Nando Cordel e Dominguinhos, um dueto “Bom Demais”
Quem vê um lindo pomar não sabe a luta de quem preparou a terra, escolheu as melhores sementes e irrigou toda aquela fartura. Nando Cordel é um destes plantadores da genuína música popular brasileira. Neste vídeo, o cantador nos conta como foi o início da sua “andança”.
Depois de muita plantação sem colheita, Nando Cordel teve a felicidade de ter no seu caminho aquele que um dia foi pupilo de Gonzagão, e ele sabia como a generosidade é importante para fazer florescer novos embaixadores da música. Além do mais, ser apadrinhado por Dominguinhos é um daqueles sinais dos deuses da música que diz: “Vai, bravo artista, viva da sua arte e encante o povo com o seu talento”.

Enquanto Dominguinhos buscava a sanfona, Nando Cordel, alvoroçado para mostrar serviço, escreveu nada menos que a metade do clássico: “Isso aqui tá bom demais”. E imagine a cena: ver o espanto de Dominguinhos com a velocidade de criação de Nando Cordel, e com aquela fala de cabra bom, dizer: “Meu Deus, é assim rápido?”. E Nando Cordel, com a certeza de quem se apaixona pela primeira vez, não titubeou na resposta: “Eu disse: é”.
Mas Dominguinhos, que nunca gostou de generosidade pouca, convidou somente Chico Buarque para participar da gravação da canção. Nando Cordel, que até então estava fora do rol dos imortais da música brasileira, casou a sua obra com dois dos maiores artistas de todos os tempos.

Mas Nando Cordel, que ainda vivia numa situação de vaca desconhecer bezerro, ganhou mesmo Dominguinhos com a letra que remendou o coração partido do mestre. Depois de ouvir o lamento de amor do parceiro, escreveu no guardanapo a letra: “De volta pro meu aconchego”.
Nando Cordel é pernambucano, nascido em Cabo de Santo Agostinho. Filho de um comerciante que também era poeta e repentista, Seu Manoel do Posto e de uma dona de casa, Dona Nata — daí se explica a poesia, o improviso e a cantoria afiada. Na outra ponta, José Domingos de Morais, o Dominguinhos, rebento da afamada Garanhuns, cidade que também poderia ser chamada de “Garanhuns de Dominguinhos”. Nando naquele primeiro contato com seu mestre ainda não sabia, mas aquele encontro do rio com o mar desaguaria em uma das parcerias mais profícuas da música de Pernambuco. A sorte foi nossa!
Nando Cordel tornou-se um dos maiores cantores e compositores da geração de ouro da música nacional. Contudo, o seu destino poderia não ser o mesmo sem a generosidade, reconhecida pelo mundo da música, do nosso eterno Dominguinhos: sorriso de passarinho e coração do tamanho do Brasil, o artista que fez da sua sanfona terra fértil, ou melhor, um lindo pomar que reúne os melhores da nossa música popular brasileira.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
