“Vamos cuidar da tradição pra não deixar o São João virar uma festa que acabou”
Antes do fim, as festas tradicionais começam a mostrar o esvaziamento da sua essência. Muito disso acontece quando desprezamos o patrimônio humano que rege todo movimento cultural. No Nordeste, temos visto cidades que estão progressivamente excluindo os artistas da terra da programação do São João.
As nossas músicas juninas, que tanto valorizam o meio rural, as comidas e bebidas típicas, todo o cenário junino que reúne o sagrado e o profano e, sobretudo, a nossa gente, o sotaque e o jeito de ser, passam a ser ofuscadas por músicas que exaltam a traição, a cachaça sem fim, um hedonismo vazio. Existe quem goste, e eu respeito. Mas reforço: “cada galo em seu quintal”. Esses artistas que não dialogam com a cultura junina têm o ano inteiro para se apresentar nessas cidades; não é justo que eles sejam as estrelas principais de uma festa que tem suas próprias raízes e legado.
A participação popular é fundamental nesta luta em defesa do São João tradicional. Mirem no exemplo do carnaval de Salvador, a maior festa de rua do mundo. Por um curto espaço de tempo, outros artistas de fora tentaram ocupar a centralidade da festa. Mas o povo resistiu, e os artistas encontraram um meio-termo, em que figuras de outros gêneros musicais se apresentam de forma colaborativa na festa, a maioria como convidados de Bell, Ivete, BaianaSystem, Carlinhos Brown, blocos afros, dentre outros.
Quem defende a invasão de outros gêneros musicais no São João constrói a falsa ideia de que somente esses artistas podem superlotar a festa e de que o público de forró tem 50 anos ou mais. Primeiro: as festas juninas nunca foram uma competição de quem coloca mais gente na rua. Segundo: é uma mentira absurda dizer que as novas gerações não curtem o nosso forró tradicional, já que é uma cultura que vem de berço, passada de pai para filho. Terceiro ponto — e o principal: é dever do povo e do poder público preservar o gênero musical que é a trilha sonora do Nordeste.

O Nordeste é uma região unida por suas próprias características. Chegou o momento de haver uma união em defesa do forró e das tradições juninas. É preciso avançar numa legislação que garanta a autenticidade do São João em toda a região. Caso contrário, viveremos de saudosismo e seremos massacrados com festivais de músicas que custam uma fortuna ao erário público e pouco semeiam a cultura local.
Estamos vigilantes e defenderemos sempre o São João raiz! Parabenizo os artistas que não silenciam perante esta avalanche de poder, ego e dinheiro, mesmo sob o risco de serem perseguidos por alguns contratantes. Vamos juntos, em defesa dos nossos artistas e em defesa da nossa festa maior: Viva São João!
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino.
