O dia 20 de abril amanheceu chuvoso em Amaraji
Saí de casa cedo e ao olhar para o lado do Engenho Garra, vi uma neblina daquelas antigas — como nos tempos em que a cidade era cercada de matas por todos os lados. Uma paisagem que não era só paisagem: era memória viva.
Vieram-me lembranças da Mata das Três Bacias, da mata em frente ao campo de aviação, do córrego do “bixigento”. Tudo ainda mora dentro de mim, como se Amaraji nunca tivesse deixado de ser aquele mundo fechado e inteiro da minha infância.
Mas esse reencontro com Amaraji começou dias antes.
Troquei mensagens com o prefeito Araújo e avisei que, ao voltar de Areia, na Paraíba — onde participei do encontro de ex-alunos da Escola de Agronomia do Nordeste — passaria por Amaraji para rever minha gente. Ele, com a generosidade que lhe é própria, disse que organizaria um almoço na Fazenda Dois Leões.
E organizou.

Araújo não fez apenas um almoço. Fez um gesto. E gesto quando vem carregado de afeto, toca fundo. Tocou em mim, viu cabra!
O lugar é de uma beleza simples e acolhedora: uma sede de engenho quase dentro da rua, cercada de árvores, como se o tempo ali tivesse decidido andar mais devagar. Tudo conspirava para um dia muito bom.
Antes mesmo de falar do encontro, vale registrar uma memória que me foi reconstituída com a ajuda de Júlia, neta de Antônio Sotero.
Antônio Sotero de Souza Filho, falecido em 2007, foi um homem desses que constroem a vida com as próprias mãos. Pai de nove filhos, atravessou perdas, recomeços e decisões difíceis.
Do primeiro casamento com dona Alice vieram seis filhos. Depois, com dona Lanuza, filha de Amaraji, vieram mais três. A vida lhe exigiu coragem — sobretudo após a tragédia que marcou a perda de um filho em 1975. Antonio Inácio me contou que foi muito ligado a Bui. O filho de Antônio Sotero que morreu.

No ano seguinte, ele recomeçou. Veio para Amaraji e fundou a Fazenda Dois Leões. Ali fincou raízes, criou seus filhos, viu crescer a família e os netos. Mais que uma propriedade, deixou um território de afeto e permanência.
Hoje, a fazenda segue viva habitada por filhos e netos. Um legado que não é só de terra — é de resistência, de família e de memória.
E foi nesse cenário que nos reunimos.
Gente querida, de muitas histórias cruzadas, como sempre acontece em cidades que moram dentro da gente.
O forró correu solto. O trio Saidera composto pelos jovens, Tadeu, Bruno, Gera e Gustavo, sanfoneiro de primeira, jovens da própria Amaraji, deu o tom do encontro. Sanfona, triângulo e zabumba marcando o tempo de uma alegria simples e verdadeira.
A mesa, farta: churrasco de entrada, depois uma feijoada daquelas que não se recusa — e nem se esquece. Saí de lá, no mínimo, dois quilos mais feliz.
Mas o melhor não estava na mesa. Estava nas pessoas.
Zome, amigo de infância, daqueles que vêm desde o tempo do engenho Estiva.
Suzanila, que eu não via há tempos.
Eliane do Galo, companheira de longa estrada.
Pimpão, hoje vice-prefeito.
Ricardo, vereador, que carrega também o compromisso com a memória da cidade.
Aline Costa Gomes, um patrimônio vivo de Amaraji.
E Antônio Inácio, que fez discurso e também trouxe lembranças. Contou, entre risos, de um baile no salão paroquial em que eu interrompi a banda para cantar uma música de Raul Seixas. Acho que era Medo da Chuva. Talvez fosse mesmo — naquela época, a gente não pedia licença para viver.
Ana Paula, filha dos professores Marinha e Israel, emocionou a todos. Cantou, declamou poesias e reafirmou aquilo que Amaraji sempre soube produzir: talento com raiz.
Teve também história — porque reencontro sem história não se sustenta.
Naquela mesma manhã, saí de casa para avisar, Zome e Antônio Inácio do nosso almoço. Eu estava num carro preto, desconhecido na cidade. Bastou isso para levantar suspeita. Fomos abordados pela polícia.
O policial perguntou se eu era da cidade ou de fora. Respondi: dos dois. Nasci em Amaraji, mas a vida me levou para outros caminhos. Disse meu nome — e a conversa mudou. Ele é filho de Luís Carlos do SESP e me contou que, quando criança, vivia lá em casa.
A cidade é assim: pequena no tamanho, imensa nas ligações.

A desconfiança vinha de uma história que circulava: um carro estranho que estaria abordando crianças. Aquilo me fez lembrar das histórias da minha infância — o tal do “papa-fígado”, os Amorim de Recife, que andavam com saco nas costas, para pegar crianças para tirar o figado, que tanto medo nos causava. Cada tempo tem seus fantasmas.
E, claro, não faltou a boa e velha resenha.
Mano do Galo apareceu com uma latinha de cachaça matuta, coincidentemente de Areia — de onde eu mesmo havia trazido três garrafas da famosa Triunfo de Areia. Resultado: não sobrou nenhuma.
Guardei para o final uma conversa com Jânio, que merece registro.
Ele, tentando elogiar a cachaça que tomou lá em casa, soltou essa:
— “A cachaça é tão boa que nem catinga tem.”
Não aguentei. Respondi na hora:
— “Quem catinga não é a cachaça…”
E o resto você já imagina.
Amaraji é isso.
Não é só o lugar onde nasci. É o lugar que nunca me deixou ir embora por inteiro.
É memória, é riso, é susto, é reencontro.
E, naquele dia, foi também gratidão.
Gratidão pelo gesto de Araújo.
Gratidão pelas pessoas.
Gratidão por ainda poder voltar — e me reconhecer.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
