Coronel João Sá! Entre o coronel e a cidadania: o que ainda ecoa no sertão
No sertão da Bahia, há cidades que são mais do que território. São memória viva de um Brasil que ainda não terminou de passar.
Coronel João Sá é uma delas.
Localizada no Território de Identidade Nordeste II, próxima a Jeremoabo, Pedro Alexandre e Santa Brígida, a cidade carrega no próprio nome a marca de sua formação: o poder concentrado nas mãos de poucos.
O nome remete a João Gonçalves de Sá, grande proprietário rural e liderança política que simbolizou, como tantos outros, o coronelismo — sistema que estruturou a Primeira República do Brasil e deixou marcas profundas no país.
Ele também foi Deputado estadual, 1915-1916 e 1927-1928. Eleito deputado estadual Constituinte pelo Partido Social Democrático – PSD, 1947-1951.

Seu poder não se limitava à terra. Estendia-se à vida das pessoas.
No sertão daquele tempo, quem trabalhava dependia. Quem dependia, obedecia. E quem obedecia votava conforme a orientação do coronel. O chamado voto de cabresto não era exceção — era regra.
A política, nesse contexto, não era espaço de escolha. Era instrumento de controle.
Essa estrutura se sustentava também por relações ambíguas. A ligação de coronéis com figuras como Lampião revela um dado incômodo: o poder local não se organizava apenas pela lei, mas também por pactos de conveniência. Entre a ordem e a desordem, prevalecia a lógica da sobrevivência e da manutenção do mando.
Antes de receber o nome que hoje o identifica, o território de João Sá já pulsava com outras presenças e outros tempos. Era chão de memória indígena, habitado pelos cariris, que conheciam cada vereda, cada curso d’água, cada silêncio da caatinga.
No século XVIII, porém, novos passos começaram a riscar a paisagem. Vieram com o gado, com o pó levantado pelas boiadas e com a rotina áspera dos vaqueiros — homens ligados à poderosa Casa da Torre, da família d’Ávila, cuja influência se estendia como sombra longa sobre vastas terras do sertão. Era a pecuária que abria caminhos, transformando o território em passagem, em travessia, em destino provisório.

Foi junto a uma fonte de água, no curso do Rio do Peixe, que algumas famílias decidiram interromper o movimento incessante e fincar morada. Ali, onde a sede encontrava alívio e o descanso se tornava possível, nasceu um pequeno povoado. Chamaram-no Bebedouro — nome simples e preciso, como são as coisas essenciais.
Mais do que um ponto no mapa, o Bebedouro tornou-se um lugar de encontro: parada obrigatória para as boiadas, abrigo para os viajantes, promessa de permanência em meio à aridez do sertão. E assim, entre águas, passos e histórias, começava a se desenhar o que viria a ser João Sá.

Décadas depois, o Brasil mudou — e o sertão também.
Hoje, Coronel João Sá tem cerca de 17 mil habitantes e uma economia baseada na pecuária, no comércio local e, sobretudo, na agricultura familiar, que sustenta a vida de grande parte da população. Políticas públicas ampliaram o acesso à energia, à renda e a serviços básicos, abrindo caminhos que antes não existiam.
Ao falar de Coronel João Sá, automaticamente precisamos rememorar a grandiosa Barragem do Gasparino: uma das obras hídricas mais importantes do semiárido nordestino naquela região. Sua história está diretamente ligada à luta histórica por água no sertão e ao desenvolvimento regional.

