O levante dos valentes: quando o Nordeste desafiou o Brasil imperial
O 2 de Julho de 1823 é a data magna da Independência do Brasil na Bahia e também marca o início da luta por um Nordeste independente, que, no ano de 1824, em Pernambuco, deu origem ao movimento revolucionário denominado Confederação do Equador. A página Recife Ordinário conta, de forma bem-humorada e precisa, esse capítulo importantíssimo das lutas independentistas do nosso povo.
Todo movimento revolucionário começa com a faísca incendiária das palavras. Nesse sentido, Frei Caneca e Cipriano Barata foram os principais propagadores da luta contra os altos impostos, pela abolição da escravidão e pelo respaldo de uma constituição que garantisse as liberdades individuais e de imprensa. Vale destacar que Pernambuco já havia travado grandes batalhas em solo pernambucano, como a heroica expulsão dos holandeses e a própria Revolução Pernambucana de 1817, que também condenava a opressão portuguesa e a extorsão dos altos impostos pagos pela capitania mais rica do império à Coroa. A província rebelou-se contra a Coroa Portuguesa, instituiu um governo provisório e proclamou a República de Pernambuco, que durou exatos 74 dias antes de ser duramente reprimida pelas tropas reais.

A realidade dos fatos é que o Brasil conquistou a Independência de maneira inacabada, já que Dom Pedro I continuou no poder, refém dos interesses de Portugal. Além disso, a riqueza produzida pelo Nordeste foi drenada para sustentar o alto luxo da corte e o desenvolvimento da capital, o Rio de Janeiro. Diante de tamanha injustiça, eclodiu a Confederação do Equador, liderada por Manuel de Carvalho, unindo Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Era uma parte considerável da região Nordeste na luta pela queda da monarquia; no fundo, esse movimento era um desdobramento da própria Revolução Pernambucana.
A repressão do Império foi brutal. Pedro I endividou o império ao contrair empréstimo com o Reino Unido e contratou até mesmo tropas estrangeiras para sufocar os revoltosos do Nordeste. Ao todo, 31 revoltosos foram condenados à morte — 9 não foram executados porque conseguiram fugir —, centenas foram presos e muitos morreram em combate. O imperador, mais uma vez, puniu Pernambuco e desmembrou a Comarca do Rio de São Francisco do território pernambucano (sete anos antes, João VI havia desligado de Pernambuco a Comarca das Alagoas como punição pela Revolução Pernambucana).

O Nordeste foi a região do Brasil que mais lutou para se libertar do colonialismo português. A Guerra de Independência da Bahia (1822-1823); a Revolta dos Malês na Bahia (1835), a maior rebelião de escravizados do país; a Sabinada (1837), também na Bahia; a Conjuração Baiana, também denominada Revolta dos Alfaiates e/ou Revolta dos Búzios (1798-1799); a Batalha do Jenipapo, no Piauí (1823); a Revolta do Quebra-Quilos (1874, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte); a Revolução Pernambucana (1817); a Confederação do Equador (1824, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba); a Guerra dos Palmares (1694); e, não menos importante, a Guerra de Canudos (1896), no sertão baiano, no nascedouro da República.
Pagamos um preço alto pelas revoltas e guerras independentistas. Com o centro do poder no Sudeste, o Nordeste passou a ser cada vez mais esquecido e explorado pelo poder central, mesmo depois da queda da monarquia. No entanto, essa perseguição à região nordestina contribuiu para unificar os nove estados do Nordeste que, mesmo com suas particularidades, formam uma nação dentro do Brasil. Infelizmente, muitas regiões não reconhecem a nossa história de luta, sacrifícios e empenho na construção da República. Cabe a nós orgulharmo-nos dos nossos antepassados e valorizarmos o que somos.

O Nordeste é terra de um povo valente e honrado, que fez do seu legado de lutas libertárias uma verdadeira força da natureza para superarmos todas as adversidades impostas desde o Brasil Império. É daí que também surge um povo criativo, alegre, de cultura extraordinária e que entrou em uma nova era, para que cada nordestino possa viver no país que os nossos mártires sonharam. Viva a nação nordestina!
Josias Gomes, engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
