Novos talentos, orgulho do nosso Nordeste
Há um som que insiste em não envelhecer. É o som da sanfona, do pandeiro, do triângulo, da viola, da voz do cantador e de tantas outras manifestações que, juntas, formam aquilo que chamamos de cultura nordestina.
Durante algum tempo, houve quem imaginasse que tudo isso pudesse ser engolido pelas modas passageiras, pelas batidas repetitivas e por uma indústria musical cada vez mais preocupada em fabricar sucessos de uma estação. Pois bem: os meninos chegaram.
E eu digo isso com entusiasmo porque vejo nessa nova geração algo que vai muito além do talento individual. Vejo a prova de que o Nordeste continua produzindo artistas, renovando a sua cultura e transmitindo de geração em geração aquilo que temos de mais precioso.
Talvez seja bom, portanto, que alguns produtores musicais — especialmente aqueles que insistem em transformar o São João numa festa sem memória — prestem mais atenção.
Há uma geração chegando
E ela traz o Nordeste na alma.
Antônio Marques e uma conversa em Brasília
Um dos nomes que mais me impressionou recentemente foi o de Antônio Marques, de Cabedelo, na Paraíba. Antônio tem apenas 14 anos, mas é dono de uma voz maravilhosa, daquelas que fazem a gente parar para ouvir. Depois de chamar atenção no The Voice Kids, voltou a conquistar o Brasil no Canta Comigo Teen. Primeiro, levantou 97 dos 100 jurados. Depois, conseguiu algo ainda mais simbólico: os 100 jurados se levantaram para acompanhá-lo em “Eu Só Quero um Xodó”, a eterna composição de Anastácia e Dominguinhos.
Quando vi aquela apresentação, pensei comigo mesmo: esse menino tem alguma coisa especial. Não era apenas um adolescente cantando na televisão. Era um jovem intérprete dando nova vida a uma música que pertence à memória afetiva de milhões de brasileiros.
Na última quarta-feira, estive em Brasília participando das comemorações pelos 34 anos da ATRICON. Entre os muitos encontros daquele dia, conversei com meu amigo Fábio Nogueira, presidente do Tribunal de Contas da Paraíba. Fábio, além de conselheiro e presidente do TCE é cabra bom da gota serena, é também, como costumo brincar, um cachaceiro dos bons. Produz a cachaça Afetuosa, e o nome, diga-se de passagem, combina com o jeito afetuoso com que ele trata os amigos e a cultura de sua terra.
Durante nossa conversa, falei-lhe sobre Antônio Marques.

No próximo dia 2 de setembro, o Tribunal de Contas da Paraíba realizará o Seminário “Direito, Cultura e Controle: diálogo, transparência e impacto social”, com a presença confirmada da ministra da Cultura, a baiana Margareth Menezes.
Então eu disse a Fábio:
— Por que não convidamos Antônio Marques para cantar nesse evento?
Fábio topou de primeira. Gostou da ideia e, ali mesmo, já pediu a uma assessora que entrasse em contato com Antônio. Acredito que será um encontro maravilhoso.
De um lado, Antônio Marques, um jovem cantor paraibano, dono de uma voz extraordinária e representante de uma nova geração de talentos.
Do outro, Margareth Menezes, artista baiana de longa e brilhante trajetória, hoje ministra da Cultura do Brasil.
Será o encontro do jovem talento com a experiência. E penso que será bonito ver Margareth, uma artista que percorreu o Brasil e o mundo levando a música baiana, encontrando-se com um menino de Cabedelo que começa agora a construir o seu próprio caminho.
Outros meninos, outros talentos
Da Bahia, do Recôncavo, vem Ruan Vitor, o Vaqueirinho. Natural de São Félix e morador de Muritiba, ainda muito jovem já conquistou multidões com sua voz, seu carisma e sua maneira espontânea de cantar. João Gomes percebeu cedo que ali havia mais do que um fenômeno das redes sociais. Havia uma promessa da música popular nordestina.
Cantaram juntos “Fogão de Lenha”, e João lhe presenteou com uma sanfona, fazendo-lhe uma espécie de desafio: aprender a tocar o instrumento.

No gesto havia mais do que generosidade.
Eu vejo ali uma passagem de bastão.
Um artista que chegou abrindo espaço para outro que está começando.
E do Ceará vem Elias Neto, menino de uma família em que a sanfona parece passar de geração em geração como um patrimônio de sangue e afeto. Quando vejo crianças como Elias, penso que tradição não é uma fotografia pendurada na parede.
Tradição é aquilo que se transmite.
Também merece registro o pequeno Artur, de Caruaru, em Pernambuco. Ainda criança, já toca sanfona, triângulo, pandeiro e outros instrumentos. É mais um menino mostrando que a música nordestina continua encontrando novas mãos. E há outros talentos surgindo Brasil afora, como Anne Louise, de Roraima, sanfoneira e cantora que chamou a atenção de João Gomes.


Nesse movimento, João Gomes merece uma palavra especial.
Ele próprio é filho dessa música que nasceu longe dos grandes centros, cresceu nas festas do interior e encontrou o Brasil. Agora, usando a projeção que conquistou, abre espaço, chama crianças para o palco e incentiva novos artistas.
Eu gosto dessa atitude. Quem chegou não precisa fechar a porta atrás de si.
Pode deixá-la aberta para que outros passem.
Um banho de nordestinidade
Talvez essa minha vontade de falar tanto do Nordeste tenha uma explicação na minha própria vida. Às vezes, penso que fui tomando, ao longo dos anos, um verdadeiro banho de nordestinidade. Mas vou falar desta minha relação umbilical com o nosso Nordeste no próximo texto. Aguardem…
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
