Elevador Lacerda: um monumento, uma história e a memória que escolhemos preservar
Um símbolo da Bahia
Poucos monumentos representam tanto a Bahia quanto o Elevador Lacerda.
Suspenso sobre a Baía de Todos os Santos, ligando a Cidade Alta à Cidade Baixa, ele é um dos cartões-postais mais conhecidos do Brasil. Milhões de pessoas passam por seus elevadores todos os anos sem imaginar que sua história vai muito além da engenharia e da beleza da paisagem.
O Elevador Lacerda foi o primeiro elevador urbano do mundo destinado ao transporte público regular de passageiros. Inaugurado em 1873, transformou a mobilidade de Salvador e tornou-se um marco da modernidade brasileira ainda no século XIX.
Mas a história do monumento não termina na obra. Ela começa no nome.
Quem foi Antônio de Lacerda?
A ideia do elevador partiu do empresário Antônio de Lacerda, enquanto a engenharia ficou a cargo de seu irmão, Augusto Frederico de Lacerda. O empreendimento foi financiado por Antônio Francisco de Lacerda, patriarca da família e um dos homens mais ricos da Bahia daquele período.
A família Lacerda estava entre os grupos econômicos que prosperaram durante a sociedade escravista brasileira. Estudos históricos apontam que parte dessa riqueza esteve associada ao tráfico de africanos escravizados, atividade que sustentou a formação de fortunas, bancos, empresas comerciais e redes de poder que moldaram a elite brasileira do século XIX.
A grandiosidade da obra é inegável. Mas a origem da riqueza que a tornou possível também faz parte da história.

O monumento tornou-se maior do que seus criadores
Com o passar do tempo, o Elevador Lacerda deixou de pertencer à família que o idealizou.
A obra foi incorporada à alma de Salvador. Tornou-se patrimônio dos baianos e símbolo da capacidade humana de transformar a paisagem urbana.
Hoje, quando observamos o elevador diante da Baía de Todos os Santos, vemos muito mais do que o nome gravado em sua fachada. Vemos uma cidade, uma cultura e um povo.
O monumento tornou-se muito maior do que seus criadores.
Mas isso não elimina uma questão fundamental.
Quem merece ser homenageado?
Toda homenagem pública é uma escolha política e cultural.
Quando uma cidade decide dar o nome de alguém a uma praça, uma avenida, uma escola ou um monumento, está dizendo às futuras gerações que aquela pessoa merece ser lembrada.
Por isso, é legítimo perguntar:
Devemos continuar homenageando, sem reflexão crítica, personagens cuja riqueza, prestígio ou influência foram construídos sobre a escravidão?


Devemos continuar celebrando figuras associadas ao autoritarismo e à repressão política?
Ou devemos ampliar o espaço da memória para incluir aqueles que lutaram pela liberdade, pela democracia e pela dignidade humana?
Os esquecidos da história
Enquanto inúmeras homenagens permanecem dedicadas a senhores de escravos, traficantes de seres humanos e agentes de regimes autoritários, muitos personagens fundamentais da história brasileira continuam ausentes de nossos espaços públicos.

Onde estão as grandes avenidas dedicadas a Carlos Marighella?
Onde estão os monumentos nacionais em homenagem aos heróis da Revolta dos Malês, que desafiaram a escravidão em Salvador em 1835?
Onde estão as homenagens proporcionais à importância histórica de Luiza Mahin?
Onde estão as praças que celebram Maria Felipa, heroína da Independência da Bahia?
Onde estão os reconhecimentos à altura de João Cândido, o Almirante Negro?
Onde estão as homenagens permanentes a Zumbi dos Palmares, Dandara dos Palmares e Tereza de Benguela?
A ausência dessas figuras também comunica uma mensagem.
O silêncio da memória é uma forma de esquecimento.
Não se trata de apagar a história
Alguns argumentam que rever homenagens seria uma tentativa de apagar o passado.
O contrário é verdadeiro.

Apagar a história seria esconder os fatos.
Conhecer a história significa compreender suas contradições, reconhecer seus personagens e discutir criticamente seus legados.
Nenhum monumento perde seu valor histórico porque passamos a enxergá-lo de maneira mais completa.
Ao contrário.
Quanto mais conhecemos o passado, mais madura se torna nossa relação com ele.
Uma reflexão necessária

O Elevador Lacerda continuará sendo um dos maiores símbolos da Bahia.
Sua importância histórica, cultural e arquitetônica é incontestável.
Mas sua história nos convida a refletir sobre algo que vai muito além dele.
Quem escolhemos homenagear?
Quais valores desejamos transmitir às futuras gerações?
Quais personagens representam os ideais de liberdade, justiça, igualdade e democracia que queremos afirmar como sociedade?
Responder a essas perguntas não muda o passado.
Mas pode ajudar a construir um futuro melhor.

⸻
Referências bibliográficas
* João José Reis. Rebelião Escrava no Brasil: A História do Levante dos Malês em 1835.
* Luiz Felipe de Alencastro. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul.
* Manolo Florentino. Em Costas Negras: Uma História do Tráfico Atlântico de Escravos.
* Laurentino Gomes. Escravidão (Volumes I e II).
* Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling. Brasil: Uma Biografia.
* João José Reis e Flávio dos Santos Gomes. Liberdade por um Fio.
* Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – publicações sobre a história urbana de Salvador.
* Fundação Gregório de Mattos – acervo histórico sobre o Elevador Lacerda.
* IBGE – acervos históricos e estudos sobre a urbanização de Salvador.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
