Paulo Afonso! Organização, fé e luta: os atingidos do São Francisco
Dando continuidade à breve história de Paulo Afonso, segue a segunda parte.
Mas a história de Paulo Afonso não seria feita apenas de engenharia e esperança. A partir dos anos 1970, surgiria outro capítulo decisivo — o da organização popular e da resistência social.
A construção de grandes barragens transformava profundamente a paisagem do vale do rio, mas também ameaçava milhares de famílias que viviam da terra. O progresso prometido pelo Estado brasileiro trazia consigo expulsões silenciosas. Posseiros, meeiros e pequenos agricultores começaram a perceber que poderiam perder não apenas suas terras, mas toda uma forma de vida construída ao longo de gerações.

Foi nesse contexto que nasceu o Polo Sindical do Submédio São Francisco, criado em 1979. A organização reuniu trabalhadores rurais da Bahia e de Pernambuco em plena ditadura militar. Não se tratava de uma atuação restrita a um único território: o Polo articulava comunidades ao longo de uma vasta faixa entre os dois estados, especialmente nas áreas diretamente impactadas pelas barragens e pelos projetos de irrigação. Era um ato de coragem. Sindicalizar-se naquele período significava enfrentar vigilância, repressão e perseguição política.
O movimento sindical passou a enfrentar diretamente autoridades militares e empresas estatais, principalmente CHESF e CODEVASF, exigindo algo que até então parecia impensável: negociação coletiva com o Estado sobre o destino das populações atingidas pelas barragens.

A tensão rapidamente se transformou em conflito aberto. Lideranças sindicais passaram a sofrer ameaças constantes. Em Pernambuco, sindicalistas ligados à organização dos trabalhadores foram assassinados. Entre eles estava Juvêncio, cuja morte marcou profundamente o movimento e simbolizou o custo humano da luta pela terra e pelo direito ao reassentamento digno. Outros relatos, preservados na memória oral das comunidades, falam de violências, perseguições e mortes que nunca chegaram plenamente aos registros oficiais, revelando a face silenciosa e muitas vezes invisível do conflito.
Esses crimes revelavam a intensidade do conflito agrário que crescia com a valorização das áreas irrigadas e com a resistência dos trabalhadores às remoções forçadas.


Mesmo sob medo, o movimento não recuou.
O momento mais decisivo dessa mobilização viria com a construção da Barragem de Itaparica, nos anos 1980. Mais de dez mil famílias estavam ameaçadas de deslocamento. A lembrança da Barragem de Sobradinho, onde milhares haviam sido removidos sem garantias dignas, ainda era uma ferida aberta.
Dessa vez, a história seria diferente.
O Polo Sindical organizou ocupações, marchas e negociações diretas com o governo federal. Depois de anos de mobilização, firmou-se, em 6 de dezembro de 1986, um acordo que se tornaria referência nacional: os trabalhadores recusaram as indenizações meramente financeiras e conquistaram reassentamentos com terra irrigada — uma vitória inédita na história das grandes obras brasileiras.


Mesmo assim, cidades inteiras desapareceram sob as águas. A transformação do São Francisco foi também geográfica e irreversível: com a Barragem de Sobradinho, foram atingidos municípios como Casa Nova, Sento Sé, Remanso, Pilão Arcado e Xique-Xique. Já a Barragem de Itaparica fez desaparecer cidades como Petrolândia e Itacuruba, em Pernambuco, além de impactar Floresta e Belém do São Francisco; na Bahia, Rodelas, Glória, Chorrochó, Abaré e Curaçá tiveram seus territórios profundamente redesenhados, quer pela inundação, quer pelas enchentes. Ao longo do complexo de barragens no entorno de Paulo Afonso, esse processo se repetiu, alterando definitivamente o mapa e a vida de milhares de famílias ribeirinhas.
A antiga Petrolândia tornou-se memória submersa, e mais de 45 mil pessoas precisaram reconstruir suas vidas.


