Nilo Peçanha — entre o Baixo Sul, a memória afro-brasileira e a construção do Estado nacional
Terra, rios e formação do território
Sempre me chama atenção como algumas cidades da Bahia carregam em seu próprio nome a ligação entre a história local e a história nacional. Nilo Peçanha é uma delas. Situado no Território de Identidade do Baixo Sul, na região conhecida como Costa do Dendê, o município ocupa uma área marcada pela presença dos rios, manguezais, remanescentes de Mata Atlântica e antigas rotas marítimas que ajudaram a integrar o litoral baiano desde os primeiros séculos da colonização.
Com pouco mais de 12 mil habitantes, Nilo Peçanha preserva características típicas do Baixo Sul: forte presença da agricultura familiar, comunidades tradicionais, herança afro-brasileira e uma relação profunda com os recursos naturais que sustentam a vida econômica e cultural da região. Mas a história do município começa muito antes do nome atual.
De Boipeba a Nova Boipeba
A origem do território remonta ao século XVI. Em 1565, por determinação de Lucas Giraldes, segundo donatário da Capitania de Ilhéus, João de Andrade fundou na atual Velha Boipeba a Vila de Santo Antônio de Boipeba, um dos primeiros núcleos de ocupação portuguesa da região. Lucas Giraldes, também conhecido como Luca Giraldi, era um influente comerciante florentino que assumiu a administração da capitania após a morte do primeiro donatário, Jorge Figueiredo Correia. Sua atuação foi decisiva para a organização do território colonial do Baixo Sul. A ele são atribuídas as iniciativas que levaram à fundação das vilas de Cairu, Boipeba e Camamu, formando um conjunto de povoamentos que ajudou a consolidar a presença portuguesa em uma extensa faixa do litoral baiano.

Poucas décadas depois foi construída a Capela do Divino Espírito Santo, elevada à condição de freguesia em 1618, fortalecendo a organização religiosa e administrativa da região. Os constantes conflitos com grupos indígenas levaram as autoridades coloniais a transferirem, em 1810, a sede da vila para o povoado de Jequié, que passou a receber o nome de Nova Boipeba. Nascia ali o núcleo urbano que daria origem ao atual município. A região prosperou inicialmente com a exploração madeireira e, posteriormente, com as atividades agrícolas que marcaram a economia do Baixo Sul.
O cacau, o dendê e a economia da terra
Como grande parte do sul e do baixo sul baiano, Nilo Peçanha viveu durante décadas sob a influência da economia cacaueira. O cacau não representava apenas uma atividade agrícola. Era uma estrutura econômica, social e política que moldava relações de trabalho, ocupação da terra e organização do poder local. Com a crise da lavoura cacaueira nas últimas décadas do século XX, o município precisou diversificar sua economia. Hoje destacam-se a produção de mandioca, banana, coco e dendê, além do extrativismo vegetal e da agricultura familiar. A economia local continua fortemente vinculada ao campo, sustentando milhares de famílias que mantêm viva a tradição produtiva do Baixo Sul.

Quilombolas, cultura e identidade
A história de Nilo Peçanha não pode ser compreendida sem reconhecer a presença afro-brasileira que ajudou a formar a região. Comunidades quilombolas, agricultores familiares e populações tradicionais constituem parte fundamental da identidade local. São grupos que preservam saberes, formas coletivas de trabalho e manifestações culturais que atravessam gerações. Essa herança torna o município um importante espaço de preservação da memória social do Recôncavo ampliado e do Baixo Sul baiano.
Entre as manifestações culturais mais emblemáticas destaca-se o Zambiapunga, uma das expressões folclóricas e religiosas mais antigas da Bahia.

Sua origem remonta às tradições trazidas por povos bantos oriundos das regiões do Congo e de Angola. O nome deriva da expressão Nzambi Ampunga, geralmente traduzida como “Deus Todo-Poderoso”. A manifestação foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia e permanece como um dos símbolos mais fortes da resistência cultural afro-brasileira.
Todos os anos, na madrugada de 31 de outubro para 1º de novembro, homens mascarados percorrem as ruas da cidade em um ritual que mistura religiosidade, ancestralidade e celebração comunitária. Vestidos com roupas coloridas adornadas por franjas de papel de seda e grandes chapéus cônicos, os participantes produzem sons marcantes utilizando tambores, búzios, cuícas artesanais e até enxadas transformadas em instrumentos de percussão. Entre os personagens mais conhecidos estão o Diabo, vestido de vermelho, e a Morte, de preto, representando a permanente dualidade entre vida e morte, proteção e perigo, bem e mal.
Em Nilo Peçanha, o Grupo Folclórico Cultural Zambiapunga atua na preservação dessa tradição, envolvendo adultos, jovens e crianças na transmissão dos saberes culturais às novas gerações.
Quem foi Nilo Peçanha?

