13 de Maio: a liberdade incompleta de um país desigual
A edição desta quarta-feira da Folha de S.Paulo traz uma importante reportagem do jornalista João Pedro Pitombo sobre a descoberta, na França, de uma fotografia inédita da missa campal realizada poucos dias após a assinatura da Lei Áurea, em maio de 1888.
A imagem é histórica. Mostra uma multidão celebrando o fim formal da escravidão no Brasil. Mas também revela uma contradição brutal: o país festejava a liberdade enquanto abandonava os negros libertos à miséria, à exclusão e ao desemprego.
A abolição foi necessária, justa e civilizatória. Mas foi profundamente incompleta.
A elite brasileira, que durante mais de três séculos acumulou riqueza com o suor, o sangue e a morte de milhões de escravizados, aceitou o fim da escravidão sem aceitar a inclusão social dos negros. Libertaram os escravos, mas não lhes deram terra, escola, moradia, trabalho digno ou qualquer reparação econômica.
Foi uma falsa transição. Mudou-se a lei para preservar os privilégios.
O Brasil aboliu a escravidão sem realizar reforma agrária. Sem democratizar a educação. Sem criar mecanismos mínimos de integração econômica da população negra. A consequência dessa escolha histórica está diante dos nossos olhos até hoje: pobreza concentrada, desigualdade racial, periferias abandonadas e um mercado de trabalho profundamente excludente.

Nada disso foi acidente. Foi projeto de poder.
A mesma elite agrária e conservadora que resistiu à abolição resistiu depois aos direitos trabalhistas, ao voto popular, à previdência social rural e às conquistas sindicais. Cada avanço social no Brasil exigiu luta, greve, organização popular e enfrentamento político.
Os trabalhadores do campo sabem disso como poucos. Direitos básicos — carteira assinada, aposentadoria rural, férias, jornada regulada — foram conquistados muito tarde e sempre sob feroz resistência dos setores dominantes.
A chamada “elite do atraso” jamais aceitou dividir riqueza ou poder.
E ela continua agindo da mesma forma nos dias atuais.
O debate sobre a jornada 5×2 é um exemplo evidente. Milhões de trabalhadores vivem exaustos, adoecidos e submetidos às jornadas desumanas. Ainda assim, setores empresariais e conservadores reagem com violência contra qualquer proposta que reduza a exploração do trabalho e melhore a qualidade de vida do povo.
O discurso muda. A lógica permanece.
Em 1888, diziam que o fim da escravidão quebraria a economia. Depois afirmaram que os direitos trabalhistas destruiriam o país. Hoje repetem o mesmo terrorismo econômico contra qualquer avanço social.
O 13 de maio não deve ser tratado como uma data de celebração ingênua. Deve ser lembrado como símbolo de uma liberdade mutilada. A escravidão acabou juridicamente, mas suas estruturas sociais continuam vivas na concentração da renda, no racismo, na superexploração do trabalho e na desigualdade brutal que marca a sociedade brasileira.
A verdadeira abolição ainda está por ser concluída.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