A água, no sertão, nunca foi apenas água. Sempre foi a luta de um povo: promessa, espera e, muitas vezes, silêncio. Em Coronel João Sá, onde o tempo parecia aprender a caminhar no ritmo das estiagens, a história da Barragem do Gasparino nasce exatamente desse encontro entre a necessidade e a esperança em dias melhores.
Durante décadas, o céu foi o grande senhor da vida. Era dele que vinham os anos de fartura com chuva e também os de penúria. A terra rachada ensinava cedo que viver ali era resistir. Foi nesse chão de incertezas que surgiu a ideia de represar não apenas a água, mas mudar o próprio destino de um município e região.
Quando as máquinas chegaram, por volta de 2008, não trouxeram só ferro e concreto. Anunciaram um novo tempo, o som da mudança. O que antes era leito seco começou a ganhar forma, como se o sertão, acostumado à escassez, começasse a ensaiar outro futuro. A construção da barragem foi lenta, marcada pelo sol duro e pela poeira, mas também pela expectativa silenciosa de quem sabia que algo grande estava por vir.
Em alguns anos, o que era projeto tornou-se espelho d’água. A barragem se encheu — não de uma vez, como milagre, mas aos poucos, como quem aprende a confiar novamente na chuva. E então, o sertão viu algo raro: a permanência. Em 2012, a população testemunhou de perto a imponente barragem, com capacidade de acumulação de 41.980.000 metros cúbicos e extensão de 13 km. A benfeitoria consegue garantir o abastecimento de água para os municípios de Coronel João Sá, Sítio do Quinto e Pedro Alexandre.

O feito representou a luta de um povo, entidades, governos e parlamentares progressistas que decidiram imprimir uma nova relação na convivência com a seca no semiárido baiano.
A Barragem do Gasparino não mudou apenas a paisagem. Mudou o ritmo da vida. Onde antes havia incerteza e escassez, passou a existir planejamento. A água represada permitiu plantar, criar, pescar. Deu ao povo algo que vai além do abastecimento: deu previsibilidade, esse bem invisível e tão precioso em terras de seca.
O povoado de Gasparino, que antes era apenas mais um ponto no mapa do sertão, ganhou novos contornos. À beira da barragem, ergueu-se uma orla com área de festas e eventos, quiosques, calçadão, campo de futebol, parque infantil, banheiros, chuveiros, entre outros. Surgiram encontros, risos, redes lançadas ao entardecer. A água, que antes faltava, agora também reunia.

Mas o sertão nunca deixa esquecer sua natureza. Em tempos de chuva forte, a barragem transborda — e o que era contenção vira abundância. Em outros momentos, como na crise de 2019, quando o rompimento de uma barragem vizinha — a do Quati, em Pedro Alexandre — ameaçou toda a região, foi preciso abrir suas comportas, liberar a força represada, proteger vidas. Ali, mais uma vez, ficou claro: a barragem não é apenas obra, é responsabilidade, salva vidas.
Assim, entre cheias e vazantes, a história da Barragem do Gasparino segue sendo escrita. Não como uma narrativa de concreto, mas de gente. De um povo que aprendeu, ao longo do tempo, que sobreviver no sertão é, acima de tudo, reinventar a esperança.
E talvez seja isso que a barragem represente: não o fim da seca, mas o início de uma nova relação com ela. Onde antes havia apenas espera, agora existe escolha. Onde havia apenas ausência, agora há prosperidade trazida pela água. Água em abundância, guardada, vigiada e, sobretudo, compartilhada. É a sonhada segurança hídrica: orgulho de Coronel João Sá e região.
Mas as marcas do passado permanecem.
A concentração de terra, as desigualdades e certas práticas políticas mostram que o coronelismo não desapareceu por completo — apenas se transformou.

É por isso que a história precisa ser enfrentada com honestidade.
Não se trata de apagar nomes ou negar o passado. Trata-se de compreendê-lo sem romantização. Muitos dos chamados “coronéis” foram grandes apenas na extensão de suas propriedades — não na legitimidade de seu poder.
Prosperaram em um ambiente de ausência do Estado e escassez de direitos, onde a cidadania era substituída pelo favor.
Romantizar isso é perpetuar o problema.

Por outro lado, há sinais claros de mudança. A agricultura familiar, os assentamentos rurais e a maior presença de políticas públicas indicam que o sertão também é espaço de construção democrática.
Lenta, desigual, mas real.
Coronel João Sá, como tantas cidades brasileiras, vive entre essas duas forças: a herança do mando e a construção da cidadania.
A pergunta que fica é simples — e profunda:
vamos tratar essa história como homenagem ou como aprendizado?
Porque o futuro do sertão — e do Brasil — depende da resposta.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
