Luiz Gama, “Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil”
A página Historyzonee conta a história do soteropolitano Luiz Gama. Ele não virou nome de cidade, mas é um dos personagens mais importantes na luta contra a escravização, da qual foi vítima ainda na infância e o seu nome virou símbolo de liberdade. Nasceu livre, no dia 21 de junho de 1830, filho da revolucionária Luísa Mahin, que participou da Revolta dos Malês e da Sabinada.
Já o seu pai era um fidalgo português viciado em jogos. Esse mal que até hoje destrói famílias, marcaria o destino do menino que se tornou “Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil”, título concedido pela OAB. Devido à atuação revolucionária de Luísa Mahin e à perseguição na Bahia, sua mãe teria sido expulsa do Rio de Janeiro e do Brasil por praticar rituais religiosos africanos.

Foi então que o pai de Luiz Gama, atormentado por dívidas de jogo, decidiu vender o menino como escravo. Ele tinha apenas 10 anos. No Rio de Janeiro trabalhou em uma loja de velas até ser comprado pelo alferes Antônio Pereira Cardoso e levado à várias cidades de São Paulo até chegar ao município de Lorena.

Do cativeiro à liberdade: na casa do escravista, Luiz Gama aprendeu a ler, influenciado por um hóspede, o estudante de direito Antônio Rodrigues de Araújo. Então, munido de conhecimento, fugiu em busca de reconquistar a liberdade e a conquistou aos 18 anos. Trabalhou na carreira militar, na Secretaria de Polícia e virou um jornalista respeitado no estado de São Paulo. Entretanto, foi como advogado autodidata (rábula) que Luiz Gama escreveu, com a fonte da liberdade, o seu nome na história do Brasil. Ele conseguiu a liberdade de mais de 500 escravizados e conquistou a libertação de 217 pessoas em um único processo, em 1878.

Luiz Gama não conseguiu se formar em Direito simplesmente por ser negro. Frequentou o Curso de Direito do Largo de São Francisco — atualmente Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo —, mas era hostilizado por professores e colegas. Muito inteligente, extraiu todo o conhecimento possível como estudante ouvinte e se tornou um dos advogados mais importantes da história do Brasil, mesmo sem diploma.
A violência sofrida por Luiz Gama — separado da mãe perseguida, uma mulher de luta e vítima do pai viciado em jogos, que o escravizou mesmo sendo livre — forma um painel da brutal violência sofrida pelos negros vítimas do escravismo no Brasil. É por violências dessa natureza que se justificam políticas públicas de reparação a favor dos seus descendentes. É preciso que a maioria dos brasileiros se aproprie da história de personagens como Luiz Gama e sua mãe, Luísa Mahin. Caso contrário, o racismo de cada dia se aprofunda na sociedade por meio do ódio cego e da falsificação da história como narrativa oficial.
Um país que conviveu com mais de 300 anos de escravidão e depois levou mais de um século para iniciar reparações ainda tem muito a aprender sobre esse tema que permeia todo o tecido social do nosso país e atinge diretamente a maioria dos brasileiros. São os negros que ocupam os trabalhos com menores remunerações; estão em minoria nos espaços de poder, seja na esfera pública, seja na privada. De tal maneira que a luta de Luiz Gama pela verdadeira abolição e por um Brasil republicano segue viva!
“O dia da emancipação será aquele em que […] não houver senhores nem escravos […] opressores nem oprimidos; mas em que o vasto Brasil se chamar a pátria comum dos cidadãos brasileiros.” — Luiz Gama
Josias Gomes, engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
