Entre a saudade e a luta
Voltar a Areia nunca é apenas voltar.
É como se o tempo ao invés de passar, estivesse ali — guardado nas esquinas, nas ladeiras, no silêncio das manhãs frias. A cidade não envelhece como nós. Ela acumula. E, de alguma forma misteriosa, devolve.

Quando cheguei para o XIII Encontro dos Ex-Alunos da Escola de Agronomia do Nordeste, senti isso com força. Não era apenas um reencontro. Era um retorno ao lugar onde começamos a entender o mundo — e mais ainda, a nós mesmos.

A Escola de Agronomia do Nordeste completava noventa anos. Noventa anos de existência, de formação, de histórias entrelaçadas. Fundada em 1936, berço da Universidade Federal da Paraíba, a velha EAN nunca foi apenas uma instituição. Foi um território de convivência intensa, de embates, de descobertas.


Ali, eu cheguei ainda jovem, vindo dos engenhos de Pernambuco, de um mundo pequeno, quase fechado. Mas já carregava inquietações. E foi ali que essas inquietações ganharam forma.


Foi ali que me fiz.
Fui líder estudantil. Participei de movimentos. Organizei a primeira greve na Paraíba, depois do golpe militar de 1964. Questionei. Enfrentei. Dialoguei. Aprendemos todos nós que estudar não era apenas absorver conteúdo — era tomar posição. Era escolher de que lado da história queríamos estar.


E, olhando hoje, talvez esteja aí a explicação para algo que voltou com força nas conversas daquele encontro.
Um colega dizia — com precisão — que não era coincidência o número de ex-alunos da EAN que seguiram a vida pública. Aquela convivência intensa nos alojamentos, no diretório acadêmico, nos campos e nas salas de aula nos ensinavam mais do que agronomia. Nos ensinavam gente.


Ali, aprendíamos a lidar com diferenças, a administrar conflitos, a defender ideias, a construir o coletivo. Aprendíamos política — no sentido mais profundo da palavra.
E os exemplos estavam ali, vivos.
Trajetórias que saíram daquele ambiente e ganharam o mundo: mandatos, prefeituras, lideranças. Eu mesmo segui esse caminho, com cinco mandatos como deputado federal. Mas ao meu lado estavam tantos outros: Tião Gomes, Augusto Bezerra, Aldeone Abrantes, Rubens Germano, Romero Rodrigues, Chió, Cacau, João Galinha, Índio, Assis Lemos, Jonas Leite Chaves…


Não eram nomes. Eram histórias em movimento.
Reencontrar João Galinha foi um desses momentos em que o tempo se curva. Um abraço demorado, uma conversa curta — “uns dedinhos de prosa” — e tudo estava dito. Há vínculos que não se desfazem. Apenas se recolhem, esperando o momento de voltar à tona.
E veio também à memória o “Índio”, que fez dezoito anos de mandato como vereador em Cabedelo. Uma vida inteira dedicada à política, construída, de algum modo, naquele mesmo chão onde todos nós aprendemos a conviver.
Mas o encontro não era feito apenas de grandes trajetórias. Era feito de encontros simples.

Como o de Fernando.
Areiense, hoje morando no Paraná, ele voltou — como quem volta para casa. Na quinta-feira à noite, sentamos para jantar no Hotel Vila Real. E ali, entre uma história e outra, falamos de tudo que o tempo guardou. A conversa não tinha pressa. E talvez fosse isso o mais importante: não tínhamos mais pressa.
Mas houve um momento que, para mim, ficou marcado de forma especial.
O reencontro com o professor Kleber.
Nosso mestre de Química.
Entre risos e lembranças, contei a ele uma história que nunca me abandonou. Em uma de suas provas, eu estava com um “fole” — uma cola engenhosa, feita como uma sanfona. Ali estavam organizados os conteúdos, prontos para serem consultados conforme as questões aparecessem.
Era um plano quase perfeito.
Até que ele me flagrou.
Naquele instante tudo parou. Eu já me via punido, talvez exposto diante da turma. Mas ele não fez disso um espetáculo.
Com firmeza — e uma serenidade que só o tempo me fez compreender — pediu apenas que eu jogasse fora o fole… e continuasse a prova.
Aquele gesto ficou.
Não como medo, mas como lição.
Ali havia algo maior do que disciplina. Havia respeito. Havia uma pedagogia silenciosa, que ensinava mais pelo gesto do que pela punição.
Relembrar isso, tantos anos depois, diante dele, foi como fechar um ciclo. Rimos juntos. E naquele riso havia gratidão.
O encontro seguiu assim: uma costura de lembranças.
Com Verneck, tive outro momento marcante. Além de me presentear com um texto sobre a visita de Aldo Rebelo — ainda estudante da UFAL — à EAN, ele trouxe uma proposta que ficou ressoando em mim: escrever sobre o movimento estudantil do final dos anos 1970.
E que ideia boa da gota serena.
Contar o que vivemos entre 1977 e 1981 não apenas como registro, mas como reconhecimento. Uma geração que não apenas estudou — mas se posicionou.