A vitória foi política, mas também profundamente humana: pela primeira vez, o povo ribeirinho conseguiu negociar de igual para igual com o projeto desenvolvimentista.
Nesse processo, uma figura teve papel moral e político decisivo: Alcides Modesto.
Ordenado em 1966, chegou como sacerdote, mas rapidamente compreendeu que evangelizar naquela região significava defender justiça social concreta. Inspirado pelo espírito das Comunidades Eclesiais de Base e pela Teologia da Libertação, ajudou a organizar trabalhadores rurais, fortaleceu sindicatos e tornou-se referência moral durante os conflitos.

Sua atuação ultrapassava o púlpito. Participava de assembleias, mediava negociações e enfrentava autoridades mesmo durante o regime militar. Alcides Modesto — Manoel Alcides Modesto Coelho — não apenas acompanhou o nascimento dessas lutas, mas também ajudou a levá-las para dentro das instituições. Em 1986, tornou-se o primeiro deputado estadual eleito pelo Partido dos Trabalhadores na Bahia, participando da Assembleia Constituinte estadual. Posteriormente, ao lado de Jaques Wagner, integrou a primeira bancada de deputados federais do PT baiano, contribuindo para afirmar, no plano institucional, as demandas que haviam nascido nas margens do rio São Francisco.

Para muitos camponeses, sua presença representava proteção num tempo em que o medo ainda era instrumento de controle social.
Mas a organização popular do São Francisco não nasceu apenas no campo. Ela também encontrou apoio importante no movimento sindical urbano, especialmente entre os trabalhadores do setor elétrico.
Um capítulo muitas vezes pouco lembrado, mas decisivo para a consolidação dessa luta, foi a participação ativa dos eletricitários.
Uma contribuição fundamental para a organização dos participantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) veio do sindicato dos eletricitários — categoria historicamente forte, altamente organizada e politizada em todo o Brasil, com presença particularmente expressiva em Paulo Afonso.


Após a histórica greve dos metalúrgicos do ABC paulista, que inaugurou uma nova fase do sindicalismo brasileiro no final da ditadura militar, os eletricitários protagonizaram, em 1979, uma greve marcante em Paulo Afonso e Recife. O movimento teve grande repercussão regional e consolidou a consciência coletiva dentro de uma categoria estratégica: trabalhadores diretamente ligados à produção de energia, coração do projeto desenvolvimentista nacional.
Essa mobilização ajudou a criar pontes entre operários urbanos e trabalhadores rurais atingidos pelas barragens. Técnicos, operadores e eletricistas passaram a compartilhar experiências organizativas, métodos de assembleia e estratégias de negociação que mais tarde seriam fundamentais para a estruturação do MAB.

Nas décadas de 1980 e 1990, o sindicato dos eletricitários tornou-se um dos mais combativos do país. Sob a liderança de Lázaro Bilac, a entidade ganhou projeção nacional. Bilac foi o primeiro presidente da CUT Bahia e integrou a primeira executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores, levando para o cenário sindical brasileiro a experiência acumulada nas lutas do São Francisco.
Nesse mesmo campo de articulação entre sindicalismo e política institucional, destaca-se também a trajetória de Paulo Rangel. Oriundo do movimento dos eletricitários, foi presidente do Sindicato dos Eletricitários da Bahia (Sinergia), onde teve papel relevante na organização da categoria e no fortalecimento das lutas trabalhistas no setor energético. Posteriormente, elegeu-se deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores e, mais recentemente, passou a integrar o Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia, mantendo uma trajetória vinculada às lutas sociais que emergiram desse mesmo processo histórico.

A presença organizada dos eletricitários contribuiu decisivamente para que o enfrentamento dos atingidos pelas barragens deixasse de ser apenas local e ganhasse dimensão nacional.
Entre fé, organização camponesa e solidariedade operária, formou-se no vale do São Francisco uma das experiências mais importantes de mobilização social do Brasil contemporâneo.
Porque, no fundo, a história daquele rio nunca foi apenas sobre energia elétrica.
Foi, sobretudo, sobre gente.
Sobre comunidades que aprenderam a transformar medo em organização e silêncio em voz coletiva.
Josias Gomes
Conselheiro do TCE/BA