Nilo Procópio Peçanha nasceu em 1867, no estado do Rio de Janeiro, e tornou-se uma das figuras políticas mais importantes da Primeira República. Vice-presidente da República, assumiu a Presidência em 1909 após o falecimento de Afonso Pena, governando até 1910.
Seu governo ficou marcado por iniciativas modernizadoras e pela preocupação com problemas estruturais do país.
Entre suas realizações mais importantes para o Nordeste destaca-se a criação, em 1909, da Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), primeiro órgão federal destinado especificamente ao estudo e enfrentamento dos efeitos das secas no semiárido nordestino. Pela primeira vez, a seca deixava de ser vista apenas como fatalidade natural para tornar-se também uma questão de política pública.
Anos depois, durante o governo de Epitácio Pessoa, o órgão foi ampliado e transformado na Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), que posteriormente daria origem ao atual Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).

Nilo Peçanha também teve papel pioneiro na educação profissional brasileira.
Em 1909 criou as Escolas de Aprendizes e Artífices, destinadas à formação profissional de jovens das camadas populares. Na Bahia, a escola foi instalada em Salvador naquele mesmo ano, constituindo o embrião da instituição que, ao longo do tempo, se transformaria no atual Instituto Federal da Bahia (IFBA).


O homem por trás do nome – política, educação e significado histórico
É importante observar que Nilo Peçanha não pode ser enquadrado nas categorias contemporâneas de direita ou esquerda, que ainda não estruturavam o debate político brasileiro durante a Primeira República. Sua atuação situava-se no campo do liberalismo republicano e do sistema político dominado pelas oligarquias estaduais.
Abolicionista e republicano convicto, participou dos movimentos que defenderam o fim da escravidão e a implantação da República. Durante sua trajetória pública destacou-se pela valorização da educação e da assistência social. Seu governo ficou conhecido pelo lema “Paz e Amor” e pela criação das Escolas de Aprendizes e Artífices. Também promoveu a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), uma das primeiras iniciativas federais voltadas às populações indígenas brasileiras. Apesar de sua origem modesta, sua atuação política ocorreu dentro das estruturas das elites republicanas que governavam o país.

Outro aspecto marcante de sua trajetória é sua condição de homem negro e mestiço em uma sociedade que havia abolido a escravidão apenas duas décadas antes. Nilo Peçanha tornou-se um dos raros brasileiros de ascendência africana a alcançar a Presidência da República, fato que possuía enorme significado simbólico em um país profundamente marcado pelo racismo e pela exclusão social. Entretanto, não existem registros de que tenha desenvolvido políticas especificamente voltadas para a promoção da igualdade racial.
Essa ausência não decorre apenas de uma escolha individual, mas reflete uma característica estrutural da Primeira República.
Após a Abolição, o Estado brasileiro praticamente não implementou programas destinados à integração econômica e social dos ex-escravizados. Não houve reforma agrária, distribuição de terras, políticas de crédito, programas de habitação ou sistemas educacionais voltados para a população negra recém-liberta. Predominava entre as elites a ideia de que a liberdade jurídica seria suficiente para garantir a igualdade social.

Ao mesmo tempo, ganhavam força teorias raciais importadas da Europa e projetos de “branqueamento” populacional que incentivavam a imigração europeia como instrumento de modernização do país. As profundas desigualdades produzidas por mais de três séculos de escravidão foram tratadas como problemas individuais e não como questões estruturais que exigissem intervenção do Estado.
Nilo Peçanha governou dentro desse contexto histórico. Sua aposta concentrou-se na ampliação da educação profissional, na modernização administrativa e na integração nacional. Embora essas iniciativas tenham beneficiado amplos setores populares, não foram concebidas como políticas de reparação racial. Essa contradição ajuda a compreender uma das singularidades da história brasileira: a ascensão de um presidente negro ao mais alto cargo da República coexistiu com a permanência de estruturas sociais profundamente excludentes para a maior parte da população afrodescendente.
Quando o nome vira memória
Em 1930, o antigo município de Nova Boipeba passou a chamar-se Nilo Peçanha. A mudança não foi apenas administrativa. Representou a incorporação de uma memória nacional à geografia baiana. Ao receber o nome do ex-presidente, a cidade passou a homenagear um homem público que compreendeu a importância do Estado na promoção do desenvolvimento regional, especialmente para os territórios mais vulneráveis do país.
Entre o passado e o futuro
Hoje, Nilo Peçanha continua sendo uma cidade onde convivem diferentes tempos históricos.
O passado colonial das antigas vilas.
A herança africana preservada nas comunidades tradicionais.
A memória da economia cacaueira.
A agricultura familiar que sustenta a vida contemporânea. E a homenagem a um presidente que ajudou a colocar o problema das secas nordestinas na agenda nacional. Mas não apenas isso. Nilo Peçanha também foi responsável pela criação do Serviço de Proteção ao Índio, contando com o apoio do Marechal Cândido Rondon para a iniciativa, marco inicial da presença do Estado brasileiro na formulação de políticas voltadas aos povos indígenas. Ainda que limitado pelas concepções de sua época, o SPI representou o reconhecimento da questão indígena como tema de interesse nacional.

Seu legado, portanto, está associado tanto ao enfrentamento das desigualdades regionais provocadas pelas secas quanto às primeiras iniciativas federais direcionadas aos povos originários do Brasil. Porque, no fundo, cidades como Nilo Peçanha nos ensinam que a história do Brasil não se encontra apenas nos grandes centros políticos. Ela também vive nas pequenas cidades, nos rios, nos manguezais, nos agricultores, nas comunidades tradicionais e na memória que cada território escolhe preservar.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino.