Os nomes voltavam como ecos: Roberto PP, Biu Xangai, Galinha Preta, Índio, Kiko, Pastorinha, Aroldo Agra, Márcia, Giucélia, Cunha, Lorena…
Cada nome, uma história.
Cada história, um pedaço de um tempo em que ser estudante era, também, escolher um lado.
E, no meio de tudo isso, uma figura se destacava com uma espécie de respeito silencioso: Normando Melquíades.
Diretor em tempos difíceis.
E talvez por isso mesmo, ainda mais importante.
Não era um período de facilidades. Havia tensão, limites, vigilância. E, ainda assim, Normando conseguiu algo raro: ser parceiro sem deixar de ser diretor.
Soube ouvir. Soube dialogar. Soube entender que, por trás das reivindicações, havia uma geração tentando se afirmar.
Ele não apenas administrou uma escola.
Ajudou a formar uma geração.
E isso não é pouca coisa.
Outras cenas vinham, mais leves.
O reencontro com o professor Zé Luís, o temido “algoz” de Cálculo I, cercado por ex-alunos que ainda carregavam — agora em forma de riso — as marcas de suas provas. Por um instante, parecia que o passado voltava com força. Mas o tempo, sempre ele, transformou tudo em alegria.
E seguimos.
Abraços demorados. Histórias repetidas — e sempre melhores. Risadas soltas.
E cachaça.
Da boa.
Porque também é preciso celebrar.
Passamos pela taberna de Tercino, hoje Edilson, seu filho mantém a tradição, ainda que em outro endereço. Estávamos ali — eu, Cecília, Bira de Mogeiro, Joaquim de Brasília e Lêda, Kiko e Maria — como se o tempo não tivesse passado.
Edilson, generoso, me presenteou com uma garrafa de cachaça e um copo de sua coleção pessoal.
Um gesto simples.
Mas carregado de significado.
No futebol, a velha rivalidade deu o tom. Torci pelo Papagaio. Mas a Arara não quis conversa: 4 a 2.
E no fundo, pouco importava o resultado.
O que valia era o riso.
O encontro.
A permanência.
E havia figuras que, por si só, sustentavam o ambiente.
Ewerton Bronzeado era uma delas. Elegante, atencioso, agregador. Lembrei de um verso de Nando Cordel: “Você é como água de cacimba, limpa, doce e saborosa, todo mundo quer beber”. Há pessoas que são assim — fazem bem simplesmente por estarem.
Nem todos estavam.
Algumas ausências pesavam: Roberto PP, Biu Xangai, Pastorinha, Aroldo Agra…
Mas também fazem parte.
A memória não é feita apenas de quem comparece.
É feita também de quem permanece dentro da gente.
E então veio a despedida.
Sempre cedo demais.
Dois dias passam rápido quando estamos diante do que fomos — e ainda somos.
Saí de Areia com uma certeza que não se desfaz:
Esses encontros são atos de resistência.
Contra o esquecimento.
Contra o tempo.
Contra a ideia de que tudo passa.
Porque não passa.
Aquele tempo ficou em nós.
E nós seguimos, de algum modo, carregando ele adiante.
A universidade não foi apenas uma etapa.
Foi formação.
Foi vida.
Foi luta.
Uma dádiva.
E também uma dívida.
E talvez seja por isso que voltamos.
Porque no fundo sabemos:
não se trata apenas de lembrar.
Trata-se de não esquecer.

Josias Gomes
Ex-presidente do Diretório Acadêmico Jaime Coelho de Moraes.
