúcar e álcool.
Foi o local do meu primeiro emprego.
Mas foi também lugar de trabalho do meu pai e do meu avô.
Há, portanto, uma memória familiar inscrita naquele espaço. Três gerações ligadas ao trabalho da cana-de-açúcar. Da mesma terra de onde saíram tantas histórias de trabalhadores rurais, eu também saí.
E talvez seja por isso que retornar à Usina União e Indústria tenha sido tão significativo: foi como reencontrar uma parte da história da minha família e, ao mesmo tempo, compreender melhor de onde vim.
Visitamos também o Ginásio Agrícola de Escada, onde estudei interno durante quatro anos, de 1970 a 1973.
Voltar à escola onde vivi parte decisiva da adolescência foi outra viagem dentro da viagem.
Ali aprendi não apenas conteúdos técnicos. Aprendi disciplina, convivência, responsabilidade e, sobretudo, comecei a construir o caminho que me levaria à Agronomia e à vida pública.


Entre o engenho, a usina, a escola e a universidade, foi se formando o homem que muitos anos depois chegaria ao Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
Uma noite para guardar na memória
Mas a noite de sábado em Amaraji, na Pousada Serra Nevada, no Engenho Amorinha, merece um capítulo à parte.
Começou sem que sequer tivéssemos almoçado. Chegamos à pousada com uma fome considerável. Havia pessoas preparando o espaço para uma festa de aniversário, mas, naquele primeiro momento, não havia ninguém para nos receber.
Cecília, naturalmente, foi a primeira a registrar a situação:
— Estamos com fome!

Sugeri, então, que alguém fosse até Amaraji comprar alguma coisa para comermos.
Foi apenas um desencontro, rapidamente resolvido.
Logo chegou um carro trazendo o equipamento de som.
E, para nossa felicidade, chegou também um bode já preparado para o consumo.
Com a fome que estávamos, não sobrou praticamente nada.
Depois veio a música.
Muito forró, muita sofrência e os baianos transformados em coro do cantor.
E ninguém se intimidou com o frio de 18 graus.
Foi uma daquelas noites simples, espontâneas, que acabam se tornando inesquecíveis justamente porque não foram planejadas para entrar na memória.

Uma experiência institucional e humana
Nas conversas que fui mantendo com a equipe, pude constatar que foi uma experiência extraordinária para todos do meu gabinete: Ariana, Dauro, Vanessa, Jéssica, Daniel, Raimundo, Patrícia, Cricia e os agregados ao gabinete, Bernardo e Marcos.
Também nos acompanharam minha esposa, Cecília; a vereadora de Ilhéus, Enilda; Ednei e Rosany; Flávio e Luiza; Victor e Olivia.
Em minha vida pública, sempre valorizei o trabalho de equipe e a participação em congressos, visitas institucionais, viagens e intercâmbios, por serem momentos de formação, mas também de solidificação de laços.
Acredito que conhecimento não se constrói apenas nos gabinetes.
Ele também nasce quando saímos, observamos, conversamos, conhecemos outras experiências e compreendemos realidades diferentes da nossa. É isso que procuro levar para o Tribunal de Contas do Estado da Bahia: a convicção de que o controle público precisa estar permanentemente aberto ao aprendizado, à inovação e à troca de experiências.

As visitas entre Tribunais de Contas fortalecem o Sistema de Controle Externo brasileiro. Aproximam instituições, estimulam boas práticas e permitem que cada Corte aperfeiçoe sua própria atuação.
Foi esse o sentido da nossa visita ao TCE-PE.
Mas, para mim, houve algo mais.
Voltei a Pernambuco para conhecer melhor Pernambuco.
E, no caminho, reencontrei a minha própria história.
Passamos por cidades que ajudaram a formar o Brasil, por lugares onde se travaram batalhas decisivas, por igrejas e museus que guardam séculos de memória, por cachoeiras e engenhos, pela escola onde estudei, pela usina onde trabalhei e pelo engenho onde nasci.
Talvez seja essa a maior riqueza de uma viagem: descobrir que conhecer um território também é uma maneira de conhecer a si mesmo.

Agradeço ao presidente Carlos Neves e a todos os integrantes do TCE-PE pela acolhida generosa e pela oportunidade de fortalecer essa ponte entre Pernambuco e Bahia.
Espero que possamos receber, em breve, o presidente Carlos Neves e os colegas conselheiros do TCE-PE na Bahia.
Porque Bahia e Pernambuco não são apenas estados vizinhos. São territórios ligados pela história, pela cultura, pelas lutas, pelas águas e pelo povo.
E, no controle público, podemos transformar essa proximidade histórica em cooperação institucional, aprendizado e resultados para a sociedade.

Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
