O dia em que Salvador foi bombardeada pelas tropas federais
Quem acompanha a minha série Personalidades Históricas da Bahia vai lembrar deste episódio traumático: o bombardeio de tropas federais a Salvador. Trato desse tema ao falar da vida e obra de J. J. Seabra, um dos políticos mais influentes da história e ex-governador da Bahia. Seu estilo de fazer política ficou conhecido como “seabrismo” e trouxe consequências substanciais à capital baiana.
No texto, destaco a ascensão de Seabra e as consequências da luta política entre oligarcas:
“O triunfo veio acompanhado de um dos episódios mais dramáticos da história da Bahia: o bombardeio de Salvador, em 1912. Para sufocar os opositores, tropas leais a Seabra dispararam contra a capital, destruindo o Palácio do Governo — com mais de 300 anos de história — e reduzindo a cinzas a Biblioteca Pública da Bahia, uma das mais antigas do Brasil. O episódio ainda danificou o Teatro São João e sobrados da Rua Chile. A cena marcou a memória da cidade e manchou para sempre a biografia do governante.”
O bombardeio foi o ápice da rivalidade entre duas facções políticas:
O presidente Hermes da Fonseca apoiava José Joaquim Seabra para o governo da Bahia. Seabra, que era ministro, representava um grupo oligárquico em ascensão e inimigo político do situacionista baiano. Do lado oposto, o senador Ruy Barbosa (que perdeu as eleições presidenciais para Hermes) e o então governador da Bahia, Aurélio Viana, lideravam a resistência local contra a intervenção federal.
O estopim da briga política aconteceu devido a um impasse jurídico-institucional. Após a renúncia do governador anterior e a recusa do vice em assumir, Viana (presidente da Assembleia) tomou posse contra a vontade do governo federal. Ele ordenou que a Polícia Militar trancasse a Assembleia para impedir a posse de deputados aliados a Seabra. Hermes então autorizou a intervenção militar para garantir o cumprimento de uma decisão judicial, resultando no ataque a Salvador.
Este triste capítulo da história baiana e nacional é pouco conhecido, mas tem enorme relevância para entendermos a sede de poder dos que se acham donos do Brasil. É simbólico que, além de vidas, esse crime também tenha vitimado a sede do governo, o tesouro histórico guardado na Biblioteca Pública e desferido um duro golpe na cultura com os estragos no Teatro São João.
O bombardeio a tiros de canhão, à luz do dia, numa capital relevante como Salvador e no estado mais importante na luta pela independência nacional, prova o quanto a elite política da Primeira República estava disposta a impor suas vontades por meio da força — ainda que, para isso, empregasse violência desproporcional contra baianos e o patrimônio público. Não por acaso, esse período ficou marcado como República Velha, e seus tentáculos, até hoje, influenciam a política nacional.
O ataque a Salvador no ano de 1912 — que, a julgar pela história, não aconteceu há tanto tempo assim — ajuda a compreender a necessidade de fortalecermos as instituições democráticas, que garantem mais participação popular e a quebra do ciclo coronelista ainda presente no Brasil. Desde a Velha República, nossa democracia foi limitada, quando não violentada, por aqueles que querem se perpetuar no poder em detrimento do pleno funcionamento do Estado de Direito.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
